Recortes!

Não estamos para brincadeira. Nunca estivemos

Recorte


*Por Talita Guimarães

Um sítio em Paço do Lumiar-MA, 1998. Lá estava eu, com meus nove anos recém-completados, correndo de um lado pro outro com meus coleguinhas de escola em mais um passeio de dia das crianças. Dessa vez, tinham nos levado para passar o dia em um sítio, na região metropolitana de São Luís, onde o contato com a natureza – árvores frutíferas, plantinhas, bichos e até um açude – seria um ótimo programa para aquela criançada entre cinco e dez anos.  

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Lembro que o dia começou bem, com as crianças todas arrumadinhas e comportadas chegando ao sítio com as professoras e acomodando seus pertences – mudas de roupa para troca ao fim do dia, produtos de higiene pessoal e lanches – no interior da casa.  

Tudo corria normalmente, com a gente andando pelo sítio, vendo as árvores e os bichos, se aproximando curiosamente do açude, que sabíamos não iríamos – nem podíamos – entrar e então finalmente formando os grupos para começar as brincadeiras.  

Quem nos visse correndo entre risadinhas e gritarias certamente não imaginaria o que realmente se passava ali. E constatar isso hoje em dia me transtorna por se tratar de algo tão incômodo, cuja raiz do problema está justamente em passar despercebido ou pormenorizado em ambientes destinados à formação humana. 

Brincávamos de pegador em um grupo de idades misturadas, minha irmã quatro anos mais nova no meio, até que um menino da minha idade mais ou menos a empurrou e ela caiu no chão. Fui tirar satisfação e não sei como lá pelas tantas a discussão tomou um rumo inesperado com ele e outros garotos achando que podiam tomar gosto comigo e outras meninas. O que começou com implicâncias pueris evoluiu muito rapidamente para gestos e palavras obscenas. Enquanto algumas de nós se magoaram e ficaram aborrecidas, indo brincar de outras coisas mais amenas longe dali, outras como eu se irritaram profundamente e partiram pra cima dos garotos. Obviamente, nossa irritação atiçou ainda mais a sanha deles, que riam e corriam em torno de nós, enquanto eu os perseguia com mais outras colegas, que logo se chatearam e me deixaram pra trás. Por algum motivo estranho, lembro que um menino menor se manteve do meu lado correndo atrás dos garotos para brigar com eles. Nunca saberemos se por tomar partido ou por achar que fazia parte de alguma brincadeira. De todo modo, lembro bem da fúria que tomou conta de mim enquanto eu corria atrás daqueles meninos que debochavam do meu eu-menina com palavras  feias, os alcançava, derrubava às vezes e ordenava que pedissem desculpas as minhas colegas. De longe, na varanda da casa, as professoras não liam as entrelinhas do nosso pegador efusivo. Não sabiam que eu e eles estávamos reproduzindo já na infância uma batalha que é travada diariamente na vida adulta. Que talvez até fizesse parte da vida daquelas mulheres que nos davam aulas primárias. 

Minha convicção de que estava lutando contra uma injustiça já era tão nítida que tive certeza que estava encrencada e levaria bronca quando me aproximasse da casa, porque imaginava que todos estavam me vendo pegar luta com os garotos. Contudo, somente quando torci o braço de um deles – justamente um dos mais salientes, que não era aluno da escola, mas uma das crianças da chácara que se enturmou conosco – mais dolorosamente, que ele foi se queixar à uma mulher do sítio e fui advertida para brincar direito (!). A essa altura já era fim de tarde, as crianças já estavam imundas de terra e já era hora de organizar todo mundo para ir embora. A mulher pôs seus meninos pra dentro e as professoras separaram meninas de meninos para darem banhos em nós antes de voltarmos para a escola e sermos devolvidos aos pais.  

E aí alguém pode perguntar porque não contei a história toda para as professoras porque eu mesma me fiz essa pergunta enquanto puxava a memória desse dia. Acontece que aos nove anos você pode não saber explicar o que se passa com a clareza necessária. Provável que eu tenha dito algo como “eles estão sendo salientes” ou “estavam nos provocando”, queixas que facilmente são tomadas como bobas pelos adultos e toma-lhe passar por cima com advertências e pequenas punições que não nos ensinam sobre o que não é pra fazer.  

Eu já sabia que estava errada em levar adiante reações violentas às provocações sobre meu eu-menina e lembro de ir pra casa já com medo do que meus pais iriam dizer ao serem informados pela escola que eu andara me envolvendo em brigas com meninos durante o passeio. Tenho uma vaga lembrança de uma conversa breve em casa em que expus a situação, ciente de que agi errado, e entendi que não deveria repetir a dose. Mas a escola também nunca entrou em contato para falar sobre o ocorrido e tudo ficou por isso mesmo, talvez porque ninguém tenha saído fisicamente ferido ou a imagem da escola não tenha sido ameaçada.  

Recupero essa memória agora porque é quando seu sentido se completa e entendo que embora achemos que não somos vítimas porque nunca fomos agredidas ou violentadas “oficialmente”, somos desde sempre alvos em potencial.  

Quando as pessoas começaram a postar no Facebook nos últimos dias uma corrente de frases que desconstroem preconceitos de toda ordem, entre elas, “a título de informação: suas ‘brincadeiras’ também contribuem para a cultura da violência”, lembrei desse episódio da infância e do quanto ele tem a ver com as supostas brincadeiras que no lugar de entreter, ferem profundamente. 

Ao enfrentar o garoto que empurrou minha irmã caçula e dirigiu indecências às meninas, expressei minha valentia da forma que soube na época. Fez falta a atenção e sensibilidade de um adulto para identificar o que acontecia e intervir pedagogicamente. Fato é que daquele momento em diante eu já não estava mais para brincadeira. Creio eu hoje, que na verdade, nunca estivemos. 


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