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Das coisas que eu não sei

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*Por Talita Guimarães

Levanto o rosto sorridente após ler uma crônica do Antonio Prata e meus olhos batem na placa que vai passando pela janela do ônibus: Retífica Ilha. Baixo a cabeça de volta ao livro, mas meu olhar não retorna comigo. Está perdido em algum lugar da minha cabeça em que me dou conta de que não sei o que é uma retífica. Lembro que a palavra é familiar. Penso rápido: Retífica Laser. E me pergunto em seguida: mas onde eu li isso? Ah sim, em alguma outra placa. Vista à exaustão, durante anos de mesmo caminho.

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Arte: Talita Guimarães

Prata continua aberto em meu colo enquanto percebo que tenho um novo problema, em plena 9h32 de uma manhã de quarta-feira dos meus 27 anos e oito meses. Há coisas que estão em mim há anos, pelas quais passo com frequência e convivo civilizadamente, porém não tenho a menor ideia do que significam.

É possível que eu sempre tenha adotado uma postura Carreta Furacão (aliás, por onde andarás, querida Carreta?) seguindo em frente e olhando para o lado ligada na batida do cavaco das coisas do caminho, porém sem desviar ou perder tempo com o que já vai ficando para trás.

Curiosamente, dias antes eu já havia passado de leve pela questão ao confessar que não sabia o que era quimera. Em uma conversa descontraída com as amigas que fazem este Armazém de Cultura, minha querida colega de AC Bia cantarolava animadamente comigo um Sandy & Júnior quando de repente me dei conta de minha limitação semântica diante da letra. Claro que rapidamente nossa chefa Meiri Farias, sempre muito culta, soprou-nos a definição com a desenvoltura de quem está sempre a postos para sanar dúvidas. 2017 - Aspas_Recorte.jpg

Foi aí que me dei conta que tanto diante da letra da música quanto de umas tantas coisas da vida cujo entendimento imediato não me ocorre, mas também não me ameaça confesso que simplesmente finjo que entendi e sigo em frente.

De volta à retífica, contudo, a questão assume um tom problemático e me bota encucada. Fecho Prata e me dedico a espiar pela janela o que mais está passando por mim, sendo notado porém não compreendido. Apenas mais alguns metros adiante outra placa me planta um ponto de interrogação. Omnilife? Que diabos é Omnilife? Avalio rapidamente o estabelecimento lilás de porta de vidro e penso comigo que deve ser algum produto ou serviço tipo Herbalife. Coisas de saúde e dietética, suponho já ciente da minha grande margem de erro aberta pela retífica, minha quimera vocabular.

Risonha, sigo em frente sem mais olhar para o lado, entretida com a inevitavelmente deliciosa lembrança ao cronista carioca Stanislaw Ponte Preta e seu personagem que acreditava persiana ser uma coisa tipo Venezuela.

Garantida a crônica pessoal do dia, retomo meu trajeto pelo adoravelmente compreensível Antonio Prata.


Perfil Talita

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