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A Teta racional

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*Por Beatriz Farias

teta racional

Li que teta significa “calão para as mamas do mamífero”, sendo mamas a parte responsável pela produção de leite para seus filhos nos primeiros meses de vida. Mas isso você já sabe e eu também. Outra coisas que você já sabe é que no caso de seres humanos, tecnicamente utilizamos palavras como “seios” ou “peitos” e ao falar dos demais animais resgatamos o termo de inicio da conversa: teta. O que nós dois não sabemos ao pegar pela primeira vez o livro, é o motivo pelo qual uma escritora colocaria uma palavra designada a nomear seres não pensantes como complemento de racionalidade. Deixando ainda esta segunda palavra que garante a lógica de cabeça para baixo no layout, começamos a identificar um pedaço da razão em sua falta de sentido ao folhear as primeiras páginas e encontrar a epígrafe. É que a autora escolheu uma frase de Emma Goldman para responder as perguntas que a esse ponto já fizemos ou nem sequer sonhamos questionar: “Se eu não posso dançar, essa revolução não me interessa”.

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“A teta racional”, selecionado na “Segunda Temporada de Originais da Grua” para ser lançado pela editora Grua, é uma coletânea de contos a respeito de diversas mulheres. Mulheres falando de mulheres e suas histórias. A responsável por dar voz a todas as moças, ou deixar que todas essas moças lhe deem voz, é Giovana Madalosso. Em seu livro de estreia é possível identificar a urgência com que a escritora curitibana destrincha suas personagens, tratando de assuntos que já precisava serem ditos, porém com a elegância de anunciar verdades com atenção aos detalhes.

Durante as dez crônicas presentes no livro é possível identificar pelo menos uma personagem feminina a temperar a pequena história. Sendo quase todos os contos em primeira pessoa )a exceção se dá nos mais curtos “Jardim”, “Instantâneos” e “Sentimento nº 01403”), a pluralidade de temas mostra-se necessária para afirmar que ser mulher é um desafio dentro de contextos extremamente diferentes – o que não justifica, mas confirma os privilégios existentes em algumas situações -. Desde a falta de dinheiro, permeando a ausência de amor ou até o agudo sofrimento de não conseguir administrar a própria vida, a mediocridade é ponto central da forma que vamos lidar com as personagens difíceis de serem digeridas. Pessoas que podem até ter semelhanças com nossa própria história de vida, mas nos pega mesmo pelo que é diferente, aquilo que não gostamos de aceitar. É a vulgaridade do que é pequeno nos fatos que nos faz continuar devorando as páginas, amar as personagens não vai te fazer ficar, mas entender que ainda não suportando aquele tipo de comportamento, o duro que aquela senhora está dando pra viver não é melhor ou pior que o que eu mesma estou desempenhando.

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A relação que Giovana estabelece com a forma que vamos observar cada personagem sua é também instigante sobre o tipo de visão que se espera das pessoas de forma geral. A personagem que narra a primeira história é mãe, o conto se desenvolve basicamente por esse fato. Já a narradora da última é filha, e a trama existe pela relação que se estabelece com a sua mãe. Mas tanto a moça da primeira quanto a da última – não trabalhamos muito com o nome próprio nesse livro, não é um contradição universal interessante? – são filhas, amigas, namoradas, sozinhas. O que dita a regra da história é que elas são mulheres e estão levantando a voz nem que seja para dizer: eu escolho ficar em silêncio. E daí surge outro ponto na escrita da autora. A sua capacidade de abordar os temas centrais de forma distinta faz com que a todo instante o leitor questione o seu posicionamento a respeito de um fato. A maternidade, por exemplo, soa ambígua quando Giovana expõe suas múltiplas facetas nos contos “XX + XY” e “A teta racional”, apresentando no primeiro caso uma mulher exausta do peso de ter um filho, e no segundo que dá nome ao livro, uma personagem que percebe a mágica do seu corpo em parir. Nenhuma certa ou errada, são pontos de vista.

Por falar nas capacidades destemidas da escritora, a falta de padrão no tamanho de cada conto merece menção. Giovana não tem medo. Não tem medo de encerrar uma história em uma página ou deixar que ela corra por diversas folhas com uma calma que angustia nossa mania de normalidade. A beleza do cru proposto é saber o tempo de cada situação, todas as urgências exorbitantes e as pausas ardilosas faze parte do que de nosso é mais simbólico: estar exposto às cicatrizes e continuidades.

Depois de tantos pontos, é curioso voltar para a capa, ponto de onde sempre partimos ao tocar um livro. Mas como a maioria do que por aqui acreditamos ser urgente, a necessidade se dá por aquilo que destoa. Um coração. A mística do coração é engraçada porque quer coisa mais passada do que falar a seu respeito, usá-lo de metáfora, desenhá-lo? E aqui menciono aquele desenho singelo de duas partes que se encontram, romantizado, pois o livro já dá a rasteira ao nos entregar um coração da forma que ele existe dentro de nós. A beleza presente nas cores não encobre o horror do órgão exposto, porque é sinal de alerta: é possível falar de amor exibindo a falta de beleza. Quer cuspe mais eficaz na nossa ambição de querer sem feliz sem visualizar a carne e o feio do que é real do que o coração sem justificativas, ocupando todo o espaço da página?

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O título de cada conto é convite irrecusável para conhecer os universos que Giovana apresenta

O desfecho dos contos dispõem da falta de solução que provoca o choque em quem lê. Não tem a ver com uma catarse profunda vivida pela personagem, mas por uma simples conclusão que as vezes nem é direta: a vida segue. As vezes um simples tapa na cara de realidade como no caso de “Roleta-russa” em que o caso nos faz engolir em seco o gosto amargo da realidade social em que estamos inseridos, as explosões de necessitar sentir algo. E essa explosão, boa ou ruim, é o suficiente para fazer a mulher da primeira história dormir um pouquinho ou as mulheres da última crônica levarem em paz a viagem. Não é a reviravolta brilhante, a gente não tem dó dos personagens que, as vezes estão se ferrando mesmo, a gente simplesmente abraça a secura, ou a decepção junto, e entende com elas que vai ter o dia de amanhã, e depois, e depois, até que uma hora não tem mais amanhã e vale olhar pro ontem pra ver o que foi feito com o respeito de reconhecer nossa própria história.

Quando terminei “A teta racional” olhei para ontem e achei que sabia tão pouco sobre agora. O que é ser mulher e ver o corpo em movimento constante de esticar, preencher, guardar, não querer, querer demais. E finalmente entendi sobre o que se trata os dizeres na capa, e os dizeres do que podemos produzir: uma teta é polêmica porque a sociedade não gosta de reconhecer a inteligência do nosso corpo.


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