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Histórias Paulistanas: “Porque é na rua que a cidade se dá, certo?”

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*Por Meiri Farias

Solidão, velhice, preconceitos, desigualdade social, tudo isso convive nos espaços urbanos da maior cidade da América do Sul, assim como nas páginas da HQ Histórias Paulistanas, que conta com roteiro de Lica de Souza e Flavio Luiz. Mas mesmo que se utilize esse a grandiloquência do caos como pano de fundo, a São Paulo de Lica e Flavio mora nos detalhes. “Os noticiários falam dos grandes acontecimentos, mas meu interesse era pelos pequenos que ficam escondidos atrás dos grandes”, diz Lica.

Com um olhar afetuoso acerca da intensidade da metrópole, Lica e Flávio desvendam histórias escondidas pelas ruas, condomínios e espaços mais inusitados onde a vida se desenrola na cidade. A violência e horror também aparecem, coexistindo com as possibilidades de beleza que se pode encontrar a cada esquina.

Confira a entrevista completa!

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Armazém de Cultura: Como surgiu a ideia de traduzir a cidade em uma HQ? como foi o início do projeto? 

Lica: São Paulo é essa grande cidade, mas que no dia a dia a gente vive nos pequenos nichos. São várias pequenas cidades, que funcionam como cidades do interior. A praça perto de sua casa, a padaria que você frequenta, a relação com os vizinhos. Os noticiários falam dos grandes acontecimentos, mas meu interesse era pelos pequenos acontecimentos que ficam escondidos atrás dos grandes. A gente sabia que ia ter um novo Edital do PROAC e eu disse ao Flávio que queria fazer o projeto. Ele topou na hora.

Flavio: Lica chegou com a ideia do roteiro. Sempre a incentivei a exercitar esse seu lado. Sou mais um criador de personagens ( Aú, O Cabra, etc) e achei interessante experimentar um roteiro vindo de uma pessoa que tanto admiro!

AC: Histórias Paulistanas é a segunda parceria de vocês, certo? como funciona o processo de criação das HQs?

Lica: A gente tem 20 anos de parceria, na verdade. Desde que estamos juntos eu produzo os quadrinhos que Flávio cria, e nos últimos 3 anos comecei a escrever. Fizemos 3 histórias curtas e agora essa, de maior fôlego. Eu escrevendo e ele desenhando e colorindo. Eu faço o roteiro e no processo de desenhar ele dá muita ideia. Ele saca muito mais de quadrinhos e o forte dele é o storytelling. Aí sugere os melhores ângulos ou transformar o que eu criei em uma página para duas, e por aí vai. E gente vai batendo bola e vai ajustando.

Histórias-Paulistanas

Capa de “Histórias Paulistanas”

Flávio: Lica tem a qualidade que eu não tenho de ser mais profunda nos roteiros, de surpreender o leitor. Meu negócio são personagens cativantes e finais felizes… (risos). Não tinha como eu recusar a parceria nos quadrinhos de algo que vem dando tão certo na vida. Ela está ingressando no universo de HQ agora e nada mais lógico do que eu ajudá-la com minha experiência dando essa ou aquela sugestão, pensando como quadrinhista mais do que como romancista (coisa que ela tem um potencial imenso), etc. Mas tudo é decidido de comum acordo entre os dois.

AC: Na HQ as narrativas se conectam e reúnem situações que contrapõe caos e solidão. Comentem um pouco sobre a ligação entre as histórias e como isso reflete a cidade.

Lica: Eu tinha as histórias apenas na ideia. A questão de morte por bala perdida, a solidão da velhice, os preconceitos sociais e raciais que nos dividem e um acontecimento inusitado no meio de uma passeata. Eu queria escrever sobre essas coisas. A partir dessas ideias de histórias que eu queria contar eu fui amarrando uma única grande história, cujos elementos de ligação são os pontos onde a cidade, como personagem, aparece. O clube, o playground do prédio, a praça, a rua. Porque é na rua que a cidade se dá, certo? E todos os personagens tem em comum a convivência no prédio, e partem para suas aventuras em um mesmo fim de semana.

A capa mesmo nós decidi1.jpgmos que queríamos bem cinza, porque essa é a imagem que todo mundo tem de São Paulo. Aí você abre e é uma HQ super colorida. A gente queria esse contra-ponto porque pra gente São Paulo é uma cidade com cor, sim.

Flávio: Como sou conhecido mais pela minha linha de Humor (Dois primeiros lugares no Salão de Piracicaba-1994-2000) e por meus personagens, achei que buscar uma imagem na capa que não me entregasse de cara, que despertasse a curiosidade de quem acompanha meu trabalho, que mostrasse esse outro lado que exercito, seria interessante. Amo São Paulo desde menino e ter a oportunidade de retratá-la em toda sua força, na riqueza de seus habitantes enquanto personagens dramáticos era uma chance irrecusável. Esperamos que o resultado agrade pois o que não faltam são histórias paulistanas pra contar.

AC: São Paulo é uma cidade que naturalmente desperta sentimentos de amor e ódio, acolhida e distanciamento, sempre em contradição. Como é a relação de vocês com a cidade?

Lica:
Eu cresci aqui entre os 5 e os 22 anos. Fui morar na Bahia e retornei depois de 20 anos. Gosto muito da cidade. Adoro a diversidade de tipos, o acesso à cultura e ao lazer. Critica-se muito São Paulo, mas quando você mora em outro lugar você sente como aqui é bom menos preconceituoso e mais aberto que outros lugares do Brasil.

Flávio: Com 11 anos eu disse a minha mãe: “Vou pra São Paulo como se estivesse Voltando e volto pra Salvador como se estivesse Indo”. É em São Paulo que me sinto em casa no mundo e na vida.

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AC: Além da versão impressa, a HQ também será disponibilizada em versão digital na plataforma de streaming Social Comics, certo? Essas novas tecnologias de divulgação afetam a forma de produzir, o processo de elaboração do trabalho? Na hora de planejar a HQ, vocês já pensam sobre a necessidade disponibilizar de forma alternativa?

Lica: A gente tem todos os títulos na plataforma da Social Comics. Eu acho que as coisas se completam e, às vezes, a edição digital faz a pessoa querer ter a edição impressa. E é mais uma possibilidade de ter acesso ao material. A meninada mais nova lê muito no digital. Quase todos os títulos da Papel A2 estão na Social Comics. Só não tem lá o que não temos finalizado em computador, que ainda é da era de finalizar no papel.

Flávio: Eu acho que uma boa história funciona em qualquer meio. Eu vou preferir sempre o impresso, mas não posso fechar os olhos para as novas possibilidades e públicos. Quem marca touca nesse aspecto fica para atrás. Contudo, ainda faço HQ do jeito que aprendi e baseado no material impresso. Tenho que estar antenado com o novo para os próximos lançamentos futuros.

AC: O que pensam sobre a influência da internet (seja para divulgação ou veiculação do trabalho por meio dessas novas plataformas) no mercado de Quadrinhos?

Lica: Hoje em di2a é fundamental. Temos páginas no Facebook pessoais e da Editora, tem site da editora e um blog do histórias paulistanas que mostra todo o processo. É onde mais divulgamos, convidamos e mostramos o que estamos fazendo.

Flávio: Acho que facilitou a descoberta e o acesso de títulos, autores, novos públicos, pra todo mundo tanto profissional como leitor. Junto com coisas interessantes e bem feitas, claro, que temos muita coisa que não tem a mesma força nem desperta maiores atenções, contudo, o tempo se encarrega de manter ou não a importância e a longevidade qualitativa do que vem sendo feito.

AC: Falem um pouco sobre a trajetória nos quadrinhos! Que trabalhos, artistas, influenciaram o início da carreira?

Lica: Eu ainda tô no início, apesar dos 51, risos. Eu gosto mais de quadrinhos europeus pela forma. Uderzo e Goscinny e Art Spiegelman (judeu-americano), Will Eisner (americano), são mestres que adoro. E Cyril Pedrosa (francês) que escreveu e desenhou a HQ mais linda que já li, Três sombras.

Flávio: Desde pequeno coleciono quadrinhos. Como fui leitor do Gibi Semanal da RGE desde o primeiro número, aprendi a gostar de tudo um pouco. Quadrinho americano, tirinhas, quadrinho europeu, clássicos, indies etc… Tenho uma forte influência de Will Eisner, Uderzo, Ibanez, Jack Davis e Jonh Byrne, Bruce Timm no meu trabalho. Seja na forma de contar como no traço também. Nunca tive a sorte de despertar o interesse de agentes ou editoras já que sou muito autoral no que apresento. Porém, continuo buscando meu lugar nas prateleiras dos leitores de HQ mundo afora. Histórias Paulistanas é o mais novo passo nessa direção.


Assinatura Meiri

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