Abre Aspas

Projeto Subjetivas: O Audiovisual pelos olhos delas

Abre Aspas

*Por Beatriz Farias

A percepção da subjetividade é mergulho em uma intimidade que transcende a ideia de nossos espaços. Exercício de retirar camadas enquanto se olha profundo por dentro. Enquanto se olha no espelho e na pele registra as impressões de cada salto interior, cada acampamento na coragem de se apresentar a si cotidianamente. O subjetivo repensa a beleza porque depende da honestidade em despir-se e lançar ao mundo o que vem de mais essencial nesse infinito que existe através da matéria. Das suas repletas nuances e singularidades se exige uma sensibilidade de sua captação que depende da necessidade do também desnudar de quem registra, e é dessa corda bamba entre essa inquietações que o projeto hoje apresentado desenvolve.

A característica explicada no dicionário como o “pertinente a um indivíduo”, ganhou força ao unir particularidades que desejavam ver seus olhares no audiovisual brasileiro. Mulheres que demonstram o poder da coletividade, ao invés de anular o específico, somar experiências no Projeto Subjetivas, uma plataforma online para apresentar produção das mulheres.

Para jogar luz sobre os diversos (e subjetivos) olhares das mulheres no audiovisual, o projeto está em processo de financiamento coletivo no Catarse. Conversamos com as idealizadoras do projeto para entender melhor a ideia, inspirações e reflexões a respeito de suas ideia da subjetividade. Confira a entrevista a seguir!

SUBJETIVAS 1

Armazém de Cultura: A campanha para o financiamento do projeto “Subjetivas” carrega um forte caráter de coletividade, tanto na proposta de crowdfunding, como também na identidade do projeto. Contem um pouco sobre como se reuniram e idealizaram essa iniciativa!

Subjetivas: O projeto foi idealizado dentro do trabalho de conclusão de curso prático e partiu de uma inquietação sobre a forma que estávamos realizando audiovisual. Nós, idealizadoras iniciais do projeto, vivenciamos funções de produção ao longo das nossas formações no curso de cinema e audiovisual. Existe todo um jeito de fazer “cinema tradicional” que gostaríamos de repensar e experimentar através do Subjetivas. Cinematografias que nos inspiram foram realizadas coletivamente em grupos, como a “french new wave” ou “left bank group”, referências que de certa forma nos inspiraram na questão de propor a intimidade do relato pessoal e nesse jeito coletivo de pensar cinema. Nossa intenção era trabalhar a questão do dispositivo (em experimentações audiovisuais) e as possibilidades de contato e envio de vídeos online. Podemos trabalhar com pessoas de qualquer lugar do planeta com a internet e enxergamos nesse contexto, a possibilidade de expandir nossa proposta para todas as realizadoras brasileiras, algo ambicioso, mas totalmente possível através da internet e do fato de que muitas de nós já registramos a vida naturalmente.

EXPOSIÇÃO SUBJETIVAS 3

Exposição Subjetivas

AC: Nós mulheres sempre temos que lidar com invisibilização em diversos meios. Como está a situação no audiovisual? Vivemos um avanço, como por exemplo, na programação do 11º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo que trouxe algumas discussões como “Mulheres Atrás das Câmeras”, ou ainda estamos longe de encontrar reconhecimento para as mulheres enquanto produtoras?

Subjetivas: O audiovisual brasileiro vive um momento de destaque para as mulheres, que vem junto com uma onda de movimentações como a primavera feminista que tem acontecido desde 2015. Este ano, o Rio Content Market abriu com uma homenagem às mulheres do audiovisual, o que é bem simbólico se pensarmos as mesas propostas pelo evento. Falou-se sobre questões de gênero no cinema, representação e roteiro com mulheres de peso na indústria, como a criadora da série Jéssica Jones. Débora Ivanov, da Ancine, nos apresentou seu estudo – fundamentalíssimo no nosso processo, sobre a participação da mulher no audiovisual brasileiro, temos 23% de participação na criação de roteiros e 19% na direção de obras audiovisuais. Este ano, Anna Muylaert tornou-se membro da “The Academy” e Petra Costa é absoluta quando fala de forma profunda sobre ser mulher e fomenta discussões sobre aborto nas mídias do “Olmo e a Gaivota”, elas nos dão representatividade e isso é muito importante para sermos respeitadas na área. Apesar de todos esses avanços, ainda vemos muitas produções que falam sobre mulheres, protagonizadas artisticamente por homens, visões que nem sempre chegam perto de nos contemplar na representação. Não vivenciamos uma situação de equidade e paridade de oportunidades na profissão, somos historicamente pouco incentivadas a ser criativas e ainda nos deparamos com questões como machismo em set. Então, temos avanços, mas ainda há um caminho a ser percorrido e compreendemos que a situação ainda é mais agravante para as mulheres negras. Por isso consideramos projetos como o Empoderadas da Renata Martins e Kbela da Yasmin Thainá, extremamente relevantes por terem protagonismo na frente e atrás das câmeras!

AC: A palavra “Subjetiva” abre um leque de possibilidades sobre essa “leitura de mundo através de olhares íntimos”. Estamos vivenciando uma nova maneira de olhar para o cinema e o audiovisual?

Subjetivas: Sim e não. Sim porque as tecnologias de vídeo e de exibição online nunca foram tão acessíveis, cineastas que nos inspiram nessa elaboração da experimentalidade com a subjetividade por exemplo, faziam isso (de olhar intimamente para o mundo) nos anos 60. Não estamos vivenciando uma nova maneira de olhar para o cinema e o audiovisual porque Agnès Varda e Chris Marker, por exemplo, já fizeram isso ao longo de suas filmografias, estamos talvez, propondo algo não muito usual para nós realizador@s brasileir@s. Experimentamos tanto na forma de realizar quanto nos processos de exibição, criamos nossas próprias janelas e redes de contatos entre nós. Subjetivas é um projeto de dispositivo, nos voltamos para questões já realizadas e pensadas com o filme-ensaio, o documentário e o cinema de poesia a partir de uma poética proposta por nós para as realizadoras brasileiras. Nesse sentido estamos sim experimentando uma maneira diferente de fazer e pensar audiovisual.

Veja o trailer do projeto:

AC: Ainda sobre os desdobramentos que esse nome sugere, poderiam dissertar um pouco do olhar de vocês do que vale o registro subjetivo, e de como se dá na expressão corporal e íntima disso para a câmera?

Subjetivas: Pensamos o registro subjetivo como uma forma de captar nossa sensorialidade, percepções de mundo, vivências, angustias, ser mulher, se cineasta, ser mãe, ser estudante, ser militante, entre vários outros seres, através do audiovisual. Para passar essas coisas tão subjetivas a cada pessoa, tão únicas, utilizamos o audiovisual como instrumento que interpela essa experiência. O Subjetivas se trata de autoconhecimento mas também de sensibilidade do olhar, perceber e se ver na outra, coisa que hoje em dia se torna cada vez mais raro. A expressão íntima que move nossos corpos varia conforme cada realizadora lida com a câmera, é também sobre a nossa relação com esse objeto na profissão e na vida. Todos esses vídeos feitos para o projeto imprimem subjetividade através da nossa proposta inicial que elabora um certo vaguear com a câmera, uma questão talvez de “flaneurie” audiovisual. No entanto, a partir da liberdade dessa mesma proposta, uma realizadora pode, por exemplo, pedir para que outra pessoa viaje por seu corpo, como um espaço a ser percorrido, num gesto de olhar para si através de outros olhos e entender isso como uma experimentação desse exercício de subjetividade.

AC: Já que o objetivo do projeto é dar visibilidade para as minas da área de audiovisual, poderiam indicar trabalhos que inspiraram – direta ou indiretamente – a criação da Subjetivas?

Subjetivas: “Elena” da Petra Costa, “Os Catadores e eu” da Agnés Varda,“A falta que me faz” da Marilia Rocha (que fala do cinema menor). De certa maneira todas as mulheres envolvidas com audiovisual nos inspiram de alguma forma, sabemos das dificuldades da realização, principalmente aqui no Brasil onde dependemos de leis de incentivo. Então, mulheres e grupos em ação como o Coletivo Vermelha, Cineclube Delas, Coletivo Malva, Facção Feminista Cineclube, nossas próprias produtoras, a Chuva e a Maga… fomentam representatividade, nos inspiram e nos dão força pra continuar na luta por equidade de gênero em todas as áreas. Sites que tem foco no trabalho da mulher no cinema como “mulhernocinema.com” e teóricas como Lauretis e Laura Mulvey também contribuem como fonte de pesquisa para nossa equipe.

Conheça mais sobre o projeto e apoie no Catarse!

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