Dica de segunda

#TodoDiaéDiadaMulher: Matilde Campilho

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*Por Beatriz Farias

Você vai me dizer que a luta pela mulher é diária e o respeito não deve depender de um dia. Eu vou dizer que você está certa. Mas ainda assim, com uma sociedade desigual e que ameaça constantemente retroceder, é importante uma data que relembre intensamente o que foi necessário para chegar até onde estamos e tudo que ainda falta. Dia 8 de março é essa data. Visto isso, o Armazém se dedica este mês a uma programação especial que fortaleça as mulheres que produzem arte no nosso país e afora e, como a Dica de Segunda não poderia ficar de fora, toda semana Beatriz Farias comenta uma artista (nos mais diversos aspectos da palavra) que vale a pena ter seu trabalho reconhecido.

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Não sei andar de bicicleta. Nunca subi numa árvore pra ver a vista e até pouco tempo a possibilidade de morar nas montanhas nada me causava a não ser desconforto. Nunca andei de barco ou ao menos roubei fruta do pé. A aventura pra mim, sempre foi descascar o medo de olhar nos olhos das pessoas dizendo a verdade. Dar perdão, pedir perdão. “Não sei nada sobre a paixão, suspeito que você também não”. Desse ponto em diante é questionável a existência de qualquer coisa que seja imóvel o suficiente, já que algo por dentro formiga, o tempo e suas subdivisões me alertam que já faz um ano de cabelo ao vento, pedais imaginários botando meus pés em movimento dos dias sem roteiro. Matilde surgindo em uma madrugada de março pós carnaval, o brilho na cara alertando que a cidade ainda é “metade folia, metade desespero”. Vertigem de tudo, sotaque, música de fundo, paisagem. O poema não cabe em uma única linguagem quando o olhar de quem o faz abriga a maior pequenez de uma fresta de luz refletida no parapeito de uma vontade de domingo a tarde: “mercúrio se multiplicando”.

A dormência na sua ideia de querer fazer qualquer outra coisa, as palavras, a voz, as imagens, são culpa de Matilde Campilho. Matilde é poeta portuguesa, tem um livro chamado “Jóquei”, morou no Rio de Janeiro por um tempo. Publicou durante outro período poemas em vídeo no seu canal do Youtube. Trabalha em um programa chamado “Pingue-pongue”. Matilde é poeta. Matilde é poeta. Matilde é poeta, acho que esse é o segredo. Em entrevista a Eric Nepomuceno para “Sangue Latino”, a poeta responde o que é o silêncio e depois olha nos olhos do entrevistador, quieta, sem medo. Gente que diz a verdade por opção de continuar prendendo os olhos dos outros com humildade. Falar de Matilde é um erro que só percebe quem tenta ser coerente porque é ela que sabe dela, sua voz, calmaria e respeito de se dizer. Matilde tem uma lucidez de nos beirar ao ridículo ,pois se deixa ser simples: falar de rinocerontes, falar de festa, falar de churrasco é quase sempre uma linguagem para explicar que está aprendendo a ser gente. E isto é continuar se espantando com o absurdo maravilhoso de ver um milagre cotidiano e aceitar com tranquilidade o extraordinário acontecendo debaixo do seu nariz.

matilde_campilho3Seu livro, Jóquei, se trata de poemas sem maquiagem. Lançado em 2014, a obra queridinha da Flip (Festa Internacional Literária em Paraty) 2015 já nem se trata mais de desmistificar a poesia. É apresentar o que nós temos sem necessidade de convencimento, a realidade das linhas independe também da veracidade dos fatos narrados: “desculpa já nem sequer te inventar” é o pedido que sucede o “gostar tanto de você”, porque o amor que já não mais se idealiza muito combina com um livro que não abre necessidade de floreios. Bem que Belchior previa não estar interessado em nenhuma fantasia, pois é mais a nós do bote salva-vidas de tudo o que existe: palavras estranhas, as armas, as flores, o DNA, o amor e suas implicações no antes e depois. Sabendo ainda que toda a verdade pode significar um sonho ocorrido no momento em que se escrevia o poema: é sempre bom deixar a porta aberta, nunca se sabe quem pode entrar. O que difere esse contorno do que existe é que não se trata de uma mentira em nenhuma hipótese.

Desde a honestidade em lembrar que “a ternura é importante” até a ousadia em afirmar que “a humanidade é toda brilho”, tenho a impressão de que as palavras que Matilde usou já não podem ser pronunciadas da mesma maneira na boca de todas as pessoas que também ouviram. É que como toda viagem que a gente ama ou odeia, fica um pouco de terra nos sapatos como quando Matilde conta as listas de uma zebra e regressa diferente, como uma carta de amor que a gente não entrega e esconde debaixo do colchão da nossa saudade. A poeta dá uma saudade de sentar em um bar carioca e pedir peixe pra ouvir samba (eu que só fui uma vez ao Rio e não gosto de peixe), porque na dança só aprende quem gosta de pisar com os pés na terra – a cara do sagrado é a terra, foi o que eu disse depois de ler “Jóquei” – e tem uma coragem de dizer nos lugares que passa que é poeta. Na bancada de hotel: “quem é você?”, “eu sou poeta”. E isso justifica a razão pela qual não me interessei em saber se era homem ou mulher que dizia aquele poema no meu fone de ouvido: é poeta. (Hoje já me interesso um tanto em saber que vem da mulher, a força da revolução que acredita que “até as ruínas podemos amar nesse lugar”).

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Já tinha combinado comigo nunca escrever sobre Matilde, pois em poeta preferida não se mexe. A vontade de falar sobre a mesma no último paragrafo ainda me parece na corda bamba do pânico de não encontrar os caminhos e ainda assim ver crescer emoção de deixar dizer, mas é impossível comentar a função de nos chacoalhar que a arte tem sem querer fazer essa manutenção pessoal do desconforto. O poema só me coloca as coisas no lugar quando sou capaz de ver minha bagunça confortável em se virar do avesso. E é dessa função de “fazer os joelhos fraquejarem um pouquinho” que Matilde atribui a arte, que me vem a coragem medrosa de dizer que é também chamamento. O poema de Matilde é chamamento à felicidade absurda de olhar palavras sabendo que a vida continua e eu aceito. Agora mesmo um carro pode estar batendo, um casal se separando e um ente querido indo embora, mas enquanto você lia o poema alguém lia em você que os relógios do mundo continuam batendo os ponteiros, a gente segue sendo descoberta do instante. E eu que sempre briguei debochada pela falta de necessidade em encontrar sentido na arte, venho por meio deste informar que ainda dá tempo de observar a fé no poema. A fé no sossego de Matilde narrando uma aventura em Lisboa, uma aventura no Rio com o português misturado de estar nos lugares como quem pertence ao verão. Ainda bem que ainda é tempo de se alegrar com o verão, e com um poema de Matilde que faz a gente saber que ninguém aguenta o calor para sempre e por isso a chuva: “os gritos das ruas molham as testas de nossos corações”.


Perfil Bia

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