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Recorte: Da reforma ao refúgio

Recorte


*Por Talita Guimarães

Do banquinho à sombra onde sento, passo os olhos em revista pela praça à minha frente. De um lado casario azul, em frente uma igreja amarela, atrás de mim uma rua de paralelepípedos com calçada de pedras de cantaria. No meio disso tudo algumas árvores e sombras e arbustos e coreto e pessoas descansando em horário de almoço. O vento fresco de maré cheia é bom. E pensar que fui parar ali totalmente por acaso, com meu picolé de limão e um corneto de caramelo. É que jamais havia ido tão longe para comprar sorvete. Ao que tudo indica graças a uma reforma, descobri uma nova possibilidade de refúgio.

29. Da reforma ao refúgio

Arte: Talita Guimarães

Explico: dois dias antes, a lanchonete onde costumo comprar guloseimas perto do meu trabalho fechou sem aviso. No primeiro dia me virei com um sorvete de casquinha do sorveteiro ambulante, no segundo não reuni coragem pra sair depois do almoço, no terceiro decidi arriscar voltar ao Buriti torcendo para estar aberto. Não estava. Taciturna, entrei na loja ao lado e pedi informação sobre o fechamento. Foi então que uma moça me disse que havia fechado para reforma. Agradeci, meio aliviada, meio desamparada, mapeando mentalmente a região atrás de um freezer vermelho. Não consegui lembrar de nenhum lugar específico por isso saí andando a esmo, tal qual uma caçadora de pokémons amadora.

Três quadras depois, estava eu na Praça João Lisboa, onde uma farmácia salvadora despontou ao longe ostentando o tal freezer na porta. Comprei meus bons sorvetes e já ia tomar rumo de volta quando me ocorreu procurar por um lugar com sombra onde pudesse sentar e desfrutar daquela pequena vitória pós-saga por uma humilde sobremesa.

Imediatamente me veio à mente a simpática pracinha Benedito Leite, à direita da ladeira da farmácia, com seus ipês lilases e seu coreto charmoso, porém passível de cautela dado seu potencial para esconder meliantes. Caminho pela praça e sento em um banquinho na sombra. Até parece que nunca fiz isso, tal é minha aparente desconfiança em simplesmente sentar em uma praça pública para tomar um picolé.

Essa vida insana que andamos levando definitivamente nos rouba as mais simples sensações e experiências, colocando-nos em posições de estranhamento que jamais deveriam existir. Nesses momentos que o movimento ocupar é preciso se mostra mais do que relevante, essencial.

Aos poucos, vou me permitindo apreciar o que está acontecendo, sentando mais relaxadamente no banquinho e abrindo meus olhos de dentro para a ocasião. A essa altura, a vista que tenho a minha frente é um retrato doce de um intervalo de descanso que não é só meu.

O sorvete de limão chega ao fim cedendo lugar para o de caramelo. O palito do picolé na minha mão confidencia: “Não existe caminho certo pra felicidade. Mas o atalho é feito de sorvete”.


Recorte 1

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