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Recorte: Os melhores presentes do mundo

Recorte


*Por Talita Guimarães

Quando completei nove anos, meus pais prepararam uma festa de aniversário surpresa pra mim. A primeira festa surpresa da minha vida, com direito a balões coloridos, bolo, docinhos e refrigerantes. Lembro tão bem da emoção que senti ao chegar da escola e tomar um susto com a sala decorada, que até posso saborear novamente o momento ao tocar essa memória.

Não lembro dos presentes que ganhei nem de porquê termos combinado que não haveria festa, para em seguida meus pais armarem a surpresa. Na memória, consta apenas o instante fugaz em que uma felicidade que eu nem sabia que poderia ser ativada em mim diante de uma mesa de aniversário simplesmente brotou em meu coração infantil.

Ah, o fator surpresa e o inesperado que nos ganha o coração!

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Arte: Talita Guimarães

Em meu aniversário mais recente, percebi que os melhores presentes que eu já ganhei na vida foram presentes que eu não sabia que queria. Presentes que vieram tão de surpresa que me encheram de uma felicidade que eu nem sabia poder ser ativada dentro de mim.

Dou-me conta disso após ganhar da minha irmã Talissa, em meu aniversário de 27 anos, um estojo de lápis de cor que apaga. Sim, cada lápis vem com uma borrachinha em uma ponta, combinando com a cor do grafite colorido da outra.

Sábia em sua sensibilidade fraterna, Talissa acertou em cheio ao me presentear com a possibilidade de lidar sem medo com novos tons em minhas experimentações entusiasmadas no reino encantado e formoso das ilustrações. E o melhor, sem sequer precisar que eu desse dica direta do que queria. Porque a bem da verdade, eu nem sabia que queria tão maravilhoso presente!

Todos os anos digo a ela algo que gostaria de ganhar (dois anos seguidos foram os discos da Vanguart) e ela me dá, para minha alegria. Ano passado fizemos uma brincadeira diferente entre nós: ela providenciou um presente por conta própria e me deu dicas bem malucas sobre o que era pra eu adivinhar. Foi uma forma nossa de ocupar agosto, esse mês interminável que me trouxe ao mundo em seu último dia. A espera pelo fim do mês ficou mais divertida, ainda mais porque eu não fazia a menor ideia do que era o presente e as dicas dela não me ajudaram muito. Enquanto eu me distraia tentando adivinhar, agosto passou, trazendo a revelação só no último dia mesmo, como tinha que ser.

Este ano porém, Talissa insistiu para que eu dissesse o que queria. A pergunta mais difícil de todas, creio eu, que geralmente elenco fácil o que não quero, não gosto, não me interessa. Acho que às vezes o que a gente quer está escondido em um lugar que já é tão nosso que a gente nem percebe que já tem, ou já é.

Certa vez vi uma estrela cadente no céu. Pensei rápido “faz um pedido” e não consegui pensar em nada além de “o que eu quero?”. Acho que esse pedido nem estrela cadente pode atender. “Não está na minha ATRIBUIÇÕES”, ela responderia por meio de ofício se uma burocrata a estrelinha fosse.

Voltando aos lápis de cor, somente ao abrir o estojo absolutamente encantada com a surpresa que me dei conta do quanto eu gostaria de usar aqueles lápis todos, ainda mais com a promessa de poder apagar os frequentes erros que eu cometeria com eles. “É uma demanda de infância, isso!”, passei o dia declarando a certeza recém-descoberta de uma vida inteira, curiosa por aprender sobre o que sempre quis, mas não sabia.

Por tudo isso e mais uma ou outra experiência instigante, penso que vale a pena isso de não saber tão claramente o que se quer, ainda mais quando se percebe ao longo da existência que o que a gente acha que quer, ou escolhe querer, nem é lá exatamente o que a gente precisa, ou vai nos fazer feliz.

O papo é tão simples que tentar explicar perde a graça. Vale mais a pena caminhar em frente, esbarrando nas cores novas, nas oportunidades de lidar com elas que nos são fornecidas e nas felicidades que ainda vamos descobrir ter par aqui dentro. Afinal, felicidade tem a ver com descoberta e nada melhor do que descobrir habitar em nós, algo que nos faz bem.


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