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Recorte: Dos gestos que honram memórias

Recorte


*Por Talita Guimarães

Meu pai é professor. Gosta de arrumar a sala de aula com as cadeiras milimetricamente enfileiradas. Sempre gostou de cuidar da própria sala de aula, da limpeza à aula. Quando pequena, cuidava para não esbarrar nas carteiras e tirá-las sem querer do lugar, pois sabia que ele imediatamente perceberia.  

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Sempre achei que o esmero fosse coisa sua, zelo extremado que ele dedica ao ofício de sua vida. Somente numa literal conversa de bar, numa sexta-feira em que eu e meu pai sentamos a mesa de um barzinho dentro da feira da Praia Grande para uma cerveja, um refri e uma fritada de camarão, que descobri que o hábito é uma honraria à memória de minha avó, sua mãe. 

Papai, que já a homenageara dando seu nome ao curso que ele fundou há décadas, manteve em suas próprias mãos os gestos que via vó Madalena repetir ao arrumar as salas de aula da escola pública onde prestava serviços gerais e era merendeira. Assim como lembro de mim pequenina andando com cuidado entre as carteiras de sua sala de aula asseadíssima, papai-menino tem suas lembranças da companhia que fazia à mãe durante os turnos de trabalho dela.  

Enquanto compartilha comigo suas lembranças de infância que justificam certos hábitos de adulto, me dou conta de que assim como ele, tenho lá meus gestos seus gravados em minhas mãos. 

Há quase dois anos, quando fui passar férias na casa de parentes da família materna no Rio, senti imensa falta de meus pais logo ao café da manhã. Instintivamente, adotei uma estratégia inesperada para trazê-los simbolicamente para perto de mim. Um gesto absolutamente simples do qual não consigo mais me desfazer: cortar o pão em diagonal.  

Por incontáveis manhãs vi papai fazer isso com seu pãozinho, na dignidade distraída dos gestos singelos que fazemos sem pensar. Jamais dei bola ou planejei imitá-lo, satisfeita que estava com meu pão inteiro. Até o dia em que o quis por perto e não soube como, em silêncio, fazê-lo para além de mentalizá-lo. Até me deparar com o pãozinho francês quente da padaria do Estácio no pires a minha frente. E entender que cortar o pão na diagonal seria como ver a cena de todo dia. Em que papai é o protagonista. E eu estou ao seu lado.  

Naquela manhã, ao materializar o gesto que até então eu só assistia, incorporei qualquer coisa de papai que já habitava em mim e que me confortou de tal modo a saudade que não pude deixar de acreditar no quão presente ele estava. E estaria para sempre.  

Ontem, 07 de dezembro, papai fez aniversário. E comemoramos com bolo feito por mamãe. A cobertura de cocadinha voou longe quando papai soprou as velinhas. Não comemos pães cortados na diagonal por motivos óbvios.  

Estávamos juntos. Presença garantida e feliz. 

Agora entendo, quando certa vez, emocionado, papai falou que quando ia à praia conversava com seu falecido pai dizendo assim: “veja o mundo pelos meus olhos!”. É que enquanto formos capazes de honrar uns aos outros nos gestos mais simples e amorosos, quem amamos seguirá conosco, habitando em nós.


Recorte 1

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