Dica de segunda

Dica de Segunda: A Hora da Estrela (Clarice Lispector)

*Beatriz Fariasdica

A minha ausência na publicação das Dicas em seu formato normal tem vários fatores que não cabem aqui, por isso o que deixo é meu pedido de desculpas e as novas reflexões a respeito de um livro de pouquíssimas páginas, que envolve mais que todas as pessoalidades que poderia citar deste tempo de ausência. Talvez, essa dica que hoje vos apresento já nem seja mais sua forma habitual. Ou quem sabe a mudança tenha mais a ver com o fim do ano se aproximando e essa necessidade inocente nossa de expressar aprendizados. Pois bem, num ano de turbilhão em todas as esferas possíveis da nossa sociedade, recebi dia desses um leve questionamento que seria utilizado para algo que já nem me recordo de um professor. Professor este, que durante todas as aulas desse meu último momento escolar teve a função de construir/desconstruir a maioria das coisas que esta que vos escreve entende por literatura, me questionou como quem não diz nada: “conhecimento pra que?”. Tempos depois de secar individualmente a fonte de todas os clichês eruditos que nossa mente formula mesmo sem querer, a ideia me assaltou num banco de ônibus, enquanto Clarice Lispector me dava porrada tão forte por meio de páginas, que era necessário fechar livro e tomar novo ar: “conhecimento pra quem?”

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Existe um povo dentro da nossa sociedade que não se interessa. Veja bem, não existe um “pelo quê” ou “para quê”, apenas não são. “Não são o que?”. Não são. Que raiva que nos sobe dessa gente! Gente que se satisfaz com pouco, não vai atrás. São pessoas que acreditam na sorte, não duvidam de qualquer verdade pré-estabelecida por medo de ter razão em duvidar. Um medo involuntário de precisar mudar toda uma forma de ver o mundo que lhe moldaram a enxergar. Que raiva não te dá gente que não age pelos instintos, a flor da emoção, nem ao menos calcula milimetricamente todos os próximos passos a dar? Gente que só vai, só anda. Tá buscando o que? Sei lá, disseram pra continuar andando. Que raiva que dá, certo? Verdade é, certo não.

E aqui está Macabéa no meio de dois parágrafos que fazem flecha brilhante para seu nome. M-A-C-A-B-É-A. A reputação a precede: O essencial é que se trata de uma datilógrafa alagoana que se mudou para o Rio de Janeiro, “o romance narra as desventuras de Macabéa” – li na Wikipedia sim, já que nada exemplifica melhor a moça do que a falta de ventura, aquilo que não é pra ser -. Macabéa economiza a vida, mas não almeja também algo lá de muito que vier a acontecer para gastá-la. Não tem pressa, aquilo tudo que ela tem já lhe satisfaz pois jamais ousaria pensar que existe mais. Macabéa aceita.

Mas de onde vem esse tipo de gente? Quem fez essa máquina com coração e cérebro – aparentemente inútil – e por que? Essa máquina é invenção nossa de cada dia, parabéns. “Conhecimento pra que?” Perguntou meu professor tão cheio de expectativas em deixar mais que matéria em sala de aula, e aqui vale o contraste com o deputado Nelson Marquezelli, que ao ser questionado sobre a impossibilidade de pobres fazerem ensino superior com a nova PEC 241 a ser votada essa semana, comentou: “quem não tem dinheiro, não tem que fazer universidade”. Percebeu? A pergunta que ronda. “Conhecimento pra quem?”, pra nós certamente não é. Macabéa – se ainda não ficou claro aqui lhe digo – é tanta gente porque não cresceu com essa qualidade tão mínima atribuída. Não soube o que era e aceitou, mas desempenhou função de instrumento. Instrumento cuja função é ter outra função. E assim foi. Instrumento para uma empresa, para um homem dizer que tem, para dividir quarto com outras pessoas. Quem não tem dinheiro para estudar que não sinta, que não pense. Que nos sirva para algo.

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Desde já peço mais um perdão para caso você ache que estou me esgueirando do tema central, o livro. Tenho a impressão, oposta aliás, de que estou entrando ainda mais, já que a necessidade do que escrever anterior ao começar me ultrapassa, se fazendo presente ainda que tente aquele caminho convencional.

Uma pequena saudade do Nordeste, nada em excesso, saudade de uma tia que lhe tratava mal, e isso há de se sublinhar. Quem desde pequena aprendeu que era incômodo, cresce achando que estar no mundo e qualquer direito a qual necessitar cobrar, é favor que deve agradecer sem questionar, esse pedir licença ao entrar em qualquer espaço, despertencimento de todas as coisas: “quem floresce em campo árido, não sabe a força que tem” – já diria a cantora alagoana Desa. O anseio em incomodar ganha níveis consideráveis ao analisar a moça do patamar mulher da sociedade que era (somos). Vítima de tantos problemas que jamais esperaria existir, a mínima atenção recebida era lucro tão grande que necessitava desculpar-se toda vez que entendia não ter nada a oferecer. Olímpico de Jesus – primeiro e único namorado de Macabéa – representa outro lado peculiar dessa soma de especificidades universais: sua miséria de alma é pretensiosa, quer “subir na vida”, virar gente a qualquer preço. E Macabéa lhe serve de conforto e lembrete, de que há no mundo alguém pior, mais a margem, alguém bom de passar por cima.

A relação extremamente abusiva entre Olímpico e Macabéa não é a única denuncia de machismo presente na história. Clarice vai bem mais longe e nos entrega um narrador absurdo, que logo nas primeiras páginas comenta a impossibilidade desta história ser contada por uma mulher, pois logo cairia no choro estragando o desenvolvimento da trama. Ao identificar a crítica por trás das palavras odiosas, jogadas discretamente durante o enredo, mais significados a respeito daquele narrador se abrem, dando duplicidade no gosto amargo de ter a história da moça inofensiva contada por aquele homem. A maneira que o escritor criou Macabéa dentro de si ultrapassa a linha fina da invenção, se torna existência pulsante. A personagem ganha tal vida (necessário entender essa vida como a qualidade de estar no mundo e não de fazer-se vibrar no meio) que sua experiência impõe condições, a ponto daquele homem sofrer com o destino que se encaminha. É o fardo do narrador: sua função a partir de agora apenas transcreve uma realidade.

Avesso das belezas já inventadas, o livro abriga a crueza da ignorância que machuca, uma inocência que nos enfurece e nos inicia no processo de encantamento e desespero por um ser que só chora ouvindo música. Mas como não amar e proteger também, alguém tão oco que se emociona ouvindo uma canção aleatória no rádio, quando nós tão cheios de sentidos não somos capazes de escutar sem querer dar nossa assídua opinião a respeito? A gente que sabe tanto sobre todas as coisas que jamais pode dar o braço a torcer e descer do pedestal de primeiro lugar. Até para sofrer queremos estar no topo, nossa agustia precisa de evidência. Neste momento, já não sei se ainda envolvida com a escrita Lispector, que durante seu avanço de páginas descobre em conjunto com o leitor, por meio do narrador absurdo novas conclusões, ou relembrando outra aula -desta vez biologia – em que ouvimos coisas importantes a respeito de decorar/entender, mas começo a duvidar do tanto que Macabéa não sabe ou o quanto a gente precisa desaprender. Desaprender desse processo de sociedade institucionalizada que nos coleciona as racionalidades pois tem medo que o espaço entre pensamentos traga o conflito de ideias que é ser gente, e assim ter que nascer de novo dentro de si – o avesso de Macabéa que é tão pobre de todas as coisas nos espelha também, sou eu e você que acreditamos caber tudo dentro das ideias, mas que de vez em quando, ouve o eco de Alice Ruíz revelando-nos: “socorro eu não estou sentindo nada”.

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A catarse acontece no árduo momento em que Macabéa descobre que aquilo que chamava de vida não era tudo, havia muito mais. É o fim, Macabéa está morta e não, isso não é um spoiler – ok, pode ser também -, eu mesma morri infinitas vezes enquanto adentrava nessa secura que é compreender a imensidão dos universos que carrega. É demais pra ela o peso de ser algo, “eu sou, eu sou, eu sou” ficava se repetindo. Poderia terminar com alguma explicação para a grande hora da estrela, remendando com os outros títulos que tanto conversam como a culpa é minha, ou o direito ao grito ou ela não sabe gritar. É tudo isso pra mim e pra você também, leitor(a), mas começo a crer que ainda não alcançamos essa ressurreição. Ainda é hora do medo, nossas inquietações socadas pela impiedade escrita. “Levem um soco no estômago pra ver se é bom. A vida é um soco no estômago”.


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