Recortes! / Talita Guimarães

Recorte: Aconteceu!

Recorte


*Por Talita Guimarães

Deitada atravessada em minha cama, flexiono o joelho esquerdo apoiando o pé na beira, jogo a perna direita pra cima encontrando apoio na porta do armário e encaro o teto. A luz está acesa. O esmalte na unha, úmido. É noite de domingo. Os marcadores do relógio digital escapam aos poucos das 20h.  

Arte: Talita Guimarães

Arte: Talita Guimarães

Minha mãe entra no quarto e estranhando minha posição pergunta o que estou pensando. É sábio de sua parte não questionar o que estou fazendo. Mais preocupante é o que se passa pela minha mente. Ou pior, o que não se passa. 

Respondo que em nada. Não satisfeita, ela pergunta de novo, empurrando de leve meu joelho como quem cutuca alguém desacordado. Digo que na vida. “Que vida?”, pergunta brincalhona. Emendo impaciente que estou tentando pensar num tema pra coluna da semana. Ela sorri imediatamente compreensiva, avisa que está esquentando a janta e sai. 

Pela janela aberta, Cássia Eller entra avisando que lá fora a vida arde sem explicação. Misturada à sua voz trazida pelo rádio, ouço a água do banho do pai ir de encontro ao chão do quintal. 

É tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. E eu sem conseguir me deter sobre o que recortar. Semana após semana tenho aparecido por aqui trazendo minhas crônicas de bem-querer – para pegar emprestada a expressão extraída de um subtítulo de livro do saudoso cronista-poeta José Chagas – com a imensa alegria de quem consegue manter-se em dia com a coluna, tendo sempre o que falar.  

Mas claro que isso de faltar sobre o que escrever ia acontecer cedo ou tarde. Claro que eu ia ter de apelar, em algum momento, à crônica sobre a falta de inspiração. É, Zema*, parece que aconteceu.  

Porque alguma hora você fica tão cheio de tudo que só o nada dá conta. E não adianta se irritar, entrar em desespero ou chutar o balde. Resta-nos deixar o caos acontecer, enquanto sentimos a travessia turbular 

Enquanto encaro o teto vasculhando a memória atrás de alguma lembrança inédita de infância que valha a pena recortar na semana do 12 de outubro, penso em imagens soltas e nenhuma história. O cajueiro, um balanço, uma foto em que meu pai carrega minha irmã e eu aos pés de um galho baixo carregado de cajus. Nosso quintal. Pinico de Sousa. 

Pinico de Sousa! 

Claro! O recorte inédito que por algum motivo esqueci de incluir na lista de animais de estimação da infância, constante em Recorte!. Caramba, como pude esquecê-lo? Talvez porque tivesse pânico dele.  

O bichinho a quem dei o nome de Pinico de Sousa era um pintinho amarelinho que ganhei quando muito pequena, por volta dos quatro anos. Talissa nem havia nascido ainda. Ocorre-me no instante em que batuco o teclado aqui que Pinico foi verdadeiramente o primeiro bichinho de estimação que tive. E sequer fui capaz de reconhecê-lo como tal quando escrevi uma longa crônica sobre sonhos de infância, listando gatinhos, cãezinhos e até um peixe beta cuidados por mim quando criança.  

Há uma foto pitoresca bastante ilustrativa sobre minha relação com Pinico. Papai agachado segurando-o cuidadosamente no chão, enquanto eu, pequenina apareço atrás de papai, a mão em seu ombro e no rosto uma expressão de profundo temor.  

Não tenho uma noção real do tempo que Pinico passou entre nós, lembro somente que eu sequer comparecia ao quintal, uma vez ciente de sua presença no local. A paz para circular pela parte externa da casa só foi restaurada quando a moça que trabalhava aqui levou-o embora, certo dia. Feliz com sua partida, acenei do portão, vendo com meus próprios olhinhos provavelmente já míopes que ele estava mesmo na sacola que Irene levava.  

Algum tempo depois, chegou aos meus ouvidos a chocante notícia de que Pinico havia falecido, vítima de um rato assassino. Até hoje guardo a imagem produzida pela minha imaginação infantil de um rato gordo de quintal comendo-lhe a cabeça. O que me soa bem aterrorizante hoje, embora por algum motivo, a cena tenha surgido como desenho animado pra mim, à época. Crianças podem ser inocentemente perversas, se é que se pode colocar nesses termos.  

Claro que hoje, recordamos Pinico como anedota familiar, dessas que – felizmente – ficam adormecidas em álbuns e voltam à tona quando menos esperamos, encaixadas entre memórias afetivas soltas. 

Mal sabia a medrosa Talitinha de quatro anos que seu primeiro bichinho de estimação tão mal compreendido, coitado, voltaria décadas depois para salvar-lhe a noite de domingo finalmente como uma memória afável, merecedora de certa justiça. 

Aconteceu, Pinico. És recorte! 

E perdoa, onde quer que esteja hoje, amigo tardio, meu completo mal jeito à época. A gente humano custa a completar travessias do caos à redenção. Levamos tempo para escapar do medo. E descobrir que a paz não mora num quintal vazio, mas em álbuns com lembranças sobre tudo o que vivemos. Ou ainda, o nada que permitimos acontecer.

*Zema Ribeiro, jornalista a quem dei entrevista há algumas semanas na Rádio Timbira AM. Na conversa, para o programa Balaio Cultural com Zema e Gisa Franco, falamos, entre outros assuntos, sobre o dia em que eu precisaria escrever sobre não saber o que escrever.  


Recorte 1

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