Recortes! / Talita Guimarães / Uncategorized

Recorte: O tempo morto vive

Recorte


*Por Talita Guimarães

No cinema e nas narrativas em geral há um lance de chamar de “tempo morto” os pedaços da história em que nada acontece e que podem ser suprimidos da trama. Comumente, sinto pena desses recortes rejeitados das histórias, embora entenda sua não-função narrativa.

f7be3c80-a0c3-4363-9704-f7917b20a5ed

Arte: Talita Guimarães

Penso que na vida não temos como suprimir nossos incontáveis “tempos mortos”. Os percursos até nossos destinos, os tempos de espera em filas, a ida de um ponto a outro de qualquer lugar, em um dado espaço de tempo. O subestimado “estar a caminho”.

E acho bom. Ótimo, até! Porque a vida acontece, mesmos nos tempos aparentemente mais desprovidos de puls[ação]. E dá-lhe recorte em cima de recorte para não me deixar mentir. Filhotes dos meus mais remotos e insuspeitos tempos mortos em que a vida se mostra pra lá de viva.

Outro dia, voltando a noite pra casa de ônibus, viajava distraída, entre uma pestanada e outra durante a leitura de “A hora da luta” do Álvaro Cardoso Gomes, quando tudo aconteceu muito rápido: sentada atrás da cadeira amarela preferencial próxima à porta do meio, vi uma moça se levantar de uma vez da cadeira perto do cobrador. Ela trazia nas mãos um enorme buquê de rosas vermelhas. Não houve como não olhar pra ela, parada à porta, esperando para descer enquanto se equilibrava com suas flores. A cena linda é dessas que gira o botão do encantamento que permite uma divagação coletiva sobre histórias de vida inteiras.

nina

Claro que fiquei tentando imaginar como terá sido a entrega, quem terá enviado e por quê. A face séria, quase cansada, da moça não revelava muito sobre a história do buquê vibrante, que pareceu atrair os olhares de todos os passageiros ao mesmo tempo. Claro que não tínhamos como adivinhar se ela estava realmente feliz, ou se o buquê era dela mesmo, se fora um presente. Provável que fossemos seu tempo morto entre o fato e sua partilha com alguém.

Talvez haja isso de tempos mortos de uns ganharem sentido para outros nem que seja na apreciação da moça com o buquê que passa ou da vida do outro que acontece na nossa frente, quando linhas da vida se encontram. O que mais uma vez demonstra pra mim que na vida, por mais que a gente sinta o contrário, o tempo morto pode estar bem vivo. Ou como cantam os rapazes do coletivo paulistano 5 a seco: “Tudo nesse tempo morto a qualquer momento pode acontecer” (Vinícius Calderoni/Leo Bianchini).


Recorte 1

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s