Abre Aspas

São Paulo dos Mortos: A cidade infestada por zumbis de Daniel Esteves

Abre Aspas

*Por Meiri Farias

A ideia de criar uma história com zumbis já existia, mas foi a reintegração de posse realizada pelo governo do Estado de São Paulo contra a comunidade do Pinheirinho, São José dos Campos, em 2012 que levou Daniel Esteves a escrever o primeiro volume de “São Paulo do Mortos”. A violência do acontecido gerou o mote para uma das histórias e acabou o incentivando a levar o projeto em frente. “Foi inusitado trabalhar com esse universo de Zumbis, mas a ideia veio e acabou se desenvolvendo em torno de alguns temas que eu quis tratar, utilizando os zumbis como desculpa para isso”, explica Daniel que é roteirista e editor do projeto.

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“São Paulo do Mortos” chega ao terceiro volume com uma campanha de financiamento coletivo do Catarse (ainda é possível colaborar! confira os detalhes no link) e arte de Alex Rodrigues, Al Stefano, Samuel Bono, Omar Viñole e Ibraim Roberson e Sueli Mendes. Na entrevista a seguir, detalhes sobre a nova edição, um papo sobre novas formas de viabilizar o projetos, além de um pouco mais sobre a trajetória de Daniel no universo dos quadrinhos. Confira!

Armazém de Cultura: Vamos falar um pouco sobre a campanha de financiamento do novo volume de “São Paulo dos Mortos”! Você está chegando ao terceiro volume, o que mudou desde que começou a publicar esse projeto?

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Daniel Esteves: São Paulo dos Mortos surgiu em 2013 e foi financiado através de crowdfunding. Foi inusitado trabalhar com esse universo de Zumbis, mas a ideia veio e acabou se desenvolvendo em torno de alguns temas que eu quis tratar, utilizando os zumbis como desculpa para isso. O projeto foi bem recebido e em 2014 lançamos o segundo volume, dessa vez sem o Catarse, por pura falta de tempo para colocar uma campanha nova no ar. Como em 2015 estivemos envolvidos em outros projetos, o terceiro volume veio só esse ano, novamente via crowdfunding.

AC: Na descrição do projeto no Catarse você diz que “lugares tomados por zumbis numa tentativa de refletir certos conservadorismos do presente através destas narrativas ficcionais”. Em “São Paulo dos Mortos”, o cenário é o cotidiano paulistano, mas o acréscimo dos zumbis sugere uma metáfora interessante. Conta um pouco sobre como surgiu essa temática!

Daniel: Primeiro veio a ideia de criar histórias de zumbis. Depois essa questão de colocá-las em São Paulo. Tudo poderia ter morrido na praia, não fosse uma motivação maior, que teve a ver com um fato ocorrido em 2012. A violenta reintegração de posse levada a cabo pelo governo do Estado de São Paulo contra a comunidade do Pinheirinho em São José dos Campos. Esse fato gerou o mote para uma das HQs, por isso levei o livro a frente. Então foram surgindo as outras histórias, tratando de temas variados, alguns mais sérios, outros nem tanto, mas sempre com essa proposta de pensar os Zumbis em nossa realidade.

AC: Explica um pouco sobre o desenvolvimento do projeto, você trabalha com diversos desenhistas, certo? Como funciona a questão da arte? Vários artistas participam do mesmo volume?

Daniel: Eu sou o roteirista e editor. Noutros projetos já havia trabalhado dessa forma, com vários artistas. Comecei a fazer isso no passado como um jeito de conseguir produzir HQs longas dispondo de pouca verba. É sempre uma experiência muito prazerosa trabalhar com vários desenhistas, cada um com seu método, estilo e forma de entregar o material. No caso de São Paulo dos Mortos, na primeira edição tivemos uma coletânea, com cada história desenhada por um ilustrador diferente. No segundo volume tivemos apenas uma história e por isso só um desenhista, porém, tem alguns extras com outros artistas. O novo volume segue o mesmo formato do primeiro, maior e com mais histórias, consequentemente mais ilustradores.

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Já participaram de São Paulo dos Mortos, seja desenhando alguma das HQs, fazendo capa, ou alguma ilustração interna: Alex Rodrigues, Samuel Bono, Al Stefano, Ibraim Roberson, Lucas Perdomo, Laudo Ferreira, Omar Viñole, Wagner de Souza, Wanderson de Souza, Jozz, Will, Denis Melo, Alexandre Santos. Voltam para a nova edição: Alex Rodrigues, Al Stefano, Samuel Bono, Omar Viñole e Ibraim Roberson, além da estreia da Sueli Mendes no universo dos zumbis.

AC: Com a popularização dos mais diferentes tipos de quadrinhos, a curiosidade sobre o processo de produção de uma obra cresce cada vez mais. Queremos conhecer mais sobre o seu trabalho como roteirista. Como começou a escrever HQs e quais trabalhos mais gostou de escrever?

Daniel: Normalmente eu entrego o roteiro já decupado, ou seja, dividido em páginas e com a descrição de cada quadro, além dos textos que estarão nas cenas. Os desenhistas me enviam um primeiro esboço e a partir disso discutimos em conjunto como tudo vai ser.
Comecei a publicar em 2002 e, desde então, não parei mais. No início coletâneas de editoras, ou selos independentes, mas sempre também com materiais de selo próprio. Tive a sorte de me cercar de grandes artistas que deram vida as minhas HQs.

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Nesses mais de dez anos são muitos trabalhos produzidos, entre coletâneas, coisas que escrevi para editoras e HQs que também editei. Meus preferidos são: Por mais um dia com Zapata (história histórica sobre a Revolução Mexicana e que era um desejo muito antigo), KM Blues (HQ mais dramática com a participação do músico brasileiro Cartola e vencedora do HQMix), Nanquim Descartável (uma série que produzi durante um período importante da minha carreira e que levou o HQMix duas vezes), O Louco a Caixa e o Homem (outra das HQs do meu selo premiada com o Troféu HQMix), A luta contra Canudos (HQ história que fiz para a Editora Nemo), além, claro, de São Paulo dos Mortos.

AC: Essa não é a sua primeira experiência com financiamento coletivo. Quais as principais vantagens que você encontra nesse tipo de plataforma? E os receios?

Daniel: A principal vantagem é ter verba para os custos de produção da edição: impressão, envios, recompensas, artistas. Como você tem uma meta a atingir, acaba divulgando mais o projeto antes mesmo dele ser impresso, o que acaba impactando na venda do produto mais pra frente.

O problema principal é conseguir manter a campanha sempre atualizada e vista pelos leitores. Isso com certeza é mais prático e fácil pra quem trabalha com webcomics, o que não é tanto o meu caso.

Saiba como colaborar com o financiamento no site do Catarse:

AC: Meios alternativos para viabilizações e distribuição de projetos (de crowdfunding a serviços de streaming como Social Comics) influenciam muito na forma de pensar quadrinhos hoje em dia? Qual é o impacto concreto na vida do artista?

Daniel: Acredito que o artista deva pensar qual projeto se encaixa mais em cada plataforma, para viabilizá-los. Por exemplo, KM Blues e Por mais um dia com Zapata, HQs que realizei através de Editais do Estado, eu não teria colocado no Catarse, tampouco teria pensado ambas para serviços de Streaming. Da mesma forma tem outros projetos menores que acho mais prático publicar de uma vez, sem crowdfunding, sem Proac, sem streaming, sem webcomic. São Paulo dos Mortos tem uma vida interessante no crowdfunding e com certeza tem apelo interessante para uma plataforma como o Social Comics. Por enquanto tenho colocado histórias já publicadas, mas pretendo também colocar HQs inéditas na plataforma.

Como quadrinista tenho que estar sempre atento a como viabilizar meus projetos, como torná-los rentáveis. Pra isso tenho que pensar em cada uma dessas opções, o que funciona para cada história. Pro ano que vem, por exemplo, pretendo colocar HQ exclusiva lá no Social Comics, para posterior impressão.

AC: Costumamos pedir dicas de HQs que são referências ou influenciaram de alguma forma o trabalho do entrevistado. No seu caso, gostaríamos de saber quais trabalhos você considera relevante indicar especificamente pela qualidade do roteiro.

Daniel: Toda a obra do roteirista italiano Giancarlo Berardi, sobretudo Ken Parker. É uma obra extensa e que mantêm sempre a qualidade em nível bom pra excelente. Sou muito fã de tirinhas como por exemplo Calvin e Haroldo, Peanuts e Laerte. Escrever tiras é uma atividade bem difícil. Gen Pés Descalços, Maus, Modotti, e outros que mesclam biografia (ou autobiografia) e trabalho de pesquisa histórica são obras de profunda dedicação e com resultados fantásticos. Nos últimos anos somos brindados com grandes obras o tempo todo. Os quadrinhos estão num ótimo momento, sobretudo os brasileiros, e merecem um tempinho de atenção por parte do leitor.

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Capas dos volumes anteriores

Para conhecer mais sobre o trabalho do Daniel: Zapata Edições e HQ em Foco.

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