Dica de segunda

Dica de Segunda: As 5 músicas nacionais de 2016

*Por Beatriz Fariasdica-de-seguda

A dica de hoje (a mais esperada do ano por quem a escreve) necessitou de uma mudança para fazer sentido. Geralmente com o nome de “músicas mais bonitas”, foi necessário uma troca para fazer jus ao ano, que não teve como característica principal a beleza. Talvez a graça e dificuldade de lidar com leveza a brusquidão dos dias defina melhor 2016. Desta forma, a última dica deste turbilhão de meses apresenta as 5 músicas do ano, sem adjetivos pelo fato de carregarem por razões distintas a necessidade de sua época, efeito de cura ou reviravolta.

1


5

Faz sol em Ciranda. Independente de como está o clima lá fora, a música carrega o mesmo alívio de encontrar um dia de calor depois de meses cinza. Ainda sobre a condição de sol forte, “Ciranda” refresca, é dança solta a respeito de encontros e pessoas se apaixonando pelo agora. Os sons da canção de Leo Middea apresentam uma gentileza soando a convite, a gente que ouve embarca “rindo pro que vier” como o mesmo revela cantando. Se a música inteira é permeada pela quentura de adentrar histórias, a cantiga de roda acrescentada no fim é a resolução perfeita para um dia de verão: pés descalços na chuva no fim de tarde, que não dura muito, mas nos dá a oportunidade de dançar descoreografados mesmo, libertos.


4

“Se eu quiser eu vou pra rua, se eu quiser eu vou nua, se eu quiser vou do avesso eu não obedeço a sua censura”, são os versos do refrão presentes na música de Bruna Caram, indicando a força que dela provém. A canção apresenta o cansaço a respeito de relacionamentos abusivos e esclarece com a elegância que a moça carrega na voz, ser a única responsável por seu corpo e vontades, além de inspirar a condição de ser sozinha como libertadora, deliciosa. Curioso como a canção revela coragem para além do relacionamento passional, familiar ou entre amigos. Em época que ainda temos o Estado, a Igreja e as mais variadas instituições tratando nossos corpos como propriedade a ser ditada regras, o “ir pra rua” é arma potente, sendo o ato manifestação em qualquer que seja o aspecto. Empunhando cartazes acompanhadas, fazendo carnaval, ou para sair de uma situação que passou dos limites, nosso direito de ser ser humano aqui exaltado em ritmo dançante.


2

Essa é uma música de amor, amor escorrendo na sua dimensão mais profunda de nos fazer querer. Não acho que seja o caso de dizer “sobre” o amor, pois avessa ao que pessoalmente gosto no geral, a canção não é de uma reflexão a respeito de algo, ela é o próprio espírito. Com sanfona de Marcelo Jeneci nos fazendo derreter as securas, é impossível não se render ao sentimento-veludo de Liniker. Há uma sensação produzida na espera que sussurra, música sem pressa, com pausas para prolongar a chegada. O poema do ator e diretor Michel Melamed faz entender: “o que rolou agora, segue seguindo. bicho”, como a inquietação do que se apaixona: “peixe fora do aquário”, a inconstância do arrepio é calor, sensação crescendo nessa história gigante que provavelmente se deleita em segundos no tempo-realidade. Importante acrescentar que a música foi escolhida para a lista no momento de acreditar que ainda é importante falar sobre o amor como o susto de estar entregue. A paixão segue necessária.


3

A canção – de Danilo Moraes – tem uma mágica em sua audição, que é o entendimento preciso de sua mensagem mesmo sem a compreensão total do que diz sua letra. É que os sons chegam antes em algum lugar dentro da gente, não tem nome mais certeiro que “desafio”, essa alegria genuína de estar se jogando sem certezas, mas pela reflexão profunda do tempo (acredito que como um todo o disco “Eu sou outro”, onde se encontra a música aqui citada, revela essa intriga e questões a respeito do tema), e a necessidade de estar no presente, vivenciar. A beleza urgente pergunta: “que motivo então, tenho eu pra esperar, pra me guardar?” e a resposta absurda é seguir. Um conselho pra vida toda potencializado pelas esperanças de ano novo, imagina a loucura de começar a construir agora o que a gente quer no momento? O desafio é aceitar.


6

Quando toca essa música tenho a impressão de escutar com outras partes do meu corpo. Acompanhada da dormência de tudo causada pela voz de Juliana Strassacapa – a voz mais bonita que conheci esse ano -, vem o sentir com os olhos, observar na canção mulheres da família, mulheres da vizinhança, da rua, as mulheres que eu sou. A catarse revela uma música que vai explodindo lentamente os sentidos dentro de nós, uma descoberta que começa do conhecimento a si mesma: “eu sou meu próprio lar”, mas que preenche por ser verdade alcançada, lutada, verdade que cura: “você é seu próprio lar”. Importante mencionar também o clipe da canção, já que se nenhuma palavra que eu disse fez sentido, a delicadeza cortante, brilhante da dança, cores e continuação vai dizer. “e a vida reinventar”.


 

Assinatura Beatriz

Beatriz Farias: Tumblr | Instagram

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