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Recorte: Do Avesso

Recorte


*Por Talita Guimarães

Quando começo a ler “Sagitário” no letreiro do ônibus onde se lê “São Cristóvão” já sei que só uma pessoa pode me ajudar. Ele mesmo, um oftalmologista. E se tem um médico que eu gosto de visitar é esse! Suspeito que seja porque não costuma envolver dor e sim possibilidade de renovação do olhar com a atualização do grau e a estimulante mudança de visual com um óculos novo. Pois é, pertenço àquela inusitada parcela de pessoas que gosta de usar óculos. E se diverte pesquisando armações. Até acorda cedo no sábado pra encarar uma sala de espera lotada e pegar uma boa vez na fila. 

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Arte: Talita Guimarães

Alertada que o  atendimento é por ordem de chegada, vou cedo para a clínica munida de livro, celular carregado e fones de ouvido para preencher muito bem o tempo de espera, que penso será enorme.  

Contrariando as expectativas de gente ‘fugindo pelo ladrão’ como diria mamãe, é a ausência de fila na recepção que já me faz protagonizar a cena da olhadinha pros lados com aquela cara de “tem algo errado aqui não, hein?” típica de sitcom com Paulo Gustavo.  

Na sala de espera do médico, sento ao lado de uma senhorinha e abro “Confissões de uma garota excluída, mal-amada e (um pouco) dramática”, minha primeira incursão pelo universo literário da xará Thalita Rebouças. Confesso que a leitura me diverte a valer (Tetê, a protagonista reviraria os olhinhos para este “a valer” digno do repertório vocabular de seu amigo Davi, que se expressa pomposamente pois foi criado pelos avós de 80 anos). Leio umas cinquenta páginas ou mais, dando umas risadinhas silenciosas entre uma tirada bem humorada e outra, feliz por adiantar minha lista especial de leituras para outubro, em que estou fazendo um #EsquentaFeliS lendo os autores que vem pra Feira do Livro de São Luís – FeliS em novembro. 

Até que a assistente do médico me chama pra dilatar pupila pro exame de fundo de olho pondo fim a minha alegre estratégia de leitura, bastando duas gotinhas de colírio para que meus olhos ardam e a vista turve de tal modo que fique impossível continuar lendo as letras que agora dançam duzentos pra lá dois pra cá a minha frente. Corta a parte de não haver dor da lista de pontos positivos da visita ao oftalmologista. 

Desisto de continuar lendo e espio os outros pacientes a minha volta. É com algum desconforto que percebo alguns olhares na minha direção, o que ligo ao fato deles terem acabado de assistir a assistente pingando colírio nos meus olhos. Ou talvez seja a chamativa capa do livro da Rebouças. Leitura adolescente, devem estar me julgando. Ou sou eu que nem tô enxergando mais direito mesmo. Vai saber. 

Em poucos minutos chega a minha vez e a consulta transcorre normalmente, exceto pelo fato de eu já ter desistido dos óculos, realizando todo o atendimento enxergando nada além de borrões, enquanto fixo meu olhar na parede por cima dos ombros (acho) do médico para aguçar os ouvidos pras suas orientações, uma vez que olhar diretamente pra ele é pura perda, já que mal distingo contornos a minha frente e quero evitar cerrar a vista na sua direção. 

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Receita na mão, aproveito que por motivos alheios à consulta o médico falou das cenas cotidianas interessantes que às vezes deixamos de ver e comento brevemente do livro em que reuni algumas delas. Falo do lançamento na FeliS e concordamos que é possível que ele goste da leitura.  

Saio da clínica e atravesso com dificuldade a avenida, rumo a um supermercado. A claridade enche meus olhos de água e ardor, mas diminuo o passo, cerro a vista e sigo em frente. Não encontro o produto que queria e vou para a porta, onde meu pai vem me buscar.  

Somente quando chego em casa e me jogo no sofá, minha mãe, desvencilhando-se de suas tarefas para me perguntar como foi,  me lança à queima-roupa um “Talita, você foi com a blusa assim pro médico?”. Olho rápido pra mim mesma e constato a blusa virada do avesso, a costura toda exposta nas golas, ombros e bainhas, uma etiqueta branca e descorada flanando gigante pela própria natureza tal qual bandeira hasteada na costura lateral. Enterro minha cara nas mãos chocada com minhas vestes e acredito profundamente na possibilidade de morrer acometida por uma vergonha súbita e fulminante  

E pensar que enquanto eu falava do meu livro, da FeliS e de olhar atentamente ao redor, o médico devia estar reparando na minha roupa do lado do avesso e anotando mentalmente “não dar crédito a essa paciente que mal se enxerga”. Eita! Vai ver era isso que meus colegas de sala de espera estavam  sacando em mim. Fora o constrangimento tardio em ter vinculado minha imagem zoada ao meu livro, que se fosse um adolescente ia revirar os olhos e dizer “fala sério, mãe!” 

Causo por causo e mal-estar a parte, no fim das contas considero-me devidamente apta a trocar ideias com Tetê, a menina divertidamente dramática do livro da xará que entende bem a adolescente que sempre vai morar em nós, ainda que seja no nosso mais maluco avesso. Afinal, há leitoras de todas as idades em nós, enxergando bem ou mal, sentindo-se inadequada em certas ocasiões com tendência para dramas, comédias e muitas histórias para descobrir, viver e contar.


Recorte 1

One thought on “Recorte: Do Avesso

  1. Quem nunca vestiu algo pelo avesso?as vezes a propria vida fica as avessas e ainda assim conseguimos reverter a situaçao. Tudo é momentaneo e acaba sendo engraçado.

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