Dica de segunda

Cores (Carol Rossetti)

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*Por Beatriz Farias

Você vai me dizer que a luta pela mulher é diária, e o respeito não deve depender de um dia. Eu vou dizer que você está certa. Mas ainda assim, com uma sociedade desigual e que ameaça constantemente retroceder, é importante uma data que relembre intensamente o que foi necessário para chegar até onde estamos e tudo que ainda falta. 8 de março é essa data. Visto isso, o Armazém se dedica este mês a uma programação especial que fortaleça as mulheres que produzem arte no nosso país e afora, e como a Dica de Segunda não poderia ficar de fora, toda semana Beatriz Farias comenta uma artista (nos mais diversos aspectos da palavra) que vale a pena ter seu trabalho reconhecido.

CORES CANVA

Dia desses, andando de ônibus, ouço da moça sentada ao meu lado: “(…) e então comprei o ferro rosa, que já vem com a tábua de passar para minha filha. E para o menininho o helicóptero de brinquedo…”. A conversa que carrega o filtro da normalidade cotidiana expõe disfarçadamente a pergunta, fruto do problema, que geralmente fazemos antes mesmo de qualquer ser vir ao mundo: “É menino ou menina?!?”. Pronto. A partir daí a coisa “gente” que sai de dentro da barriga da mamãe está marcada: é bom saber logo antes se vai vir com um pênis ou uma vagina, já que vai fazer toda diferença na forma com que devemos tratar dessa criança (você percebe que indiretamente é isso que no repetimos ao dar tanta importância àquela questão inicial?). Porque se for confirmado que é menino, automaticamente as paredes da imaginação já se pintam de azul, a gente sente alívio de não colocar no mundo alguém que possa sofrer tanto como a garotinha, mas continua ensinando àquele garoto que deve se comportar como o macho que é, pra ser respeitado. Se por acaso for menina é bom correr logo e comprar tinta rosa, vestido rosa, boneca rosa sapato rosa. As cores que por sua multiplicidade deveria ser inspiração de liberdade e imaginação é encarregada da função de nos aprisionar em caixinhas.

Mas antes que tudo fique cinza (já sabemos que quando querem nos calar usam essa cor também, certo?), é reconfortante lembrar que tem gente preocupada em fazer revolução. Revolução sem precedentes, podendo começar no quarto de brinquedos sim, a revolução na arte e com a Carol Rossetti é feita por meio das Cores.

46040-215e3c8ffb9a77444ace4846a9fa2f75“Cores”, que foi lançado através de financiamento coletivo, é o primeiro projeto de quadrinhos de Carol Rossetti. A designer, ilustradora e quadrinista já é conhecida por seu aclamado “Mulheres – retratos de respeito, amor-próprio, direitos e dignidade”, volta mais uma vez para provocar através do carinho resistente a desconstrução em quem acompanha seu trabalho. O projeto conta pequenas histórias de crianças diferentes entre si, com tonalidades diferentes e paixões opostas que tem em comum o desconforto em aceitarem os papeis que lhe foram impostos antes mesmo de nascerem. Seja por uma garota que não gosta de brincar com bonecas ou um menino que adoraria ganhar uma boneca ao invés dos carrinhos que já se amontoam no seu quarto, temos aqui a intenção de liberdade que faltava ser apresentada para todas as idades.

Mesclando a inocência da infância com uma esperteza desafiadora presente nessas pessoas que ainda não se adestraram pelo cotidiano, “Cores” tem uma arte de encher os olhos. Carol mostra que é possível misturar a nostalgia dos detalhes sem reproduzir clichês ou frases de efeito já tão repetidas. É exatamente por essa mistura que a gente se encanta, cabe tudo dentro de pessoinhas que sabem que o mais importante no final do dia é o tanto que você foi capaz de se divertir. E por falar em diversão, a graça na galeria de convidados nas últimas páginas do livro é repleta de afeto, reforçando a ideia da diferença presente no livro: vários artistas retratam os personagens – que a essa altura já adoramos – em seus estilos pessoais de arte. Viva a diversidade.

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A tranquilidade com que a quadrinista escolheu abordar os mais diversos assuntos é ponto chave para a qualidade do livro. É necessário que se compreenda como na infância formamos nossas maiores inseguranças pela falta da aceitação de um para o outro, e ainda mais nocivo: a intolerância que somos ensinados a manter para criar em nós proteções contra o outro. Quando Carol decide tratar como normal certos tabus, somos remexido por dentro a ir quebrando os muros que nos afastam das pessoas diferente de nós colocadas a nossa frente. Brinca também com essa “aceitação” hipócrita que diz respeito apenas ao que se parece comigo, é fácil aceitar quem tem os mesmos gostos, que se comporta da mesma maneira, quero ver chamar pra perto o garotinho estrangeiro desconhecido que acabou de chegar no colégio. E é exatamente isso que essas crianças fazem, e fazem pela capacidade de olhar através de si, não simplesmente porque alguém disse que era correto.

Curioso observar também como as tirinhas dialogam com qualquer faixa-etária, sendo o melhor presente para uma criança entender desde cedo a normalidade do que não é exatamente seu reflexo no espelho. Mas também serve a um adulto como um tremendo tapa na cara de amor e consciência, desses que nos deixam envergonhados de não ter pensado sobre antes. A possibilidade de diversão sem ofensa se mostra renovada ao inverter a relação com o que é de fato engraçado, o absurdo mostrado no livro é o não aceitamento. Piada se faz com o coitado do Thiaguinho que tem dificuldade em aceitar a coleguinha na brincadeira, ou hábitos diferentes dos seus. E ainda assim, o que a galerinha faz com ele? Pelo bom humor dá sempre um jeito de mostrar que ele está equivocado, a inclusão faz diferença. O respeito é tido como base primordial em todos os campos, tudo bem que Lila gosta de vestidos e coisas fofas (a ideia não é sair de uma prisão do que é permitido ou não e entrar em outra), mas a Su gosta de brincar com espadas e isso é tão válido quanto, a ideia é que não existe uma única possibilidade.

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A explicação da história presente no livro nos coloca uma frase engraçada, válida de desejo: “crianças maiores por dentro que por fora”. Ao fim de um texto a respeito da diversidade, não há interesse maior de que a ideia fincada seja de honestidade em aceitar os diversos desdobramentos de cores em cada um. O que é bonito no azul é que existe uma infinidade de outras tonalidades que dele retiramos, e no verde também. Assim como no rosa, e em todo o resto. Cabe a todos nós preservar essa criança interior, que ao ser julgada com uma diferença sua ou de quem está a frente, que respondamos com a inocência colorida que conseguimos guardar: o que é que tem demais?


Perfil Bia

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