Abre Aspas

A consciência filosófica de Belchior pela voz de Daíra

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*Por Meiri Farias

Tento escrever sobre o Belchior para o Armazém desde o início do blog, comecei dezenas de rascunhos e desisti. Essa também é uma desistência.

Ainda não estou pronta. A forma que a obra de Belchior se transforma e me atravessa é intensa e selvagem. É necessário uma conversa muito interior, daquelas que causa mais angústia que um goleiro na hora do gol. Seu canto torto revira todas as coisas íntimas que mais me afligem, corta na carne e eu tenho medo. Mas Daíra não.

Depois de um primeiro álbum autoral, Flor (2014), a artista fluminense realiza o projeto “Daíra canta Belchior”, tributo ao cantor e compositor cearense, que se tornará disco nos próximos meses pelo selo Porangareté. Daíra sempre foi admiradora da obra de Belchior e faz parte da geração que vem resgatando o trabalho do artista, que está “desaparecido” há mais de dez anos. O mistério envolto no sumiço desperta curiosidade e suas letras sempre atuais geram identificação com os mais jovens. “O Belchior é um cara que tem uma consciência muito à frente, e de uma sinceridade e acidez nas canções, que eu me identifico muito. Filosofia pura.”

Confira os detalhes do projeto em entrevista com Daíra! E o meu texto sobre Belchior? Um dia chega. “A voz resiste. A fala insiste: quem viver verá.”

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Arte: Willen Teófilo

Armazém de Cultura: Você está preparando o disco “Amar e mudar a coisas”, cantando músicas do Belchior. Qual é a previsão de lançamento do disco? Como foi a escolha de repertório?

Daíra: Entre março e abril. Foi bem livre… já tinham várias canções dele que eu amava e considerava hinos, mas a partir da ideia do show só dele, fui buscar mais, e fui me afeiçoando e cantando, tirando no violão, foi ficando legal e fomos colocando no repertório. No início, a cada show tinha mais uma música.

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AC: Como surgiu a ideia de fazer esse projeto “Daíra canta Belchior”?

Daíra: Por acaso voltei a ouvir Belchior, forte. Em novembro de 2015. Coisa do destino. Comecei e mostrar para vários amigos, e eles também traziam coisas dele. Numa dessas, mostrei para o Rodrigo Garcia, amigo e parceiro, e ele deu a ideia: por que você não faz um show só de Belchior? E eu gostei da história… Quando vi, já estava com várias na ponta da língua. E tocando violão, coisa que nunca fiz na vida. Foi um momento bem especial para mim. Lançamos o show em abril de 2016, com a parceria do selo Porangareté. Depois veio a ideia do disco.

AC: Atualmente o Belchior é cercado por certa “mística”, suas composições, o desaparecimento, a atualidade de suas composições. O artista exerce fascínio sobre a nova geração. Como é a sua relação com a obra do artista?

Daíra: Uma relação de total identificação com as questões do meu tempo, e da minha geração, já há muito tempo, na verdade. Tem uns 10 anos que estou mergulhada de cabeça na MPB 60 e 70. E o Belchior para mim, é um cara que tem uma consciência muito à frente, e de uma sinceridade e acidez nas canções, que eu me identifico muito. Filosofia pura.

 Ouça Daíra cantando “Pequeno Mapa do Tempo”:

AC: Em 2014, lançou o primeiro disco “Flor”. Quais são as principais diferença que encontra do primeiro trabalho até o atual momento da carreira?

Daíra: A principal diferença é a sonoridade, e a ideia musical por trás de cada disco e de cada show, o “flor” e o “amar e mudar as coisas”. Hoje, transito muito mais pelo folk, e por uma mpb que flerta com o rock e blues, que já eram lados meus também. E é importante ressaltar a semelhança entre os dois: o meu gosto pela poesia, e pela mensagem nas músicas.

AC: Você também é atriz, certo? conte um pouco sobre a carreira no teatro! Você acha que essa experiência impacta de alguma forma seu trabalho com a música?

Daíra: Com certeza. Comecei no teatro com 12 anos, através da música. E observei muito da direção das peças que eu fazia. Captei toda a concepção artística daquelas obras. Isso me faz pensar nas entrelinhas, além da musicalidade. E a experiência com a interpretação das palavras, e no próprio corpo, carrego isso comigo em tudo o que faço, acho.

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Foto: Carolina Muait

AC: Além de Belchior, influências e referencias na música. Também o que está na playlist atualmente.

Daíra: Luli e Lucina, maravilhosas, Elomar, Xangai… são minhas novas descobertas do coração. Mas como não mencionar Milton, Elis, Gal, Caetano, Chico? E meus companheiros de geração me influenciam muito: Paulo Beto, Júlia Vargas, Claos Mózi, Ivo Vargas, entre outros vários amigos incríveis, que convivo há muito tempo também. E os novos parceiros, Duda Brack, Chico Chico, João Mantuano… Vamos ouvindo, tocando e trocando.

AC: Sempre gostamos de perguntar qual música o artista gostaria de composto. Nesse caso, qual música do Belchior você gostaria de ter criado?

Daíra: Divina Comédia Humana. Amo a sua crítica e dedo na ferida, muito necessários hoje e sempre, mas também amo demais o seu lado romântico. Belchior é genial.

Ouça Daíra cantando “Comentários a respeito de John”


Assinatura Meiri

Meiri Farias: Portfólio | Instagram | Twitter

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