Cotidianas

É tudo ponto de vista: Qual é o pau da questão?

Logo Cotidianas

*Por Beatriz Farias

formato-para-slide-do-ac-2

Antes de qualquer outro comentário, atenção aos trechos: “Não que eu tenha nada contra profissionais da cama, mas são os filhos dessa dama que você sabe como é que chama: filha da puta, é tudo filho da puta” (Filho da puta – Ultraje a rigor), “Eu não sei nada de geografia mas sou perito em anatomia e manjo um pouco de inglês. Do you wanna gimme girl? Do you wanna gimme o anel?” (Gimme o Anel – Charlie Brown Jr.). Agora sabe o que as citações tem em comum? Nenhuma das músicas citadas são funks, e por isso seguem intocáveis de problematização evidente. Refrescando a memória, você se lembra quando Erasmo Carlos cantou o famoso “ding ding sou foda” e nós achamos mais engraçado do que estranho que na letra contivesse trechos como “na cama te esculacho, na sala ou no quarto”? E se quisermos falar do recente, “Bang” (Anitta) parecia muito menos interessante antes de Tiago Iorc dar sua versão, praticamente autorizando quem outrora era “cult” demais pra gostar, a colocar a “novidade” pra tocar em seus dispositivos. Não é curioso como as vezes o necessário para o funk sair da zona do “ruim” seja a simples legitimação de alguma estrela da chamada MPB? Para finalizar o começo, indaguemos: o que acontece, por exemplo, se nesse momento Caetano Veloso decide cantar o hit de verão (já quase ultrapassado) “Deu onda”?

Lançado no final de 2016 por MC G15, o carioca Gabriel Paixão Soares, de 19 anos deslanchou sua carreira com a música-tema do texto, com clipe produzido por KondZilla (nome de peso na produção do funk paulista). A canção além de onda, deu o que falar, repercutindo em diversos cenários musicais, chegando a ser analisada por teóricos por seu potencial de viciar quem escuta. Confira o vídeo de Pedro Serapicos, músico e produtor do selo Alcachofra que descompôs “Deu Onda”, mostrando que o padrão melódico não segue a mesma linha de outras músicas do gênero.

A canção não se isentou de abrir debates e problematizações, levantando as questões apresentadas em seguida. Para inicio de conversa, analisemos a letra com atenção:

“Eu preciso te ter (comentários aprofundados sobre essa frase logo mais)
Meu fechamento é você, mozão (aqui se nota uma alternativa criativa para dizer que você está com uma pessoa e não abre mão, somada a um apelido pitoresco)
Eu não preciso mais beber e nem fumar maconha (neste trecho o eu lírico expõe que a presença da amada substitui a vontade de usar bebidas alcoólicas e maconha)
Que a sua presença meu deu onda (já que estar com a pessoa lhe causa, digamos, uma boa sensação)
O seu sorriso me dá onda (o maior julgamento a respeito do trecho é a declaração já “batida”)
Você sentando mozão me deu onda (o termo “sentando” admite uma carga problemática de submissão ao analisar o histórico de letras em que a palavra foi atribuída)
Que vontade de foder garota (aqui o poeta ousa na clareza sem necessidade de legendas explicativas)
Eu gosto de você (para caso tenha restado dúvidas)
Fazer o que? meu pau te ama” (e chegamos ao ápice da declaração com a confissão de que o órgão sexual do moço é extremamente feliz com a destinatária do poema. Metáfora? Hipérbole? O que conhecemos é depoimentos de amigos próximos que, emocionados, confessaram casar facilmente com alguém que recitasse com intensidade a frase analisada)

*Para acompanhar outra análise da letra assista o vídeo da plataforma ONDDA, em que a escritora Clara Averbuck e a jornalista Carol Patrocínio, ambas feministas, comentaram a música. 

sem-titulo

Clique na imagem para abrir o link do vídeo

É fundamental pontuar que não estamos excluindo a importância da problematização (os textos do blog, inclusive, incentivaram e continuarão incentivando falar da persistência do machismo e outras questões no que está sendo produzido atualmente), o trecho em que o moço anuncia o “eu preciso te ter” deve sim ser destacado como fruto de objetificação, já que coloca a figura masculina no direito de possuir o que quiser na medida que tem vontade, no caso, o corpo feminino. Ao analisar, porém, a versão adaptada para rádio e televisão, se entende como o machismo normatizado é aceito com muito mais naturalidade do que uma palavra que expõe parte do corpo humano. “O pai te ama” é a frase que tarja “o pau” oficial, estabelecendo na gíria a relação patriarcal do homem como supremacia do poder.

O que nos leva pensar que a questão não tem de fato a ver com essa letra em especifico, a música é apenas alvo fácil de críticas por ser direta em seu objetivo, encobrindo a criminalização da periferia que geralmente está subentendida nesse discurso de “não se faz mais música como antigamente”, “agora tudo é muito baixo” ou o clichê que li em alguma rede social e que levou esse texto a ser escrito: “O Brasil não tem volta”.

Com uma lupa para esse mesmo Brasil que gosta de exibir sua diversidade para gringo e um olhar de alguém que fala diretamente da periferia, difícil esperar erudição quando se trata de colocar cada um em seu cada qual, já que quando a elite precisa se divertir na festinha de fim de ano, tudo bem deixar o funk tocando. Aí a favela vira ponto turístico. Se o raciocínio estiver complexo, utilizemos o famoso longa “Que horas ela volta?” para examinar a situação de espaços. O filme de Anna Muylaert que emocionou o Brasil desmascara a hipocrisia presente na classe média ainda que encoberta por uma fina camada do “é da família”.

favela-fashion

Na moda, a favela também é glamourizada. Mas só para quem tem condição financeira de comprar na grife Osklen

Traduzido para o mundo da música, vale relembrar que em 2001 o músico Caetano Veloso (atenção, a crítica presente não é em relação ao artista) cantou durante um show o consagrado “Tapinha não dói” e foi aclamado por críticos e fãs pela “genialidade” em fazer caber o funk em seu repertório (apenas para efeito de curiosidade, o tapa na galera doeu no futuro, quando o mesmo apresentou ao mundo “Funk melódico”). É daqui que parte o interesse: quando Caetanos, Chicos, Bethânias e tantos outros, considerados por fazer “música boa” se utilizam das músicas feitas pela periferia, ou com linguajar pouco rebuscado, reverenciamos porque é licença poética, porque cabe na inteligência deles e no tamanho de sua platéia. Então tudo bem se Cae anuncia “eu como, eu como, eu como você!” porque é carregado de figuras de linguagem, duplo sentido certo? O problema mesmo está em “que vontade de fuder, garota” porque parte da comunidade, dos morros ou de lugares menos favorecido, a gente lembra que “o Brasil não sabe fazer música boa”.

Se a essa altura você se pergunta o que é essa tal da música boa (a pessoa que escreve o texto também quer saber) da qual tanto reclamamos a ausência em nossas rodas de conversa, vale citar a utopia do gostar do que esta distante, explicada em dois âmbitos: Se de um lado melodias exportadas que não dialogam com nossa realidade são adoradas como ápice do revolucionário, do outro falamos das letras complexas, que até podem não conversar diretamente conosco, mas são assinadas por algum nome de peso que nos deixa a impressão de que é coisa da boa. E aí se aparece um moço falando que “deu onda”, a mensagem é clara demais pro nosso ouvido erudito e então alegamos que a letra “não diz nada”. Como esse tema específico é pauta para outro texto, fiquemos com o questionamento: o que exatamente significa dizer algo na arte? Será que não conseguimos nos comunicar com o estilo apresentado porque o confortável mesmo é ser revolucionário com uma realidade distante, que não podemos interferir?  Por que enquanto a mensagem é transmitida pelos detentores do capital artístico ainda nos parece aceitável que a mesma esteja na mídia? Ao entender a cultura – sendo a música arma essencial dentro deste leque – como material de apresentação de realidades de vozes diretas, é curioso notar que só há incômodo real quando quem canta sua realidade é a periferia. Se existe uma intermediação entre ouvinte e o artista na escala de “música boa”, o funk é aceito. Absurdo mesmo é ver alguém com propriedade falando do que vivência certo?

O momento em que Tiago Iorc “legitima” a qualidade da música:

Porque quando algo assim chega na televisão incomoda, a gente não pode mais continuar fingindo que não existe. Como tentar dialogar com as problemáticas existentes no funk dá muito trabalho e pode ser desconstrução pra longo tempo, melhor mesmo é jogar o ritmo ainda mais pra debaixo do tapete com o argumento do machismo **, melhor mesmo apagar as pichações da cidade que nada mais são que denúncias de uma realidade, certo? “Ah não, mas aí é outra coisa…” Pois é, tão outra coisa que continuar passando tinta cinza na música até a gente ter a capacidade de enfrentar a riqueza do ritmo, confrontando os malefícios e entendendo a luta de classes que dele é exposta, vai continuar mais fácil para você, para nossa hipocrisia, dizer que o batidão (nesse caso bem mesclado ao pop) é o problema musical do país.

copy-of-copy-of-faca-disso-a-hora-de-recomecarpara-conviver-com-a-dorpara-a-dor-tambem-saber-passarse-ja-passou-de-sorriso-a-carae-va-embora

**apenas para reforçar: é inegável a responsabilidade do estilo musical para a propagação da cultura do estupro e isso precisa ser debatido integralmente. Sobre o assunto, indicamos a leitura do texto “Funk, Racismo e Periferia: Fica ligado que contagiante não é só a batida, mas também o instrumento de luta”, do Coletivo Enegrecer.

Para encerrar, fiquemos com a versão da rapper Luana Hansen, conhecida por sua militância em temas como o feminismo e a visibilidade lésbica, apresentando novas possibilidades para a letra da canção.


Assinatura Beatriz

Beatriz Farias: Tumblr | Instagram

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s