Abre Aspas

Lorena Kaz: Morrer de Amor e Continuar Vivendo

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*Por Meiri Farias e Beatriz Farias

Sexta-feira (24/03), Poliana Bagatini – casada com o cantor Victor, da dupla Victor e Leo – registra boletim de ocorrência contra o sertanejo. Poliana é acusada de histérica, oportunista, chata, louca, entre outros. Sexta-feira (31/03), Susllem Meneguzzi – figurinista da emissora de televisão Rede Globo – relatou no blog #AgoraÉQueSãoElas, do Jornal Folha de S. Paulo, que havia sido assediada sexualmente pelo ator José Mayer. Susllem é acusada de histérica, oportunista, chata, louca, entre outros. Em rede nacional, a participante do reality show Big Brother Brasil, Emily Araújo, é agredida por outro participante: Marcos Härter. As agressões que partiram do psicológico até chegar no físico deram a Emily vários títulos. Vamos a eles: histérica, oportunista, chata, louca, entre outros. E até ser feito exame de corpo de delito para comprovar que de fato havia acontecido uma agressão, que merecia expulsão do participante, acompanhamos as opiniões polarizadas de quem acreditava piamente de que “uma mulher besta feito aquela merecia continuar sofrendo”.

morrer de amor e continuar vivendo
Além da obvia criminalidade, todo os casos tem em comum a diminuição do sofrimento vítima. Existe ainda os que falaram que agora tudo é agressão, esquecendo-se de que o mal sempre existiu, porém somente com o passar do tempo que um pequeno espaço se abre lentamente para se falar a respeito. E é a respeito desse tipo de espaço que chegamos no trabalho de Lorena Kaz.

Lorena sempre gostou de fazer quadrinhos autobiográficos. Por volta de 2012, resolveu juntar suas histórias sobre relacionamentos e a partir disso começou a acompanhar relatos do grupo “Mulher que Amam Demais Anonimas” (MADA). Esse material foi publicado recentemente pela Amora Editora na HQ “Morrer de Amor e Continuar Vivendo”. “Se o meu trabalho for capaz de fazer uma pessoa que seja pensar sobre algo em sua vida ou se sentir mais acolhida, então todo esforço valeu a pena”, explica. “As mensagens de agradecimento são as mais recompensadoras.”

Designer, com experiência em ilustração para o mercado editorial e design gráfico. O projeto de Lorena também ganhou uma exposição que já passou pela Casa das Rosas, Salão de Humor de Piracicaba e recentemente chegou ao Conjunto Nacional. “O mais legal de tudo era sentar lá no corredor e ver a reação das pessoas, tinha gente que ria, tirava foto, apontava, arrastava os amigos pra ver…” conta, lembrando que essa é a maior versão da exposição até agora. “Causou muita comoção mesmo. Foi ótimo!”

Matias Freitas Guimarães Divulgação

Foto: Matias Freitas Guimarães/Divulgação


Armazém de Cultura: Recentemente você lançou o livro do projeto “Morrer de amor e continuar vivendo”, pela Amora Editora. Conta um pouco como foi esse processo de partilhar essas histórias de vivência pessoal, até chegar na publicação do livro.

Lorena Kaz: Sempre fiz quadrinhos autobiográficos, desde que comecei a desenhar quadrinhos por volta de 2006. Meu tema preferido sempre foi relacionamentos, fazer pensar sobre a forma como nos relacionamos ou apenas expressar sentimentos mesmo… Comecei desenhando as minhas histórias pessoais e depois passei a desenhar também as de amigas e conhecidas.

Por volta de 2012 ou 2013, eu tive a ideia de juntar meus quadrinhos sobre relacionamentos e fazer exposições com eles, para que mais pessoas pudessem partilhar das minhas reflexões. Redesenhei algumas histórias antigas para virarem formato A4 e fiz histórias novas baseadas em experiencias minhas e também relatos ouvidos no MADA (Mulheres que amam demais anonimas), local que eu estava frequentando para aprender mais sobre dependência emocional. Fiz algumas remontagens da exposição que contava com mais ou menos 18 artes e a editora me convidou a fazer o livro.

Ainda não tive grande feedback do livro, pois lançamos ha pouco tempo. Embora tenha sim recebido alguns comentários bem tocantes, nesta história toda o que mais me emocionou foi o caderno de visitas da exposição de inauguração que fiz em 2014, na casa das rosas. É um caderno inteiro apenas de elogios e alguns depoimentos muito emocionados de pessoas que se identificaram profundamente.

Veja, como dizem no CVV (Centro de Valorização da Vida), não importa quantas ligações você atendeu, quantas horas de cansaço, treinamento e dedicação, se você conseguiu salvar uma vida sequer, todo o esforço é recompensado. Procuro pensar da mesma forma, se o meu trabalho for capaz de fazer uma pessoa que seja pensar sobre algo em sua vida ou se sentir mais acolhida, então todo esforço valeu a pena. Felizmente, com a minha página de apoio emocional no Facebook, eu tenho certeza que ajudo muita gente. As mensagens de agradecimento são as mais recompensadoras.

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AC: No seu trabalho o quadrinho aparece como meio curativo e educacional (também para si mesma) e é algo diferente do que estamos acostumados nesse formato, o tipo de obra que ajuda não só a autora, mas um possível leitor que passe por situações semelhantes. Você já leu alguma obra que proporcionou esse tipo de empatia? Que ajudou (ou com a qual se identificou) em um momento difícil? Não precisa ser necessariamente quadrinhos.

Lorena: Toda forma de arte que vemos e nos faz sentir algo profundo, acredito que nos ajuda de alguma forma, nem que seja a nos sentir humanos ou de alguma forma compreendidos.

Acredito que a forma de arte que me fez sentir mais acolhida foi a música, especialmente do The Smiths e Morrissey. Havia no orkut uma comunidade chamada “Morrissey saved my life”, eu me identificava muito com esta frase e parece que muitas outras pessoas também, já que a comunidade tinha muitos integrantes, e eu podia ver que não era a única no mundo. Depois também alguns livros de literatura, como The Catcher in the rye e alguns livros do Oscar Wilde que fizeram me sentir entendida de uma forma única na minha adolescência, onde percebi que havia mais gente tão sarcástica quanto eu no mundo e com um senso de humor tão “maravilhoso”do meu ponto de vista. Como toda boa adolescente, eu me sentia profundamente diferente de qualquer ser humano existente. Em matéria de livros, gostei muito da Maitena quando a conheci, lá por volta dos 12 ou 13 anos, me lembro de ter pensado “Como essa mulher é genial e entende de ser humano”, também gosto das tirinhas do Lorenzo e Teresita do Liniers porque falam de relacionamentos….Bom, se tem alguém falando de forma poética sobre relacionamentos, não é seguro que eu adore, mas com certeza me interessa.

AC: O projeto também originou a exposição no Conjunto Nacional! Como acon
teceu o convite? Como foi a recepção das pessoas, recebeu algum tipo de retorno dos leitores?2017 - ASPAS_ABRE ASPAS

Lorena: Então, este projeto de exposições começou em 2014 na casa das Rosas e venho apresentando as artes em diversos formatos e montagens diferentes desde então. Esta exposição já foi montada no 42 salão de humor de Piracicaba e várias das pranchas expostas no conjunto nacional, inclusive, foram aproveitadas desta outra montagem. Também imprimimos mais algumas artes inéditas em relação as exposições anteriores, sendo esta do conjunto nacional a maior montagem que eu já fiz 🙂 Ficou lindo demais! Mas o mais legal de tudo era sentar lá no corredor e ver a reação das pessoas, tinha gente que ria, tirava foto, apontava, arrastava os amigos pra ver…. Causou muita comoção mesmo. Foi ótimo!

AC: Você já lançou trabalhos em livros didáticos, jornais, além do livro “Uma Llama no cinema”, como é trabalhar com propostas tão diferentes? o que é mais difícil, lidar com um projeto onde tem uma pauta preestabelecida ou desenhar a partir de projetos independentes?

Lorena: Realmente, eu faço qualquer coisa… Desenho realista, livro didático, jornal, revista, livro autoral, pagina no facebook, livro de literatura e por aí vai…cada um com um traço diferente. Acho que não seria feliz fazendo uma coisa só, mas posso dizer que o que eu mais amo é elaborar posts para a minha página de apoio emocional do face 😛 Também gosto de responder pras pessoas que me escrevem e estudar sobre auto ajuda e como ajudar mais os outros…. Reconheço que o trabalho que mais tem me cansado são os livros didáticos, é maçante, os prazos são sempre para ontem e tem que fazer os bonequinhos perfeitos… As vezes me sinto uma máquina, não tem grande parte de criação, não tem tanta liberdade como um projeto pessoal, onde faço o desenho que eu quiser e não precisa de aprovação de ninguém além da minha 😛

AC: Conta um pouco sobre o projeto “Uma lhama por dia”! ficamos curiosas com a temática divertida!

Lorena: Este projeto é originário de uma viagem que fiz para a Bolivia. Fui para o salar de Uyuni e na volta, em La Paz, queria comprar algum presente irreverente que tivesse a ver com lhama para um irmão meu que curte lhamas, no entanto, não achei nada muito original…queria algo meio hipster/pop. Sendo assim, pensei, quando eu voltar pro Brasil vou desenhar uma lhama matemática (já que el565394-600x600-1e é matemático) e assim comecei a postar algumas lhamas “fantasiadas”no meu face. As pessoas gostaram e começaram a pedir mais lhamas diferentes e eu criei a página “uma lhama por dia”, com o intuito de postar uma lhama por dia por 1 ano. Da página a Ed. Conrad me convidou a fazer um livro, mas inicialmente seriam as lhamas do cinema (vestidas de personagens do cinema) e depois faríamos mais, lhamas da musica, lhamas nos esportes… Por conta da situação do mercado, paramos neste livro numero 1 mesmo, mas a quantidade de ideias que eu tenho em relação a este personagem da lhama é enorme. Espero um dia poder retomar este projeto.

AC: Com o passar do tempo, notamos que cada vez mais as mulheres vem unindo força para expor seu projetos no mundo dos quadrinhos. Como você avalia esse meio? Ainda é muito difícil ser mulher e produzir arte?

Lorena: Sempre falo uma coisa que as vezes pode desagradar algumas mulheres. Defendo muito a sororidade, luto contra a violência contra a mulher e pelos direitos iguais, sempre. Mas no meu caso especifico eu nunca senti preconceito em relação ao meu trabalho… Eu sinceramente acredito que o preconceito profissional esteja muito mais ligado a situação financeira do que qualquer outra variável. Se você for uma mulher com uma boa situação financeira, acredito que não sofra muito preconceito (pelo menos eu não sofri), mas acredito que uma pessoa com a situação financeira e educacional prejudicada (embora não seja o meu caso, mas não me parece difícil perceber) sofra muito mais preconceito, o tempo inteiro e em qualquer situação.

AC: Você conta na descrição do projeto “Morrer de amor e continuar vivendo” que para criar a página teve forte influência do Mulheres que Amam Demais Anônimas e no Centro de Valorização da vida, espaços para o compartilhamento de histórias e apoio. Qual é a importância de artistas utilizarem a voz (e visibilidade) para falar de problemas como esse? A arte ajuda a curar?

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Capa do Facebook do projeto “Morrer de amor e continuar vivendo”

Lorena: Acredito, como disse, que a boa arte faz sentir e fazendo sentir, ajuda sim a curar. Acredito que o artista e em especial o desenhista (cartunista, chargista, “quadrinheiro”) , assim como os humoristas, por exemplo, tem um grande papel social, ou pelo menos deveriam ter, por terem a possibilidade de facilitar a comunicação de massa. Existem assuntos que são massantes ou complicados, mas tudo por meio do humor, de infográficos, documentários ou cinema, entre outras formas de arte, pode ficar muito mais palatável e até divertido. Acredito que este seja o caso da minha página. as páginas de ajuda psicológica ou sobre transtornos mentais, como a dependência emocional, costumam ter poucos seguidores pelos textos longos e pesados, termos técnicos ou jargões…Como eu não sou psicóloga, eu comecei a escrever de uma forma muito coloquial e acessível sobre a minha experiencia pessoal. Com o tempo fui falando de experiencias de outros e também estudando para fazendo posts um pouco mais técnicos, mas por mais informação técnica que eu queria passar, meus posts são quadrados, pequenos e ilustrados…sendo assim, não dá pra se aprofundar mesmo. A ideia da minha página é chamar a atenção para as emoções, a necessidade do auto desenvolvimento e dar alguma ideia do que é a dependência emocional e outros transtornos. A partir do momento que uma pessoa se identifica com algum transtorno, eu sempre recomendo que ela procure uma terapia ou grupo de apoio. Minha intenção não é tratar as pessoas, até porque não tenho formação para tal, mas eu posso ajudar uma mulher que está em um relacionamento abusivo a perceber que o seu relacionamento é abusivo e ir buscar uma ajuda adequada. Isto já me realiza.




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