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Recorte: Conto urbano das meninas e seus dragões

Recorte


*Por Talita Guimarães

Era uma vez uma moça cansada do caos urbano, que todos os dias lhe proporcionava cenas lamentáveis no ônibus a caminho do trabalho. Num dia faltou quase para tomar um banho de estilhaços de vidro da janela que um rapaz em surto esquizofrênico dentro do ônibus quebrara atrás dela. No outro, escapou por pouco do rio amarelo que escorreu por baixo de seu assento vindo diretamente do estômago enjoado de uma criancinha, em suas prováveis primeiras experiências a bordo.

Arte: Talita Guimarães

Arte: Talita Guimarães

Cada dia, um dragão diferente a ser enfrentado aos trancos e barrancos pelo caminho. E ela lá no meio, se envolvendo nas lutas meio por acaso, meio por convicção. É que somente quando tomada de assalto pela vida que a gente descobre quem é em determinadas situações. Quando o motorista veio com tudo pra cima do rapaz crendo-o um vândalo e enchendo-o de tapas no rosto, a moça nem pensou duas vezes em intervir gritando que ele não fizesse isso e puxando-o pelo ombro uniformizado, enquanto uma ou outra passageira engrossava seu coro, indignadas ainda que houvesse entre eles monstros capazes de filmar tamanho desespero humano, insensíveis à frequência diferente em que vivia seu semelhante.

No dia seguinte, no mesmo ônibus de vidro quebrado e clima hostil, achou que tudo iria bem ao ver sentar ao seu lado um pai com uma criança de colo, cujo vestido amarelo ouro e os sapatinhos brancos muito bem asseados com suas fivelas brilhantes indicavam sua inocente nobreza. Até que grandes gotas de suor começaram a brotar de sua pequena face, endurecendo sua expressão pueril e deixando todos inquietos com seu aparente desconforto com aquele dia de calor escaldante. Não se pode achar aceitável que criancinhas enfrentem o mesmo caos com que adultos lidam diariamente, de modo que a moça ofereceu seu lugar na janela ventilada ao pai, que muito gentil agradeceu e recusou, explicando que a bebê só estava um pouco enjoadinha com o balanço e que eles estavam a caminho de uma consulta.

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Tudo parecia sob controle novamente, quando sem aviso prévio o enjoo veio a tona no chão cinza do ônibus, pondo todos em alerta à poça adicionada às margens dos pés, sacolas e malinhas.

Confusa entre a ternura e o enjoo induzido, a moça simplesmente permaneceu onde estava prendendo a respiração, os pés instintivamente elevados do chão, e ajudou o paizinho nervoso ao seu lado segurando sua sacolinha com mamadeira e fralda, enquanto ele socorria a bebê, que logo se recuperou e todos ficaram tranquilos, afinal isso acontece.
No terceiro dia, a moça não perdeu tempo em prender ao corpo sua armadura de todo dia, prevendo os embates que viriam ao seu encontro. Lá estava ela, sentada à janela da cadeira alta lendo seu livro muito dignamente quando uma mulher sentou ao seu lado com uma menina de seus cinco, seis anos. O pensamento imediato foi estratégico, embora rabugento: “será que ela enjoa em ônibus também?”.

Eis que a garotinha, muito perspicaz não deixou por menos e revelou sua alma fabulosa no primeiro semáforo em que o ônibus parou. “Olha, mãe, eles estão apostando corrida!”, soprou seu anúncio em direção a janela da moça, que até ergueu a cabeça para ver do que se tratava. E qual não foi seu espanto ao ver dezenas de motoqueiros, verdadeiros cavaleiros do asfalto, parados ao lado do ônibus, com seus motores rangedores e seus capacetes de todas as cores.

Quando o sinal abriu, as revelações não cessaram, pois a garotinha assumiu sua verdadeira identidade: a de locutora de corridas!

E foi assim que nossa aguerrida e singela moça seguiu confiante de que nada mais a abalaria naquele trajeto, não depois de dias de agitação. Afinal, todos mereciam um pouco da calmaria esperançosa de uma fabulação infantil.


Recorte 1

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