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Lá vem o amor

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*Por Talita Guimarães

Era uma aula sobre abstrações, a professora dominava nossa atenção com a precisão de uma maestrina diante de sincronizada orquestra. De repente, ela olha para a porta e solta um exemplo:

– Se eu digo ‘olha lá, lá vem o amor descendo a rampa’… – a reação é imediata, todos olham para a porta, olhares a sério atravessando o visor de vidro na direção apontada, e a professora sorrindo docemente em seguida para a nossa atenção grudada às suas palavras credíveis.

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Arte: Talita Guimarães

O causo é memória evocada à partida precoce da professora em questão. Elaine. Mestra de Língua Portuguesa e Literatura que nos deixou na quarta-feira 22 de fevereiro de 2017.
O luto doloroso que se ergue está intimamente ligado à sensação de perda que sua morte representa. Penso comigo sobre a triste perspectiva de viver em um mundo onde Elaine não estará mais. Onde pessoas de todas as idades não assistirão mais aulas suas. E falo isso com o pesar de quem teve a vida significativamente melhorada pelos ensinamentos da professora, que transformou incontáveis alunos em leitores, amantes das aventuras que livros, até então objetos estranhos, revelaram após apresentados por Elaine.

Em um país onde as pessoas afirmam sem constrangimento não gostarem de ler, e não faltam depoimentos sobre as entediantes leituras obrigatórias do ensino médio, me descubro triste exceção pelo feliz privilégio de ter sido aluna de uma professora que despertava o amor à literatura no minado terreno do tédio adolescente.

Privilégio e honra, contar com Elaine ao longo de várias fases da minha formação: nos três anos do ensino médio, depois por mais dois períodos de faculdade e por fim em um módulo na pós-graduação.

Sempre com a mesma energia, delicadeza e elegância. A personificação do amor e da vocação.

Então quando a vida, essa coisa incompreensível, encerra o tempo de Elaine entre nós nos seus 55 anos de vida, o luto é inevitável. A necessidade de despedida, inacreditável.

Tanto que uma amiga, ex-aluna também, ao chegar no teatro em que a velamos, ainda me questiona: “é ela mesmo? Você já viu?”, em um derradeiro ato de descrença sobre a possibilidade absurda que é enterrar um mestre.

Há três dias que nos despedimos e eu ainda choro. Golpeada por toda morte que já me arrancou pedaços.

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Lembro do filme “O adorável professor”, que sempre me leva às lágrimas na cena em que os estudantes homenageiam o professor de música em sua despedida das salas de aula por aposentadoria. Ele, que começou a dar aulas por necessidade, era um maestro que passou a vida frustrado por não ter composto sua grande sinfonia. Somente ao se aposentar da escola, descobre a dimensão do que compôs ao longo da vida. A orquestra formada por alunos de todas as gerações que passaram por sua sala de música executa uma de suas peças e anuncia: “nós somos a sua sinfonia!”.

Porque professores são profissionais cuja matéria-prima é a vida, os recursos o mundo. Tudo o que fazem, dizem, entregam, colocam a serviço, atravessa a matéria humana. E reverbera desmedidamente pelos espaços todos, dos mais óbvios aos mais insuspeitos.
Elaine me fez amar Machado de Assis e Moacyr Scliar, quando nos fazia ler uma obra por semana, de todas as escolas literárias. Até mesmo tendo detestado “Ubirajara”, soube que ler para saber mais era uma experiência importante e segui abrindo livros.

Se há alguns meses comecei a reunir escritores e leitores para conversas sobre experiências de leitura e escrita e hoje acumulamos mais de uma dezena de encontros, começando inclusive a circular por escolas e bibliotecas, é porque alguém lá atrás me fez acreditar que a leitura me impulsionaria em frente. E que eu não estaria sozinha.
Muitos mestres me guiaram nesse trajeto, dos meus pais – mestres primeiros e eternos – aos tantos professores incríveis que tive. Entre eles, sem sombra de dúvidas, Elaine Araújo.

Porque assim como a sinfonia de Mr Hollands foi escrita na pele de seus alunos, Elaine inscreveu em tantos de nós o prolongamento do seu amor às letras, à vida e à transformação que essa união traz.

Quando anunciou, a título de exemplo, que o amor descia a rampa, ela sabiamente já o tinha convocado para encontrar morada em nós.

Porque sim, o amor de Elaine veio. Para fincar.


Assinatura Talita

Talita Guimarães: Ensaios em Foco | Instagram | Twitter

One thought on “Lá vem o amor

  1. Linda homenagem,sensivel e cheia de luz,Elaine descansa feliz cheia de paz e amor no coração da gratidão de todos que partilharam da experiencia de conhece-la e conviver com toda sua generosidade.

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