Abre Aspas

Letto e a liberdade de mudar

Abre Aspas

*Por Meiri Farias

A liberdade do pensamento de Letto emerge de sua canção na letra e na melodia. Esse transbordar de criatividade aparece também na capacidade de mutação do artista. Das referências no rock e música clássica do início da carreira até o manguebeat, movimento com a qual tem mais afinidade atualmente, o processo de transformação contínua é alimentado pelo desejo de experimentar “Mudei e vou continuar mudando, porque quanto mais o tempo passa, mais a gente percebe coisas distantes dando dicas nos ouvidos”, conta.

Natural do Rio Grande do Norte, Letto vive no Rio de Janeiro, depois de passar um tempo por São Paulo. Mas foi justamente depois de sair de Natal, que o artista encontrou o “jeito nordestino” dentro de sua música. “Sair do Nordeste me trouxe pro Nordeste, pro Brasil. Hoje busco misturar as varias influencias que tive desde quando passei a ouvir música até agora.” Confira entrevista completa!

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Foto: Keilah Figueiredo

Armazém de Cultura: Você é de Natal, mas atualmente mora no Rio de Janeiro, certo? Sente influências e/ou mudanças na sua música desde que se mudou? De modo geral, o espaço em que habita contribui na arte que produz?

Letto: Sim, sou de Natal, moro no Rio há seis anos. Curiosamente neste momento estou escrevendo da capital potiguar. Vamos nessa.

Essa coisa de ser influenciado pelo lugar em que estamos, anda meio confuso em minha cabeça. E justamente após sair de Natal, morar em São Paulo e agora Rio, sinto que a música e o jeito nordestino de ser, andam cada vez mais dentro do meu som. Cada vez mais vou me apropriando desse jeito swingado e bem humorado de soar. Sempre ouvi muito rock britânico, e acabava reproduzindo uma atmosfera melancólica parecida. E movido pela saudade entre outras questões, passei a ouvir mais as músicas que enquanto morando no nordeste, sempre estiveram por perto e fazem parte da minha raiz.
Tais sentimentos foram alimentando uma vontade de experimentar algo que fosse novo pra mim e meu publico. Sair do nordeste me trouxe pro nordeste, pro Brasil. Hoje busco misturar as varias influencias que tive desde quando passei a ouvir música até agora. Então sintetizando; mudei e vou continuar mudando, porque quanto mais o tempo passa, mais a gente percebe coisas distantes dando dicas nos ouvidos.

AC: A ideia de “liberdade” parece ser constante no trabalho, seja nas letras ou na variedade de ritmos. Poderia comentar um pouco sobre essa diversidade de ideias e ritmos que se encontram em suas músicas?

Letto: A liberdade é a base do meu trabalho. Se não for assim não vai rolar. A maturidade balzaquiana me trouxe uma sacada que estou usando com todas as forças.
Refletindo sobre como fazer um som que me representasse de várias formas, comecei a fazer releituras de mim mesmo, tocando canções melancólicas tendo como base ritmos variados e dançantes, como Carimbó, Ijexá, Guitarrada, Reggaeton, Forró, Cumbia e até Zouk (sorriso de canto); tudo meio que me divertindo, rindo de mim e das minhas canções antigas, que mesmo quando não eram sobre dor de cotovelo, os arranjos acabavam indo para esse lado.

Ouça “Fuga”:

Não faz muito tempo que comecei a experimentar essa variedade de ritmos no meu trabalho solo. Essas “experimentações rítmicas” começaram a nascer em 2013 e hoje posso dizer que sei qual som quero fazer, que tipo de liberdade usufruir. É uma alquimia que demorou, mas chegou no momento certo. Continuo tendo a atmosfera melancólica que sempre curti, só que agora misturo com ritmos Latinos, Brasileiros e Afro-Brasileiros. Seguirei experimentando, em voo livre e sem regras mercadológicas.
Batalhei muito para por em prática diferentes tipos de liberdade, como a de ter meu próprio estúdio de gravação lá no Rio, e poder experimentar como bem entender. Essa liberdade e independência estão sendo primordiais para o resultado final, e é importante não só nos arranjos e cores das canções, mas na minha forma de ser e existir neste mundo de agora trabalhando com minha arte. Enquanto eu me sentir livre, terei tesão de continuar escrevendo.

AC: Quais as principais diferenças que percebe do primeiro álbum “Pare, olhe, escute” até o mais recente “Muda”? Nas temáticas das canções ou nas melodias, o que mais mudou desde o início da carreira?

Letto: As letras sempre tiveram muitas metáforas, e fui aprimorando-as com o passar do tempo. Cada vez mais fui explorando formas de propor imagens juntamente com a poesia escrita, mas a principal diferença foi a qualidade das gravações e da mix. Todos os álbuns foram gravados em Home estúdio, com equipamentos não tão caros, fazia do jeito que podia, contado com ajuda de pessoas queridas. Esse processo foi muito importante porque fui aprendendo sobre como operar e microfonar da melhor forma quando você não tem um isolamento acústico adequado. O exemplo real dessa evolução é o ultimo lançado, “Muda” Já tem uma qualidade sonora muito melhor, e canções mais maduras também. É um disco que gosto muito pois já tinha consciência de que iria “MUDAR” completamente dali pra frente. Era o fim de um ciclo, inicio desse que estamos agora.

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AC: Apesar da visível variedade de influências, algum artista ou movimento (seja musical ou não) foi determinante para a música que produz?

Letto: Sou influenciado por tudo ao redor, e em tempo real (risos). Falo isso por quê ainda existe um saudosismo que não ajuda os músicos brasileiros.

Quando escuto alguém falar “Música boa era a musica de antigamente” Fico logo puto. enfim… Tudo isso pra dizer que existem sim artistas e bandas que me nortearam muito no inicio da carreira (Oasis, Radiohead, Coldplay, Barão, Legião, Paralamas…). O Rock foi muito importante pra mim, pois neste universo rola uma atitude de tomar iniciativa, subir no palco não sendo um grande guitarrista ou cantor, mais tendo boas ideias e intenções. Sou muito grato por fazer parte dessa escola. A música clássica, que foi o gênero que comecei a estudar, a pratica e teoria músical , me influenciam até hoje, na forma de tocar guitarra por exemplo (sem palhetas). O manguebeat sem duvida foi e é o movimento que mais tenho afinidades hoje em dia, e que sinto que ainda há vestígios vivos circulando no país mesmo depois de tanto tempo. Falando das influencias do agora, tudo, simplesmente tudo me influencia. Vez em quando sou chamado pra discotecar em eventos por aí, e isso me torna um pesquisador a todo vapor. Quando gosto de uma Batida, introdução, já vou procurar saber do que se trata e já entro pro acervo de coisas influenciáveis e tocáveis na balada (risos).

AC: O que planeja para o futuro? Podemos esperar disco novo em breve ou novas apresentações em São Paulo?

Letto: Como falei antes, passei por varias mudanças, e uma delas interfere diretamente de como vou lançar material novo daqui pra frente.

Após o disco MUDA (2013) venho lançando singles, material que já nasce com vídeo clipe. O audiovisual tornou-se tão importante quando a música em si, e é assim que pretendo trabalhar daqui pra frente. Cada música é um álbum, cada canção já fala direta e indiretamente de varias questões existenciais e voltando a falar de liberdade, vou lançar canções aleatórias no decorrer do ano, de forma livre. Dessa forma teremos algo novo sempre, respirando novos ares sempre, me sentindo desafiado, já que cada canção só é lançada juntamente com o clipe. Acho até que esse esquema de lançar singles e não mais álbuns é um futuro cada vez mais próximo. Portanto, não esperem álbuns, e sim singles e mais singles passando na linha do tempo. Fiquem atentos no canal do Youtube, sempre haverá algo de novo.

São Paulo é uma cidade que adoro, e essa ponte de ir, trabalhar e voltar é algo que sempre quis muito. Podem esperar mais idas pra terra da Garoa com certeza, existe muito amor e arte por aí; mas o meu foco é também abraçar e espero ser abraçado pelo Brasil e fazer minha música ecoar.

Ouça “Entre o sim e o não”:

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