Dica de segunda

Remonta (Liniker e os Caramelows)

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*Por Beatriz Farias

Você vai me dizer que a luta pela mulher é diária, e o respeito não deve depender de um dia. Eu vou dizer que você está certa. Mas ainda assim, com uma sociedade desigual e que ameaça constantemente retroceder, é importante uma data que relembre intensamente o que foi necessário para chegar até onde estamos e tudo que ainda falta. 8 de março é essa data. Visto isso, o Armazém se dedica este mês a uma programação especial que fortaleça as mulheres que produzem arte no nosso país e afora, e como a Dica de Segunda não poderia ficar de fora, toda semana Beatriz Farias comenta uma artista (nos mais diversos aspectos da palavra) que vale a pena ter seu trabalho reconhecido.

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Foto: Gabriel Quintão

“Dançar é um ato político”.

A frase, repetida algumas vezes durante um bloquinho do carnaval de rua em SP, foi escolhida para abrir esse texto por sintetizar uma ideia presente na artista e no disco “Remonta”, comentados nessa última semana de comemoração do mês da mulher. Para deixar ainda mais claro, relembro o cantor César Lacerda, que em entrevista para o AC (lá em 2015) a respeito de arte e política, afirmou “levar o coração como bandeira”. E cabe tudo isso na malinha de mão do coração de Liniker Barros, a voz por trás da verdade indispensável de que falar do amor é continuar pulsando no nosso tempo, e acima de tudo: falar do amor da forma que a gente é sem filtro de convenção ou ajustamento social. Meu senhor, minha senhora, deixa Liniker bagunçar você.

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Com uma campanha de financiamento coletivo bem sucedida, o sucessor do EP “Cru” foi gravado nos estúdios da Red Bull, com produção de Marcio Arantes. “Remonta” foi lançado em outubro de 2016, contando com diversas participações especiais nas canções, dentre elas: Xênia França, Tássia reis, Marcelo Jeneci – sanfona na canção “Sem nome mas com endereço” -, Tulipa Ruiz, Assucena Assucena e Raquel Virgínia (ambas cantoras dAs Bahias e a cozinha Mineira). Vale destacar que além de Liniker Barros nos vocais, a banda (denominada Caramelows) é formada por Rafael Barone (baixo), William Zaharanszki (guitarra), Pericles Zuanon (bateria), Márcio Bortoloti (trompete) e Renata Éssis (backing vocal).

Com a levada do soul incorporada a diversos ritmos, o trabalho de Liniker passeia pelo samba de raíz que ouvia sua família cantando desde pequena, ao black music “num sentido amplo do termo”, como a mesma afirmou para a El País. Se a presença do épico fica garantida na grandiosidade da voz da artista em conjunto aos arranjos ricos (e aqui a gente agradece a ambição), o quentinho no corpo se dá pela intimidade das letras, como ouvir declaração no ouvido: o silêncio, o arrepio. Tem a elegância em se despir corajosa, dizer o que precisa por uma verdade que desliza descarada e encontra sentido na aproximação de quem ouve o desafio do amor jamais ser igual e por isso apreendido universalmente. Era necessário alguém desfiando esse nó com toda intenção de corpo presente como Liniker faz. E aqui vale citar “Sem nome, mas com endereço”, a primeira canção que ouvi da cantora e que, se já não te ganhar pelo nome, te finca pela doçura de utilizar palavras que nos estranham os sentidos, mas nos abraça de todas as partes.

O nome Liniker (que vem grifado de vermelho no corretor do editor de texto e ainda destacado na rua, por onde passa, por ser um corpo negro que simplesmente não coube nas possibilidades preestabelecidas e decidiu aceitar ser quem lhe era preciso) carrega consigo forte carga de desconstrução e empoderamento necessário, catártico. Mas o poder da artista está exatamente em fazer transcender os significados, deixar a música soar por si só, fazendo a transformação por uma mensagem que é menos verbal e mais de partilha. A partir do momento que se compreende todo o valor daquela identidade que se coloca no palco a serviço, a melhor maneira de continuar lutando para se fazer presente é abrigando o sentido de sua música (“levar o coração como bandeira”, mais uma vez). Liniker fala que “Remonta” é um álbum sobre a descoberta do amor visceral, então talvez falar do amor seja mais uma linguagem para abordar a luta e necessidade em comentar a cantora. Aceitar as camadas das significações é respeito a essas “questões do coração” abordadas pela mesma.

músicas
A verdade é que nenhum disco precisa permear todos os perímetros da nossa inevitabilidade humana de sentir tudo, cada artista com sua necessidade. Mas que bom que de vez em quando alguém surge necessitando todas as coisas também, com uma inquietação bonita de botar no mundo de tudo um pouco. E é por isso que ouvir “Remonta” tem um leque de possibilidades que vai da dança ao choro e uma coragem ultrapassando os clichês já levantados a respeito de Liniker. Falar do amor requer coragem, mas exige da gente a capacidade de tirar as peças do quebra-cabeça que não estão dando certo e remontar. Remontar é o luxo de nos amar que ainda nos cabe. Que bom Liniker, “não vai ter nenhum mané tombando nós nessa fita”


Perfil Bia

Beatriz Farias: Tumblr | Instagram

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