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Laura Lavieri: A música é feita de agora

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*Por Meiri Farias

Desde que saiu da casa da mãe, Laura Lavieri busca um lar. Em outros bairros, no sítio e agora na beira do mar. Paulistana, Laura encontrou no Rio de Janeiro uma espaço novo para viver sua música de forma plena. “Um lugar que o descompromisso cabe muito bem. Você não precisa se preocupar com nada além do agora”, conta. “E a música é feita de agora. Ela só existe enquanto vibra.”

Depois de nove anos cantando com Marcelo Jeneci, Laura prepara seu primeiro disco individual para 2017 e já vem fazendo shows, onde se envolve com todo o processo, do projeto a produção executiva. “E essa é a diferença desse trabalho. É meu. Meu espaço, meu cenário, minhas personagens, minhas emoções, meus quereres e sonhos e memórias e amores.” A artista conta que o processo de mergulhar na produção do disco é um divisor de águas, que invariavelmente leva as profundeza de sua própria vida. “E cuidar de si é difícil pra caramba.”

Confira a entrevista completa!

1 - foto Daryan Niño Dornelles

Foto: Daryan Niño Dornelles

Armazém de Cultura: Você pretende lançar seu disco esse ano, certo? Poderia comentar um pouco do processo de produção dele? Desde a escolha de repertório até parcerias, entre outros.

Laura Lavieri: Certo.
O processo de produção dele se entrelaça com a minha mudança para o Rio de Janeiro. Desde que eu saí da casa da minha mãe, busco um lar onde encontre meu espaço. Busquei também em outros bairros, ou num sítio, no mato, até que vim parar na beira do mar. Diogo foi a única certeza que tive, por muito tempo, a respeito desse disco. Desde o primeiro instante, eu soube que ele seria o produtor. Estar perto dele, ouvir música com ele, além de curtir umas aventuras na cidade maravilhosa, nos traçou os limites do território onde ergueríamos o disco.
Ter feito shows também foi primordial pra eu entender o que eu precisava cantar. Fazer um disco é um processo muito maluco. Você se propõe a mergulhar fundo numa busca que invariavelmente te leva às profundezas da sua própria vida. É um divisor de águas.

AC: Como você vem sentindo a recepção desse show solo que começou a fazLAURA LAVIERI- ASPASer?

Laura: Muito bem. Eu me sinto muito bem cerimoniando um momento que é tão gostoso e significativo pra mim. Até agora os shows foram pequenos, parte de um experimento. Tudo feito por mim (desde o projeto, até a produção executiva, passando pelo cenário), e foram aprendizados maravilhosos. A divulgação e contato com o público também acontece de maneira bem direta, e é muito forte cada troca. Fico emocionada de ver pessoas de diferentes lugares se sensibilizando com a minha música.

AC: Por falar em show, faz bastante tempo que acompanha o trabalho de Marcelo Jeneci, tanto nos discos, shows, e até assinando em parceria uma canção no segundo disco do artista. Como é realizar essa experiência mais pessoal? Qual é a diferença do trabalho que já realizava com Jeneci?

Laura: É muito diferente.
São 9 anos que acompanho o Marcelo. Nesse tempo, eu vivi o papel de uma parceira, da mão direita. E por conta da minha faceta mais lunar, mulher, talvez a lua em aquário, casa 7, sei lá, o fato é que estive inteiramente disponível pra talhar, aperfeiçoar, e levar aquele trabalho pra onde fosse. Eu acabo sempre dando mais atenção e importância aos espaços dos outros, ou do todo, do que o meu próprio. Aí eu fiquei doente, e vi que precisava dedicar o meu cuidado ao meu espaço. E essa é a diferença desse trabalho. É meu. Meu espaço, meu cenário, minhas personagens, minhas emoções, meus quereres e sonhos e memórias e amores. E cuidar de si é difícil pra caramba.

AC: Sabemos que conforme o tempo vem passando, o meio artístico se torna um ambiente mais democrático para as mulheres mostrarem seus trabalhos também. Entretanto, conforme conversamos com as artistas percebemos que há diversos desafios da nossa época, ainda frutos do machismo persistente. Qual é sua percepção para o mercado musical como mulher?

Laura: O que eu sinto de mais pesado é que estamos acostumados a viver conforme um patriarcado tradicional: o homem dita as regras. e desde que eu sou muito pequena eu ouço (do meu pai!) “você tem que cantar assim…”, “você não pode cantar assado…” (entre outras cagações de regra). E é realmente muito comum observar homens dando muito palpite (e dependendo do tom ou do verbo ou conjugação, nem dá pra usar o eufemismo do palpite) nas escolhas de uma mulher. Sem cuidados, sem pensar que ela pode não querer, ou até nem precisar daquela opinião. As vezes sem nem perceber que é apenas uma opinião. O mundo está acostumado a ser comandado por homens, por energias masculinas, solares, marciáticas. Essa energia ataca, essa energia penetra, invade, mata, conquista, domina. Acho que vale a pena pra todo mundo repensar se num dá pra se inspirar numa maneira de ser um pouco mais receptiva, apaziguadora, acolhedora, geradora, a dividir, ceder espaço, a esperar, ouvir.

Confira o clipe da canção “Quando alguém vai embora”, de Laura Lavieri:


AC: Em entrevista para o site Trabalho Sujo você conta que está morando no Rio. Você percebe a cidade influenciando a forma que você interage com a arte? Como o espaço físico contribuiu para o trabalho que você pretende lançar esse ano?

Laura: Que ótima pergunta.
Contribuiu integralmente.
Eu saí de SP afim de deixar pra trás coisas que eu já tinha, e buscar aquilo que eu ainda não conhecia.
Foi também em busca do sol. sol e sal. E mais umidade.
Foi também pra ficar perto do Diogo.
Foi também pelos inúmeros novos e maravilhosos amigos cariocas.
Eu sou uma pessoa mais saudável, e melhor aqui. Agora.
E sinto e vivo nessa cidade, outra relação com a música. mais viva, imediata e descompromissada. Um lugar que o descompromisso cabe muito bem. Você não precisa se preocupar com nada além do agora. E a música é feita de agora. Ela só existe enquanto vibra.

2 - foto Maria Clara Villas

Foto: Maria Clara Villas

AC: Para terminar, poderia compartilhar um pouco o que serviu de influência/referência na arte (tanto no meio musical como na literatura e nas mais diversas linguagens) nessa nova etapa do seu trabalho?

Laura: Na literatura, me influencia sempre o Raduan Nassar. E influenciou nesse processo todo: “Um copo de cólera”, dele, e também, “A vênus das peles” Sacher Masoch, e “A confissão da leoa” Mia Couto.
Na música, tudo que vi e vivi no Rio (especialmente, na Audio Rebel), como Jonas Sá, Grupo Cometa, Exército de Bebês, Thiago Nassif, Meia Banda, Dr Haux, Mãeana, Letuce, Séculos Apaixonados, Ava Rocha, Negro Leo, Do Amor, Ricardo Dias Gomes, Ao Som dos Planetas – Alberto Continentino e Vivian Miller, Ana Frango Elétrico, Duda Brack…
Por aí: D’angelo, The Internet, Kadhja Bonet, Metronomy, Soft Hair, Unknown Mortal Orchestra, Yeah yeah yeahs, Stevie Wonder, The Meters, Stooges, Walter Franco, Sylvia Telles, Jupiter maçã, Rodrigo Rodrigues, Milton Nascimento, Gilberto Gil…

Confira um registro de fã em que Laura interpreta a canção “Deixa acontecer naturalmente”:


Perfil Meiri

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