Abre Aspas

Susano Correia: Traços literais de beleza e incômodo

Abre Aspas

*Por Meiri Farias

“Eu vou fazer turismo dentro do próprio organismo

Eu vou me aventurar no meu centro,

não posso fugir de mim, se só tenho saídas pra dentro”.

Conversando com  Beatriz Farias sobre o trabalho do Susano Correia e o tipo de “incômodo” que ele proporciona, lembramos da canção “Inimaginável”, do Bernardo Bravo. A composição que fala sobre se perder dentro de si, atravessar a “fronteira escura do mundo”, parece uma boa trilha sonora para seguirmos. Aperta o play.

Susano Correia é artista visual de Florianópolis, com formação pela UDESC. Com várias exposições no currículo, o trabalho de Susano salta na timeline do Facebook pela urgência de sua reflexão. A beleza seu desenho contrasta com aquele incômodo citado no início. Afeto, solidão, tédio, angústia. Traços tão literais que associados as descrições que o artista escolhe, criam uma atmosfera de identificação quase perturbadora. “Acredito que de uma determinada maneira, a imagem abre uma fenda para alojar o título no mais profundo do seu sentido”, explica.

Passear pelos desenhos é como atravessar a porta para seu interior. “Diante do meu contingente psicológico me vejo encurralado num abismo de mim, onde me atiro em forma de arte. ” Na entrevista a seguir, Susano conta um pouco sobre sua obra, influências e a inclinação a trabalhar profundidade no cotidiano, “desde que se esteja disposto a ver a beleza”. Hora de cruzar a fronteira.

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“homem em sua solidão, superpovoada”

Armazém de Cultura: Os seus desenhos despertam incômodo. A literalidade das mensagens desperta surpresa e gera identificação ao dar forma a sentimentos confusos que não conseguimos nomear. Como surgiu a necessidade de trazer essas sensações, esse olhar do que o ser humano tem de mais primitivo, para o papel?

Susano Correia: Acredito que tudo surge das experiências, do modo como o mundo, os afetos e os fenômenos poéticos me atravessam. Diante do meu contingente psicológico me vejo encurralado num abismo de mim, onde me atiro em forma de arte. Faço da melhor maneira que consigo, e tenho encontrado muita gente que se identifica de verdade com minhas questões e com o meu modo de lamentá-las.

AC: É muito interessante se deparar com seus desenhos no rolar da timeline do Facebook. É curioso reparar nesse tipo de conteúdo com tanta carga subjetiva enquanto rolamos pelo caos de informação cotidiana das redes sociais. Como é trazer os desenhos para esse tipo de plataforma e como percebe a recepção/interação das pessoas? É possível ser profundo, sair da superfície, no cotidiano?

Susano: O Facebook é uma plataforma muito alinhada com a contemporaneidade, por isso fico muito feliz em poder fazer bom uso dele na maneira como exponho minha arte. Nessa enxurrada de imagens que é a timeline, poder tocar um coração é muito desafiador, as pessoas agradecem, querem me dizer o quanto gostam, o quanto conseguiram refletir. É possível ser profundo no cotidiano, desde que se esteja disposto a ver a beleza.

 

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“homem destruindo para encontrar-se”

AC: Ainda pensando nessa questão da relação conteúdo-internet, quais são as principais facilidades e receios que um artista passa atualmente com essas novas formas de expor e comercializar o seu trabalho?

Susano: A grande facilidade é poder criar um público sem sair de casa, de maneira democrática e acessível, isto é genial. E os receios? Não sei dizer.

AC: Os títulos dos desenhos no Facebook (assim como os textos que acompanham as artes no blog Notas Visuais) compõem um diálogo muito interessante com obra, ajudando a direcionar a interpretação. Desde títulos como “homem construindo uma torre, para ficar mais longe do seu próprio coração”, a trechos de textos seus, como “Já é tempo de anistiar, de coexistir”. Fica visível a poesia que atravessa o desenho enquanto forma de expressão. Conte um pouco sobre essa relação das palavras com os desenhos?

Susano: Acredito que existem maneiras de passar uma determinada mensagem, que vão muito além da palavra, e uma imagem pega vários atalhos não verbais na hora de comunicar, atalhos pelas veredas das singularidades. Acredito que de uma determinada maneira a imagem abre uma fenda para alojar o título no mais profundo do seu sentido.

NOTAS VISUAIS – Desenhando Frida Kahlo – SPEED DRAWING

 

AC: Conta um pouco sobre as exposições que já participou! Como é a experiência de enxergar sua arte pelos olhos dos outros?

Susano: Até pouco tempo, eu possuía apenas exposições coletivas, que são muito interessantes do ponto de vista relacional e às vezes meio confusas. Este ano foi minha primeira exposição individual que, em sua abertura, teve a felicidade de ter grande sucesso de público. Foi um momento muito agradável de contemplação. Na verdade, não vi meus trabalhos pelos olhos dos outros, diria que o que pude ver foram os olhos dos outros atentos de si, refletindo as suas próprias questões, fazendo com que o sentido fosse dado para aquilo que criei. Mas no momento que eles me contam o que sentem, eu passo a fazer minha interpretação disso, e são sempre meus olhos.

 

copy-of-era-como-se-a-historia-ja-existisse-e-so-transcrevesse-pro-papel-quis-que-as-sensacoes-fossem-alem-da-descricao-psicologica-do-autor-mas-que-quem-estivesse-lendo-pudesse-imaginar-os-sabores

AC: Que artistas, movimentos artísticos, você considera como referência para o trabalho que faz? Não somente nas artes visuais, outras manifestações artísticas (como música, cinema, etc.) influenciam aquilo que desenha de alguma forma?

Susano: Referência artística, para mim, vai muito além de citar meia dúzia de artistas. Pois considero que arte e vida, num determinado processo, são indissociáveis. Logo, a rigor, todas as experiências conscientes e inconscientes podem ser consideradas minhas referências. E sim, me refiro a uma topada na rua, mas pensando em referência artística… Eu busco em várias linguagens com a mesma importância que na própria pintura. Principalmente em romances, poesias, por questão de gosto mesmo. Ultimamente, tenho lido mais do que nunca, tenho meus preferidos: Rimbaud, Machado, Bukowski, Dostoievski, Hugo, Nietzsche. Mas em pintura, gosto de pegar aqueles livros gigantescos que dizem “obra completa do fulano”, e folhear inteiro, alimentar os olhos, pensar que conheço a obra completa de Van Gogh, Picasso, Michelangelo. Sentar na biblioteca ou ir numa livraria e folhear tudo. Ver, deixar o inconsciente de imagens rico, saturado. Em algum lugar, essas imagens interagem, conflitam, mudam e voltam à superfície em forma de algo novo, como uma atualização das significações da arte. Acredito que minhas referências mais pontuais em pintura, mais ligada ao virtuosismo, seriam Rubens, Caravaggio, Bouguereau, Watteau, Delacroix, Waterhouse, entre outros, são os que mais estudo. Vale a pena conhecer todos estes. E pintores que me fascinam, pela força significativa e estilo: Francis Bacon, Iberê Camargo, Van Gogh, Lucian Freud,  Egon Shiele, entre outros, tem muitos, inclusive acredito que às vezes sou muito influenciado por uma única obra de um determinado artista.

coracao-partindo

“coração partindo”

Conheça mais sobre o trabalho do Susano no site Notas Visuais.

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