Abre Aspas

Luiza Lian: Entre as cores de Trancoso e o caos de São Paulo

Abre Aspas

*Por Meiri Farias

Baiana/Paulistana, é assim que Luiza Lian se descreve. A artista que viveu a parte inicial da infância na cores paradisíacas de Trancoso na Bahia, também carrega como parte de sua formação o caos do centro de São Paulo. “Eu vivo o contraste de ser viciada nessa mega cidade de mil universos e querer levar uma vida próxima desses mil universos que a natureza traz no seu modo desordenado e silencioso”, conta Luiza. “‘Esse contraste é parte de quem eu sou e isso reverbera no meu trabalho artístico.”

Em 2015 a cantora e compositora lançou o primeiro disco homônimo pelo selo Risco, com um time de peso que reúne integrantes de bandas como O Terno e Charlie & os Marretas. Atualmente está entre os finalistas do edital Natura Musical, na categoria Voto Popular, para lançar um álbum autoral com a inclusão de sopros e toques eletrônicos.

Confira a entrevista completa!

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Foto: Amanda Amaral

Armazém de Cultura: Na descrição do seu Facebook, você se define como “Baiana/Paulistana”, você sente alguma influência da fase em que viveu na Bahia em sua música? De modo geral, o espaço em que habita contribui na arte que produz?

Luiza Lian: A Bahia foi o lugar aonde eu aprendi a falar, a andar, cada vez mais percebo que essa experiência de ter passado a parte inicial da minha infância em um lugar paradisíaco como Trancoso, foi estrutural na minha formação como pessoa. Essa sensação de olhar pro mar e ver essa linha de fundo infinito mudando as cores ou desaparecendo me emociona sempre. A natureza de Trancoso é muito exuberante, em contraste com isso, quando viemos morar em São Paulo, morei em regiões centrais da cidade. Por muitos anos vivi na Av. São Luis, na Roosevelt e nos arredores da Paulista, estudei na Luz e na Barra Funda, adoro São Paulo, adoro o centro. Eu vivo o contraste de ser viciada nessa mega cidade de mil universos e querer levar uma vida próxima desses mil universos que a natureza traz no seu modo desordenado e silencioso, esse contraste é parte de quem eu sou e isso reverbera no meu trabalho artístico.

AC: Você vem de uma família em que a música esteve muito presente, certo? Como foi o despertar da sua música dentro desse ambiente?

Luiza: Nessa mesma época em que moravamos em Trancoso, minha mãe participava de uma banda, meu pai escrevia pra essa mesma banda, e foi nessa época, assistindo eles e imitando a minha mãe que me despertou a vontade de cantar, muito pequenininha. Quando voltamos pra São Paulo, ela seguiu com projetos solo, cantando músicas de compositores daqui ( do Mauricio Pereira inclusive!) e depois com o Mawaca, grupo de música étnica. A trajetória da minha mãe pela música me formou. Posteriormente, minha mãe foi trabalhar com produção de show, como interprete. Ainda criança, eu já acompanhava a montagem dos mega shows que ela trabalhava, cresci no backstage.

Ouça “Protetora”:

AC: Em 2015, você lançou um disco que reúne um time de peso com integrantes de bandas como O Terno e Charlie & os Marretas. Como aconteceu esse encontro? Conta um pouco sobre como o disco ganhou vida!

Luiza: A gente se conhecia já a algum tempo, eu cantava desde os 13 com o Juliano Abramovay, lá por 2005 a gente frequentava e organizava uma Jam no café do Aprendiz aonde cada banda se inscrevia pra tocar três músicas. Muita gente formava banda só pra ir lá se apresentar e esses encontros foram embriões de muitas bandas que estão por aí agora, Terno, Charlie (ainda que não necessariamente nessa formação e nome), Memórias de um Caramujo, Garotas Suecas, Mojo Workers. Dalí a gente formou a banda Noite Torta, e fazia um show com versões de música brasileira (Itamar, Gil, Caetano, Jards Macalé…) em casas como o Zé Presidente (das poucas que tinham na época). Em 2011 formei uma banda de Jazz (Nuage Jazz) com o Charles na Bateria, e estava gravando o disco do Noite Torta. Nesse momento, vi que era hora de expandir o meu trabalho, fazer uma coisa nova, do meu jeito. Eu peguei algumas músicas que não tinham entrado pro Noite Torta, resgatei músicas do meu pai (da banda de Trancoso) que tinham ficado sem registro naquela época e em 2012 montei a banda para realizar esse projeto com o Juliano, Tomás e Charles, logo depois o Tim e o Peixe (do Terno) chegaram pra participar e nós começamos a ensaiar e descobrir essas músicas. Foi uma experiência sensacional, eu estava afim mesmo de experimentar, cada um veio trazendo as linguagens diferentes pra esse encontro, de uma maneira bem livre, foi assim que o disco foi acontecendo até nascer, devagar, experimentando e construindo junto. Foi um processo muito especial e de crescimento.

Acho que tem um pouco de tudo, o processo de criação é uma dança maluca… de necessidade, de conforto, de desconforto. Muitas vezes uma música ou um desenho vêm de um momento de angustia, mas acaba sendo o esteio pra enfrentar a ventania. Por que os trabalhos são mais deles do que de onde eles vieram, cada vez que eu canto uma música (mesmo as minhas), ela se resignifica dentro de mim.

AC: Sempre que entrevistamos mulheres, gostamos de descobrir como o “o ser mulher” influencia o “ser artista”. No contexto atual, onde temos mais plataformas para expor ideias (e, ainda assim, lidamos diariamente com machismo e múltiplas opressões), como é ser mulher fazendo música no Brasil? Qual é o seu ponto de vista em meio a tantas mudanças – políticas, sociais, no universo artístico?

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Luiza: Não sei se dá pra ter um ponto de vista só. O universo musical é muito masculino ainda e consequentemente machista, o que eu observo é que nesse respeito é um problema de educação e base antes de ser um problema do mercado. Mulheres são desestimuladas a estudar música, a tocar, a compor, a ter uma visão, uma versão ou uma criação diante da vida, e quando uma começamos a fazer nos deparamos muitas vezes com essas mesmas barreiras, antes de te escutar já esperam que você seja mais um bibelô colocado e dirigido por algum ou alguns homens. Mas nos meios artísticos esse gesto não é tão explicito, é sutil, é um certo desmerecimento que muitas vezes é o ponto de partida do olhar diante do seu trabalho já antes de conhecer, uma ausência ainda grande de trabalhos de mulheres nas críticas, nas programações, nos line-ups de festival. Mas para mim o movimento é de ir desconstruindo isso com o meu próprio trabalho mesmo, para mim ser mulher não é influencia para ser artista, é o ponto de partida, a partir dele eu olho e falo sobre as coisas. As redes são importantes para a horizontalização das vozes e das pautas, mas, pra mim, a poesia é bem mais.

AC: Para terminar: quem são as pessoas (ou quais grupos, bandas) que atualmente fazem músicas que dialogam com o seu trabalho, ou ainda que diretamente não faça sentido, que te interessa musicalmente?

Luiza: Olha, é uma lista grande mas aqui vai uma seleção do que eu tenho escutado: A Elza Soares sempre foi uma influencia muito forte, e esse “a mulher do fim do mundo” é um disco maravilhoso, tenho escutado muito o disco da Sara Não Tem Nome, Ava Rocha, Mahmundi, o Tropix da Céu, Tulipa Ruiz, Cabana Café, Luisa Guedes, Camila Garófalo, acho a Angela Carneosso maravilhosa, Aláfia e a Xenia França, Karina Buhr, Metá Metá. Lá fora tem as Ibeyi, Esperanza Spalding (melhor show que eu já fui na minha vida) o Lemonade da Beyoncé e Hiatus Kaiyote.

Mas é inevitável ser principalmente influenciada e dialogar por e com quem você está diretamente trocando e acompanhando de perto os processos criatívos, tenho muita proximidade com as bandas do selo participo (Selo Risco), e tenho escutado muito os discos novos dos meus parceiros do Charlie e os Marretas e d’O Terno, Música de Selvagem, Grand Bazaar, acho que são bandas que eu acompanho tão de perto que as vezes me sinto dentro, mesmo sem cantar ali.

Ouça o disco completo:

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