Abre Aspas

Regina Azevedo: “Silêncio é ponto de partida, também matéria-prima”

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*Por Meiri Farias

Regina Azevedo, você gosta de Gal Costa? Devia ter incluído esse questionamento na entrevista, mas só me ocorreu agora enquanto preparo a entrevista para publicar ouvindo o disco “Água Viva” na vitrolinha – que tem uma capa linda, o que para mim equivale a ser um vinil lindo, mas isso já é divagação. Você gosta da Gal, Regina?

A poesia a Regina não é semelhante ao cantar de Gal, assim a primeira leitura/escuta. Não faria essa associação maluca se estivesse escutando qualquer outro disco do mundo, mas calhou de sentir uma vontade imensa de escutar Gal bem na hora que sentei para escrever. E boom, eureka! O poema da jovem artista de Natal entrou em harmonia perfeita com a voz melodiosa da musa baiana. Outro estilo, outra geração. Mas os sentimentos escancarados das palavras de Regina parecem esconder segredos nas entrelinhas, assim como o cantar agudo de Gal. Versos para agora ressignificar a cada giro da bolacha na vitrola. Reticências para remoer por dentro, no chiiiiado de troca de música. Um mashup exótico que talvez só tenha sincronia dentro do meu afeto. E basta, não?

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Regina Azevedo é do Rio Grande do Norte e tem apenas 17 anos, mas já é um nome de peso na nova poesia brasileira. Com livros, e-book e fanzines publicados, a poeta prepara dois novos trabalhos para março: “Piruetas” e “Cinzeiro”, livro artesanal com fotografias e poemas sobre quando passou por São Paulo. Poesia, cidade e solidão foram alguns dos principais temas da entrevista. “Para mim, uma certa solidão, além de necessária, é escolha. Gosto de sair sozinha, ficar sozinha em casa, ver um filme, passear, viajar. É prazeroso, é descoberta. E o silêncio é ponto de partida, também matéria-prima.” Confira!

Armazém de Cultura: Você está para lançar um livro novo sobre o tempo que ficou em São Paulo, certo? Poderia contar um pouco sobre o que podemos esperar de “Cinzeiro” e seu processo de elaboração (ficamos interessadas em saber que o trabalho vai ser manual!)?

Regina Azevedo: O Cinzeiro nasceu da necessidade. Estava indo pra São Paulo participar da Balada Literária, dar algumas oficinas e palestras em escolas e projetos, e os gastos foram bem maiores que o esperado e suportável. Daniel Minchoni, um poeta e amigo muito querido, também editor do selo DoBurro, sugeriu que eu enfrentasse isso com meu trabalho, com arte. Então, propus um livro artesanal, que será impresso e costurado por mim, com fotografias e poemas sobre ou escritos em São Paulo. É um livro que estou entendendo aos poucos – e tentando não ter muita pressa -, mas sairá junto com o Pirueta, em março.

                                              saí de casa sem sutiã

os hipocampos
derrubaram a prateleira
de cereal froot loops no supermercado

e alguns dragões alados
esculpiram um monumento de fogo
no morro do careca

o prefeito de gravata borboleta
rapidamente desviou o olhar
do próprio umbigo

a fauna e a flora
gritaram
enquanto os jovens caçavam pokemon
na 2ª maior reserva de mata atlântica do estado

acabaram os pedacinhos do céu
no carrinho do picolé de caicó

e uma família de flamingos
dançou sapateado na BR 101
até ficar com calos

mas eu saí de casa sem sutiã
e é isso que importa

(Poema publicado em reginazvdo.tumblr.com)

AC: Ainda sobre o título escolhido para o livro, curioso ver como dialoga com o momento “cinza” expecifico pelo qual São Paulo passa, mas também as diversas possibilidades que a palavra propõe para a cidade. Como você percebe a cidade afetando sua poesia? Você sente a mutação dos espaços e deslocamentos presente no que escreve?

Regina: Escolhi o título justamente pelo momento duro que São Paulo vive. Mas não é uma guerra onde só um lado luta. O revide está acontecendo. Eles não conseguirão apagar a alma da cidade.

São Paulo me afetou pouco ou quase nada da primeira vez que fui, pra ficar apenas 2 dias. O Rio, nessa mesma viagem, me afetou, me abalou, me provocou intensamente. 3 dias. Agora, nessa última viagem a SP, em novembro, eu estava muito, muito diferente. Por isso acho que, também, foi diferente. Passei bem mais, fiquei oito dias, andei sozinha e acompanhada, de metrô, ônibus, Uber, à pé, pra todo canto. Fui em várias galerias. São Paulo é muito estímulo o tempo todo. E eu preciso de um tempo de absorção, meu processo criativo requer um certo distanciamento para ver as coisas com mais clareza, brilho. O Rio, pra mim, funciona como equilíbrio entre São Paulo e Natal. Por isso é pra lá que quero ir.

Sobre as mudanças da cidade na minha poesia: sem dúvidas. Onde quer que eu esteja. E não só a cidade, mas os momentos. O “Pirueta”, meu próximo livro, é também um modo para que eu me veja ao mesmo tempo de perto e de longe. Leio e releio coisas que escrevi durante todo o processo e começo a entender o que estava sentindo, o que me incomodava e encantava. O Pirueta começou pouco antes do esfarelamento de um amor intenso, depois se estendeu durante um tempo em que eu adoeci (emocionalmente, mesmo, mas tudo é corpo), estive meio perdida, conheci e vivi outras pessoas e ideias brilhantes – e também intensas. São claras não apenas as mudanças de cenário, visão de mundo, pessoas ao lado, mas de percepção, de sentir.

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Regina divulga duas versões para a capa de “Pirueta”

O vazio é algo que me incomoda. A mudança, também. O estranhamento da intimidade. Por exemplo, encontrar alguém que já amei muito e não sentir mais a mesma coisa olhando nos seus olhos. Ou entrar na casa onde cresci e ver a cama da minha avó vazia, a rede do me avô guardada dentro do armário – ou, em dias melhores, ver outras crianças brincando com meus antigos brinquedos.

AC: Por falar em espaço, tem um poema seu que você começa avisando: “saí de casa sem sutiã”. Sabemos que os ambientes ainda são hostis para as mulheres. Como você compreende isso do meio que fala e como a sua voz, de forma subjetiva ou não, relata politicamente esse nosso momento de avanço, ainda que cheio de retrocessos, mas principalmente de não-recuada?

Regina: Tenho preferido o caminho do não-explícito, porque me sinto mais a vontade para brincar mais com a linguagem assim, além de abrir mais margem para o texto se comunicar com pessoas que não fazem parte da mesma bolha que eu, até de pessoas que não concordam ou não enxergam a situação por essa perspectiva.

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Esse poema do “saí sem sutiã” é uma brincadeira, também um convite à reflexão. Como se do fato de uma menina sair de casa sem sutiã surgissem várias situações improváveis e surreais. Além desse, tem vários outros. Talvez o mais querido seja “o verbo não poder”, que está no livro Por isso eu amo em azul intenso. Ele fala sobre o que grande parte da sociedade espera de uma menina, uma “menina boa”, e finaliza dizendo que “eu sou ruim demais”. Acho que esses poemas carregam um sentimento de “comigo-não”, uma força gostosa e rara que precisa ser expandida. No Pirueta tem no mínimo mais dois nessa linha. Afinal de contas, já que as agressões são inevitáveis, e enquanto for impossível não sofrer apenas por ser mulher, trabalhar essa temática termina também sendo um caminho frequente.

AC: Em 2015 você lançou um livro chamado “Carcaça”, que além de poemas, carrega outras expresões artísticas como fotografias , certo? Um olhar que se abre para outra forma de agregar poético, as outras linguagens que se reúnem dentro do mesmo espaço literário. Como funciona esse processo para você?

Regina: Eu faço curso técnico-integrado de Multimídia no IFRN, um instituto federal. É ensino médio e curso técnico, juntos. Estudo Design Gráfico, História da Arte, Animação, Fotografia, Audiovisual, Cinema… Fiz um curso, também, de Roteiro pra Cinema. Fui bolsista de uma galeria de arte. Escrevo texto jornalístico e artigo para dois sites, um deles já há três anos. Quero poder ser professora desde Semiótica até História da Arte. Então estudo muito. Inclusive “por fora”. E gosto realmente. Termina sendo inevitável, portanto, agregar isso também ao meu poema. É curioso que cada texto vem em seu formato. Tem coisa que quero dizer e tem que ser com uma fotografia, outras já pedem um roteiro.

Poema e vídeo: Regina Azevedo

AC: Muitos escritores descrevem o processo criativo como solitário, por vezes até de isolamento. Você tem presença ativa em festivais e eventos de literatura, como é esse momento de abrir a sua poesia para outras pessoas? Qual é a importância desse tipo de evento?

Regina: Um poema curtíssimo que escrevi recentemente talvez responda essa pergunta melhor que eu: “impossível escrever/ se estivesse de mão dada/ o tempo todo”. Para mim, uma certa solidão, além de necessária, é escolha. Gosto de sair sozinha, ficar sozinha em casa, ver um filme, passear, viajar. É prazeroso, é descoberta. E o silêncio é ponto de partida, também matéria-prima.

Os festivais, as palestras, oficinas e demais eventos dos quais participo são muito importantes. Principalmente quando têm o papel de incentivar a leitura. Como entendi que podia ser poeta a partir de um desses eventos, faço questão de participar de tudo isso. Sinto como uma forma de retribuir a generosidade e o brilho que outros artistas me deram.


Assinatura Meiri

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