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Eu, anônimo, periférico e desconectado

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Novo filme de Ken Loach, “Eu, Daniel Blake” fala sobre a exclusão social potencializada pela era digital, uma realidade bem próxima do cenário brasileiro

*Por Meiri Farias

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Eu, anônimo e periférico,  55 anos. Os primeiros vinte e poucos, no sertão de Alagoas, lidando com pobreza e seca. Onze irmãos, terra nenhuma. Estudo só ia até o quarto ano do ensino fundamental, ou melhor, do ensino primário. O quarto ano durou pelo menos uns três, não por repetência ou desleixo, mas porque o apreço pelos livros fazia insistir na única opção disponível: estudar a mesma série, para não deixar de estudar. Adulto, a opção era seguir o caminho de muitos e migrar para outro sertão, o de concreto. Já são mais de trinta anos de São Paulo, onde outras fomes surgiram.  Metalúrgico durante quinze anos, dias de máquinas, noites de livro. Terminei o “ginásio”, constitui família e o milênio virou. As máquinas já não eram amigáveis, também não era tão jovem e o coração apertado só desejava voltar para casa. Com a esposa e duas crianças, a alegria do retorno foi ofuscada pela percepção de que lá as coisas estavam mais difíceis. Uma casa imensa construída de sonhos ficou vazia em menos de um ano. Não tinha emprego, a filhinha maior de seis anos era hostilizada na escola. O retorno foi amargo.

Eu, anônimo e periférico,  55 anos, agora com ensino fundamental completo. Faxineiro em um condomínio de alto nível, trabalho braçal e intenso, vinte e quatro andares para limpar diariamente. Vou sair de férias e talvez não tenha emprego na volta. Problema na coluna, gastrite e sinusite se somam a outros males cotidianos. Morador da periferia da zona sul de São Paulo, ônibus chega, mas o metrô não. As meninas dão duro para chegar no trabalho ou na escola, mais de duas horas as vezes. Internet fixa nem pensar, é preciso pagar caro pela móvel e as meninas mal conseguem usar. Eu? Nunca cheguei perto do computador, não entendo de internet, mas tô aprendendo aquele do celular, sabe? o Whats App, já consigo mandar mensagem para minha irmãs e as vezes até ouço a voz delas.

Essa é uma história real de um homem real. Ele está com medo de ficar desempregado, porque sabe que na sua idade já não é nada fácil e com baixa escolaridade é pior ainda. Sabe que a vida agora é dentro da tela do computador e ele não é deste mundo. Tem se esforçado para lidar com o celular novo, mas as vezes esquece e precisa de uma “colinha” que a filha mais nova fez. Esse homem é o meu pai, mas poderia ser qualquer um dos excluídos da era digital, que vivem nas periferias físicas e simbólicas de uma sociedade desigual.

O avanço cada vez mais veloz das tecnologias digitais cria a ilusão de que elas estão disponíveis para todos, estreitando distâncias e facilitando o cotidiano. A verdade é que para muitos, esse universo hiperconectado é um desafio cruel e desumanizante. Em “Eu, Daniel Blake”, novo filme do britânico Ken Loach (de Ventos da Liberdade, 2006) e Vencedor da Palma de Ouro – Festival de Cannes 2016, o personagem título vive uma situação semelhante ao do nosso “anônimo”, guardada as devidas proporções de contexto social e cultural Inglaterra x Brasil. Daniel é um carpinteiro da cidade de Newcastle, que depois de sofrer um ataque cardíaco está impossibilitado de trabalhar. O filme começa com a avaliação de Blake em um centro de atendimento ao trabalhador, onde será decidido se ele poderá continuar recebendo um benefício financeiro do governo.

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Dave Johns como Daniel Blake

A burocracia é a verdadeira protagonista no longa de Loach. Desde as perguntas monótonas nas avaliações de saúde, até a dificuldade de ser atendido por telefone (“As Quatro Estações” de Vivaldi como música de espera gera um sentimento tragicômico), Daniel Blake é uma mera vítima do sistema. Interpretado por Dave Johns, o senhorzinho simpático e gentil vê seu cotidiano alterado pelo processo de desumanização gerado pelo sistema opressivo que acaba “punindo” a indivíduo pela sua situação de vulnerabilidade social. Essa punição se estende e toma forma de tortura moderna ao submeter o personagem a uma humilhação digital: é necessário solicitar o benefício pela internet. A cena que gerou riso em uma sala de cinema, desce amarga para quem convive com alguém em condições semelhantes a de Blake. Ao ser instruído a “ir” com o mouse até determinado campo do formulário, Daniel leva inocentemente (e literalmente) o hardware a tela.

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“E se a pessoa não conseguir”, Daniel e a dificuldade de solicitar o serviço pela internet

 

EM NÚMEROS

Observar o nível de dificuldade do personagem enquanto tenta realizar tarefas simples no computador da biblioteca pode gerar incredulidade, mas essa situação está longe de ser mera ficção. Segundo os dados de 2016 da  pesquisa da Organização para Cooperação de Desenvolvimento Econômico, OCDE, que analisa a habilidade de adultos, 14% das pessoas não conseguem realizar tarefas simples como responder um e-mail com mais de uma pessoa em cópia. O trabalho envolveu 215.940 pessoas entre 25 e 65 anos, de 33 países e foi realizada entre 2008 e 2016. O Brasil não faz parte da amostra, mas é possível identificar que a falta de familiaridade com o computador ainda é significativa até mesmo nos países desenvolvidos, o que certamente faz com que a história de Daniel Blake seja verossímil. 26% das pessoas sequer tiveram as habilidades avaliadas, porque nunca usaram o computador ou falharam no teste básico. O exame avalia experiências consideradas simples, como interagir com o mouse, digitar, arrastar itens. Resumindo, 40% das pessoas não conseguem realizar atividades no computador.

No Brasil, a edição mais recente do TIC Domicílios, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), revelou que 58% da população brasileira acessou a internet nos três meses anteriores ao levantamento, o que representa aproximadamente 100 milhões de internautas. A pesquisa, que mede os hábitos em relação à tecnologia, revelou aumento de 5% em relação aos números registrado em 2014. Ainda de acordo com o Cetic.br, as classes sociais mais abastadas têm mais facilidade de acesso à web:  95% dos entrevistados da classe A utilizam a rede com frequência.

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Apesar da ampliação do acesso, em índices globais o Brasil não se destaca. Segundo o relatório State of Connectivity 2015, realizado pelo Facebook, o país aparece na 78ª posição, atrás de países como Azerbaijão, Rússia, Arábia Saudita, Malásia, Groenlândia e Israel. Embora com o crescimento de quase 10% em relação aos dados do ano anterior, o país ainda possui 36 milhões de habitantes que não têm acesso à internet. Para efeito de comparação, os países mais conectados do mundo são Islândia, Bermudas, Noruega e o Reino Unido de Daniel Blake. Já no índice da Fletcher School e da MasterCard, que mede a preparação dos países para receber usuários na web, o país da rainha segue em quarto lugar, enquanto o Brasil ocupa o 34º.

 

POBREZA SEM GLAMOUR

[ALERTA DE SPOILER]

“Eu, Daniel Blake” é um drama objetivo, desde a simplicidade dos diálogos até a ausência de estripulias estéticas, o trabalho de Ken Loach é quase documental, mas com uma leveza que cria momentos quase engraçados pelo inusitado de sua crueza. O que gera verdadeiro impacto é a verdade genuína, Loach faz cinema sobre pessoas comuns, onde a pobreza não é glamourizada. Em entrevista para o El País, Loach questiona o olhar hollywoodiano que cultua a riqueza. “Os personagens têm dinheiro e casas bonitas. E nunca se explica de onde vem esse dinheiro. Todos parecem muito saudáveis, têm corpos perfeitos. O subtexto é que a riqueza é boa, que o privilégio é bom.”

A jornada de Daniel é uma facada da falácia da meritocracia. Um homem honesto, gentil e trabalhador, chega ao ponto de precisar vender os próprios móveis para pagar as contas. O argumento de que você conseguirá resolver seus problemas caso “se esforce”, perde todo o significado em um cenário de completa indiferença do Estado. “Montam um sistema burocrático que te pune por ser pobre. A humilhação é um elemento-chave na pobreza. Rouba a sua dignidade e a sua autoestima”, explica Loach durante a entrevista, destacando a sujeição do Estado ao mercado onde as grandes corporações dominam a economia. No filme essa ideia se expressa discretamente na cena em que Daniel, ao ser avaliado de forma robótica e superficial pela profissional de saúde designada ao seu caso, pergunta se ela é médica ou enfermeira e comenta que estão dizendo que ela é funcionária do setor privado de uma empresa norte-americana.

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Daniel passa a maior parte do filme entre idas e vindas no centro de apoio ao trabalhador. “Tudo isso só serve para me humilhar”

No decorrer do filme, outra personagem vítima do colapso do capitalismo se une a Daniel. Katie (Hayley Squires) é uma jovem mãe de duas crianças pequenas, que saiu de Londres quando suas condições de habitação se tornaram insustentáveis. “Estão tirando gente como eu de lá”, explica, comentando a hostilidade da cidade grande em relação aos menos favorecidos. Daniel se transforma em uma espécie de figura paterna para Katie, ajudando nos reparos da nova casa, cuidando das crianças quando necessário e oferecendo apoio emocional.

A caminhada de Katie é cruel. A mãe chega ao ponto de substituir refeições por uma fruta para que as crianças possam comer decentemente, sua busca por trabalho é infrutífera e assim como Daniel, a jovem vê sua dignidade solapada pelo cotidiano de privações. Em uma das cenas mais impressionantes do filme, a mulher consegue doação de cesta básica em um centro comunitário, mas perde o controle enquanto recolhe os alimentos e começa a comer escondida. Fome e humilhação. Nesse espaço menos institucionalizado, as pessoas são solidárias e compreensivas, surge esperança. Mas a realidade de Katie não é passageira: jovem, sonha em voltar a estudar, mas não sem trabalho, o desespero diante da situação dos filhos faz com que engula os sonhos e busque uma solução extrema. A personagem acaba se prostituindo para colocar comida na mesa.

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Daniel e Katie no centro comunitário recebendo a cesta básica

Entre as cenas mais tocantes do filme, está o momento em que a filha de Katie, Daisy (Briana Shann), que é uma garotinha de aproximadamente oito anos, evidencia como a exclusão social é cruel para as crianças. A criança, que geralmente é séria, concentrada e calma, conta para mãe que as coleguinhas da escola estão zombando dela porque a sola do sapato descolou. A mãe é a imagem da impotência e frustração. Daisy também tem bons momentos em cena com Daniel, uma amizade que surge e evidencia os dois extremos mais vulneráveis: o idoso sozinho e a criança negra.

Ken Loach explica que Daniel e Katie não são pessoas com determinações políticas, mas a situação é determinada por uma estrutura política que falhou com o cidadão. Com o personagem sujeitado por uma estrutura social desigual, o filme chega ao ápice com a cena que o nomeia: Depois de mais uma negativa humilhante no centro de apoio ao trabalhador, Daniel faz uma pichação na parede em protesto, fazendo alusão ao título do filme. Uma afirmação individual, mas que se torna coletiva na rua, onde os transeuntes se unem com aplausos e comentário de incentivo, afirmação política, portanto. Daniel Blake, pessoa, cidadão e não um número nas planilhas do governo. Sua história ganha o muro, porque seu apelo não cabe na burocracia e não pode ser escutado por meio da tela fria do computador.

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Daniel enquanto cidadão e sujeito político: apoio dos transeuntes

O final do filme é triste, porém realista. Quando finalmente poderá recorrer sobre a decisão do benefício, Daniel sofre um novo ataque cardíaco e morre. Katie discursa em seu velório, explicando que o enterro acontece de manhã porque é o “horário de pobre”. O tom leve, e por vezes até engraçado, é enterrado junto com seu protagonista e não se ouve mais risadas na sala. Sem conclusão redentora, sem desfecho para os outros personagens, “Eu, Daniel Blake” termina com um soco de realidade, nos lembrando que todos dias Daniels, Joãos e tantos outros são enterrados e esquecidos no anonimato. E nem sempre é preciso que o coração pare de bater.

Confira o trailer de “Eu, Daniel Blake”:


Assinatura Meiri

Meiri Farias: Portfólio | Instagram | Twitter

2 thoughts on “Eu, anônimo, periférico e desconectado

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