Abre Aspas

Do samba de raiz ao ócio criativo: Carol Naine absorve influências para o novo disco

Abre Aspas

*Por Meiri Farias e Beatriz Farias

Para começar o texto de hoje, vale a pena recordar o poeta. Vinicius de Moraes que em uma de suas canções relembra que “o bom samba é uma forma de oração” dialoga bem com Carol Naine, compositora carioca que apresentamos no Abre Aspas de hoje. Não vale o engano: essa reza não trata de sofrimento e nem mesmo precisa ser fruto do silêncio. Oração quando além do divino exterior procura um entendimento de si (ou até mesmo o paralelo entre os dois), tem espaço no riso, alegria e percepção dos cenários em que somos inseridos. “As vezes sinto que faço música como os antigos sambistas: contando uma história, escrevendo a letra com um propósito específico, usando humor, brincando com a língua portuguesa”, explica a artista.

Carol lançou seu primeiro disco em 2013 e já está preparando o sucessor. A compositora explica que as letras do novo trabalho são diretas e objetivas. “A proposta é clara: falar do nosso tempo, dos nossos preconceitos, questionar padrões”, conta. As composições, parcerias com Luciana Elaiuy, apresentam um olhar feminino e já estão sendo apresentadas nos shows. “Vejo que as pessoas estão se identificando, estão se sentindo de alguma forma representadas”. Como a boa oração, a música é aquela que cumpre a função de nos devolver e entender em nós.

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Foto: Página da Artista

Armazém de Cultura: Você é carioca e migrou para São Paulo, essa mudança de cidade tem alguma influência sobre sua inspiração para compor? O “cenário” é importante para a música que produz?

Carol Naine: O cenário me influencia bastante. Eu escrevo o que vejo, o que vivo, mesmo quando projeto algum tipo de fantasia. São Paulo me fez pensar em outras questões de uma forma mais profunda e aqui acabo trabalhando muito sozinha. Posso dizer que entendi o tal do ócio criativo aqui, porque a dedicação exclusiva à música me permitiu ter essa calma. Mas a minha vinda pra São Paulo também coincidiu com um período de grandes discussões no país: política, machismo, intolerância, preconceito são temas que ocuparam muito as redes desde o início de 2015 e acabaram me inspirando a compor uma nova safra de canções. Acho que eu também teria me sensibilizado se estivesse no Rio, mas talvez não tivesse ido tão a fundo nesse projeto do segundo disco.

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AC: Você está preparando um disco novo, certo? O que já pode adiantar para nós?

Carol: Sim! O segundo disco já está gravado e agora está em processo de mixagem, masterização, preparação do material gráfico, etc. Eu já venho cantando as canções novas nos shows e o resultado tá muito bacana. São letras contundentes, diretas. A proposta é clara: falar do nosso tempo, dos nossos preconceitos, questionar padrões. Tem um olhar feminino sem medo e sem vergonha, afinal todas as composições são minhas e da Luciana Elaiuy. E vejo que as pessoas estão se identificando, estão se sentindo de alguma forma representadas.

AC: E em relação a seu primeiro disco, “Carol Naine” (2014), quais são as principais diferenças em relação a sonoridade que está criando para o novo disco? O que mudou na sua carreira desde então?

Carol: O primeiro disco é bem diferente desse agora. Os temas das letras eram mais genéricos, neste segundo estamos focados em uma discussão atual. Isso trouxe a necessidade de dar ênfase maior à voz, às palavras. O Alexandre Vianna fez um trabalho fantástico nos arranjos, usando apenas piano, baixo e bateria no disco inteiro. Não tem firula, é só o trio e a voz. Fiquei muito feliz com o resultado e me sinto mais segura tendo um show realista, prático e surpreendente pra apresentar.

AC: Você fez parte de um projeto que faz releituras de sambas antigos, certo? Conta um pouco sobre o “Depois do Carnaval” e sobre a importância do samba para sua música, principalmente nesse ano que celebramos 100 anos com o Samba.

Carol: O projeto existiu enquanto eu estava no Rio, cantei samba de raiz durante muitos anos e acho que o estilo é a minha maior influência, tanto na forma de compor como de cantar. As vezes sinto que faço música como os antigos sambistas: contando uma história, escrevendo a letra com um propósito específico, usando humor, brincando com a língua portuguesa. Meus discos são de samba, mesmo que não seja tão evidente, porque a raíz da composição tá no estilo e eu não tenho como negar. Não vendo o conceito “samba” porque há outras interferências no resultado final, como a linguagem que o arranjador escolhe usar.

AC: Ficamos muito interessadas no projeto Musiquice! Conta um pouco sobre como funciona!

Carol: O Musiquice é um projeto meu e da Luciana Elaiuy que cria pequenas músicas para fotos do Instagram. Os próprios seguidores marcam #musiquice em suas fotos e nós escolhemos algumas para musicar. Funcionou durante 1 ano e fizemos mais de 120 musiquices. No início era uma música por dia! A ideia é voltar com uma nova temporada, mas ainda não definimos uma data. Ele ainda funciona de forma paralela com encomendas para pessoas e marcas.

Conheça o projeto Musiquice:

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Home do Site Musiquice

AC: Que artistas você considera como influência para o seu trabalho? E dos artistas da nova geração da música brasileira, quais que indicaria para quem gostou do seu trabalho?

Carol: Sempre ouvi muita música brasileira, então não tem como fugir da influência dos grandes: Adriana Calcanhoto, Teresa Cristina, Chico Buarque, Cartola, Wilson Batista, Caetano.

Da nova geração indico as cantoras/compositoras: Isabela Moraes, Bruna Moraes, Marina Iris, Laura Zandonadi e Nina Oliveira.

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