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A grande beleza em Aurora, Matilde E Sorrentino

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*Por Talita Guimarães

A mulher produz poesia em estado de espanto.

A criança cambaleia diante de um autêntico Pollock.

O velho homem sonha com a moça amada sob a luz do luar.

53. A GRANDE BELEZA EM AURORA, MATILDE E SORRENTINO

Arte: Talita Guimarães

O alumbramento de instantes fugazes da vida. É onde mora a grande beleza, objeto de interesse humano, santo graal de todo artista.

Quando a poeta maranhense Aurora da Graça anuncia que seus poemas, todos eles, são resultado de todas as vezes em que se espantou com o mundo, podemos achar que sua poesia é um estado de espírito que lhe toma quando algo extraordinário explode a sua frente. Quando o que acontece contudo, é o oposto.

Aurora vê o extraordinário no banal. E pensa em poesia.

Leio os versos de sua Metafísica Cotidiana (“Há de ser mais que peixe escamado/ folhas aromáticas e sal/ o que trago nas mãos”) e a poeta revela que este foi um pensamento seu ao retornar do Mercado do Peixe, com os ingredientes embrulhados.

A poesia vem quando o espanto acontece, a poeta cujo nome antecipa claridade simplifica para nós sua rotina criativa.

Então lembro da poeta portuguesa Matilde Campilho e sua lembrança de infância sobre o alumbramento que sentiu diante de um painel de Pollock. Embora nunca tenha conseguido nomear o que estava diante de seus olhos, Campilho nunca titubeou diante da certeza de que o que vira era incrível.

2017 - Aspas_Recorte.jpg

E aí não há como falar em arrebatamento sem mencionar o cinema do italiano Paolo Sorrentino, diretor de obras-primas como A Grande Beleza (2013) e Juventude (2015). Da trilha sonora que consegue fazer caber no mesmo filme o pop eletrônico e a música de orquestra sem mixar os gêneros à fotografia minimamente pensada para ser uma pintura na tela, o cinema de Sorrentino é puro deleite sonoro e visual.

Os silêncios encaixados nas longas cenas em que os personagens observam-se uns aos outros,voyeurs da existência, é também uma marca dos dois filmes mencionados, que abordam respectivamente a decadência da elite romana sexagenária e a melancolia do fim da vida.

Enquanto em  A Grande Beleza o escritor Jep Gambardella – “um destinado a sensibilidade” – se vê especialmente saudoso de seu grande amor de juventude que há pouco falecera, deixando viúvo outro e não Jep, em Juventude assistimos ao encontro de dois amigos octogenários em um hotel de luxo refletindo continuamente sobre as últimas experiências de se sentirem vivos, ainda que vividas apenas através de momentos como a apreciação à distância da Miss Universo despida na piscina.

Do banal ao aparentemente vulgar, a poesia e o cinema entendem quando se trata de extrair o extraordinário da vida.


Perfil Talita

Talita Guimarães: Ensaios em Foco | Instagram | Twitter

One thought on “A grande beleza em Aurora, Matilde E Sorrentino

  1. Você sempre inspirada em posts tão bem escritos apontando para o que o cinema nos propicia em beleza e poesia. E eu ? Também. rsrsrsrsrsrsrsr….

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