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Recorte: O sorriso, a fadinha e o Pokémon Go

Recorte


*Por Talita Guimarães

Era um daqueles dias em que há um descompasso no peito que não se sabe nomear. Ainda no ônibus vacilo entre ler mais um trecho de

Clarice na cabeceira – Jornalismo ou ceder aos apelos do soninho de início de manhã.

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Arte: Talita Guimarães

É quando um vendedor ambulante embarca pela porta do meio, provocando um “ai não” mental tão rápido quanto vergonhoso. Arrependo-me imediatamente de meu mau humor matinal quando o vendedor entrega um pacote verde de jujubas de menta para um garotinho sentado à minha frente e a criança abre um sorriso tão largo e luminoso que sinto vergonha de mim, adulta azeda. O vendedor pede licença para apresentar seu produto e deseja bom dia. Uno-me ao coro fraco em resposta e até me sento direito como quem pede desculpas por qualquer rabugice passageira.

Seguro o pacote de jujubas que ele me entrega e suspiro, em busca do sorriso que a criança dentro de mim daria, se desperta. Olho para o lado e a mulher de blusa de alça sentada no assento ao corredor tem uma fada Sininho grande tatuada na omoplata esquerda. Fito seu rosto impassível, os olhos escondidos por grandes óculos escuros e tento imaginar a garotinha sonhadora que ela também já fora. A fadinha em suas costas talvez indique que ainda é.

Nina

Penso comigo que a gente precisa disso de alimentar fantasias. Permanecer ligados a sonhos.

Enquanto ouço críticas e alertas sobre os perigos de jogar Pokémon Go, por exemplo, me ocorre um entendimento delicado sobre nossos tempos. E é sobre muito mais do que jogos, realidade aumentada ou monitoramento virtual. Trata-se da possibilidade de ser criança de novo e viver pela primeira vez como em um desenho animado de infância.

Como no carnaval, quando Vinícius e Tom já nos teriam cantado em Felicidade: “A gente trabalha o ano inteiro/ Por um momento de sonho/ Pra fazer a fantasia/ De rei ou de pirata ou jardineira.”

O desejo que fica é que o sonho que nos coloca de pé todas as manhãs permaneça vivo em nós, assim como a criança que jamais deveria adormecer pelo caminho.


Recorte 1

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