Recortes!

Da coragem para as coisas mínimas que assustam imenso

Recorte


*Por Talita Guimarães

Primeiro houve a mulher que mora no canteiro de uma avenida, vende artesanatos feitos com cocos secos e aceita doação de alimentos e roupas. 

Depois houve o recém-nascido em busca de um doador de medula óssea. 

E então há a minha irmã. 

Arte: Talita Guimarães

Arte: Talita Guimarães

O que esses três personagens tem em comum? Todos guardam em si convites para gestos simples que envolvem grandezas. Coisas mínimas que assustam imenso. E se falo em medo, é porque às vezes as atitudes mais simples e ao nosso alcance são as que mais nos amedrontam, por vários motivos, pondo tudo a perder. 

E não raro esse tudo quer dizer vida.  

A mulher do canteiro primeiro existiu para mim através dos olhos do outro, que a chamou louca por vender cocos secos a vinte reais. Sequer a vi, sequer soube do que se tratava. Apenas ouvi o relato do taxista que sem que eu tivesse dado espaço soltou o comentário aleatório ao fazer o retorno e entrar na avenida que indiquei. 

O tempo passou e eu os esqueci. Até o dia em que ela tornou a atravessar meu caminho, dessa vez batendo no fundo dos meus olhos e mexendo com alguma coisa muito profunda em mim, quando certa noite ao passar no ônibus a vi de fato pela primeira vez. Uma mulher, encolhida dentro de uma caixa de metal, vivendo em um canteiro central. Na calçada vários cocos secos sim, mas claramente transformados em peças de artesanato, ressignificados pelas mãos de uma artesã que tenta viver da sua arte. Uma caixa de isopor com um cartaz avisa que doações de roupas e alimentos são bem vindas. 

Eu, que vinha do trabalho com uma quentinha com sobras de um almoço de confraternização, imediatamente pensei em descer e depositá-la no isopor. Mas alguma coisa me impediu. Talvez o incômodo por se tratarem de sobras, dúvida assombrada pela mistura venenosa de medo com covardia.  

Ao chegar em casa e me sentir bem abrigada e alimentada, tornei a esquecê-la. E mais tempo se passou. Sentando do outro lado do ônibus, ou viajando distraída com outros pensamentos e ocupações, não mais a vi. Segui a vida, indiferente ao que por alguns instantes me tocara, mostrando-me o que fazer, mas nem por isso agindo, ainda que de posse da ação literalmente nas mãos. Desse momento em diante não se tratava mais de medo ou covardia. Mas de algo muito pior e vergonhoso: preguiça e esquecimento. Indiferença. 

E então, houve o 25 de dezembro de 2016. Noite de natal. Em que a gente se põe a refletir, reza, recebe mensagens bonitas e evoca sentimentos e acontecimentos bons.  

Enquanto terminava de cear fui tomada por uma tristeza repentina. A imagem da mulher dentro da caixa fora inadvertidamente projetada na memória com uma nitidez tamanha. E uma sensação de vazio me fulminou. Tanto que sequer consegui terminar de comer. Precisei compartilhar o mal estar com mamãe, que imediatamente me incentivou a levar um pouco da nossa ceia para a artesã do canteiro. 

E foi assim que terminei minha noite de natal: acompanhada de papai, depositando uma quentinha com jantar, sobremesa e água na mureta do canteiro para a mulher dos artesanatos, que cautelosa, não saiu de dentro da caixa trancada com uma corrente, falando desconfiada comigo pela fresta, mas agradecendo e acolhendo em seguida nossa modesta partilha. 

Até efetivá-la contudo, muito se passou dentro de mim e entre nós em casa, discutindo o melhor ou mais adequado momento para se aproximar dela, um medo crescente do que íamos fazer nos colocando hesitantes em relação ao gesto aparentemente tão dentro das nossas possibilidades. 

Felizmente, respiramos fundo e levamos adiante o gesto repentino, na verdade pra lá de tardio, se pensarmos há quanto tempo já poderíamos ter agido. E a noite de natal fez mais sentido.   

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Dias depois, recebi mais uma prova de que hesitar diante de atitudes que estão ao nosso alcance não faz sentido, ao saber da maravilhosa notícia que o bebê maranhense Ravi, portador da síndrome da imunodeficiência combinada grave (SCID), que ataca o sistema imunológico, finalmente encontrou um doador de medula óssea 100% compatível após quatro meses de intensa busca, cuja campanha aderi com meus colegas em nosso local de trabalho. Doar sangue e medula são procedimentos absolutamente descomplicados, cujo tempo que nos tomam é mínimo perto do ganho imenso dos pacientes beneficiados com as doações. 

E é por pensar exatamente assim que minha irmã caçula Talissa, de 23 anos, fez seu cadastro como doadora de órgãos, recebendo no apagar das luzes deste ano, seu cartão de identificação, que serve de comprovante da sua vontade.  

Nesse recorte, o último de 2016, conto essas histórias aparentemente isoladas porque nelas há uma força imensa que as liga e nos iguala enquanto seres viventes desse tempo marcado por tanta disparidade, cuja superação do medo capaz de nos acovardar pode até envolver um processo assustador em alguma medida, mas sem dúvida transformador em uma proporção muito maior. 

Ao sair de casa a noite com um prato de comida para uma pessoa em situação de rua, rompemos com a apatia que mora em nós até então. 

Ao se cadastrar como doador de medula, alguém dá a outro alguém a chance de renascer para uma nova qualidade de vida. 

Ao declarar sua opção em doar órgãos, Talissa se coloca a serviço da vida para além da própria existência. 

Sentimento capaz de dizer tanto sobre nós, o medo pode espreitar cada um desses gestos. Afinal, aquilo que tememos revela nossas fragilidades. Escancara o que pensamos. Desmascara nossos semblantes inexpressivos, encobertos e esquecidos. E nos fornece algumas questões sobre as quais pensar: 

  • Por que temos medo do contato? Medo de dar o passo. Estender o que tantas vezes já até temos na o? 

  • Por que escolhemos não agir se sabemos que o contrário é o certo? 

  • Por que ainda somos tão medíocres na prática?  

Suspeito que por sermos seres humanos, ensinados a temer, a não nos envolver, a repensar ideias supostamente precipitadas. E quando repensamos demais enxergamos falhas onde não há. Procuramos por erros até achar que encontramos. Ficamos cegos pela vontade de nos defender, protegendo-nos de um perigo invisível que muitas vezes nem há. É quando mais falhamos, quando deixamos de agir e nos sabotamos perdendo batalhas contra nós mesmos, que contribuem para o mundo perder algumas guerras pelas quais valem a pena lutarmos. 

Em 2017, que estejamos mais atentos ao medo que nos apequena e acovarda, reduzindo-nos a mediocridade. Sejamos corajosos para as coisas mínimas que assustam imenso. Tanto quanto sejamos amorosos com as miudezas que encantam tanto. Sejamos mais. Pois batalhas sempre haverão. E nós, como os primeiros combatentes de nós mesmos também.


Assinatura Talita

Talita Guimarães: Ensaios em Foco | Instagram | Twitter

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