Recortes!

O poder de um lápis apontado

Logo recorte

*Por Talita Guimarães

Naquela manhã eu não tinha a menor ideia do que ia acontecer. Óbvio que nunca sabemos de antemão, mas adentramos o dia na santa proteção das rotinas instituídas, que nos fazem crer garantirão que tudo seja sempre igual. 

RECORTE57

Arte: Talita Guimarães

Pois lá estava eu, sentadinha no antepenúltimo assento ao corredor do ônibus, tirando meu Antonio Prata da marmita para prosseguir com a leitura a partir da página marcada com um lápis quando o ônibus para na plataforma de embarque do Terminal de Integração Cohab/Cohatrac e toda a população da região se acotovela para vencer o funil da porta, subir os degraus e ir se encostar em pé em quem está sentado ao corredor. Quando uma alça de mochila chicoteia o ar à minha frente rapidamente peço para segurar o mochilão marrom da mocinha que tenta se segurar no encosto do meu assento. Nisso, uma figura masculina de trajes sociais se aproxima ameaçadoramente do lado direito do meu rosto. O infeliz nasceu alto, por isso sua braguilha está na altura dos meus óculos. 

Não é novidade que toda mulher que se locomove de transporte público passa por constrangimentos temerários em seus trajetos. Nem preciso citar aqui as encoxadas, esbarrões e passadas de mão a que estamos sempre sendo covardemente submetidas nos corredores selvagens de ônibus e metrôs de nossas cidades. 

Pois bem, embora o sujeito em questão estivesse aparentemente sendo
“apenas” empurrado para frente pelos passageiros que tentavamAspas_Recorte mais uma vez na história do transporte público bater o recorde de muitos corpos na mesma escada de um ônibus, não pude deixar de me incomodar. E digamos que criativamente reagir.
 

Livro aberto por cima das traquitanas no colo – minha bolsinha azul p
or cima da marmita atrás da mochila da moça em pé -um gesto simples me ocorreu com a arma que
 surpreendentemente sempre esteve à minha mão: um lápis apontado. 

A imagem é absolutamente simples, mas seu resultado abriu caminhos jamais abertos antes por lápis se não por folhas de papel. De lápis em punho na mão destra que segurava a lateral do livro, inverti sua posição, trazendo a ponta para cima, tal qual um Wolverine Curupira, em que as lanças nascem diametralment
e opostas aos dedos. 

Em questão de minutos, caberia uma pessoa entre meus óculos e a braguilha do moço, no espaço vazio que se abriu entre nós e assim permaneceu por toda a viagem. 

Não precisei de palavra, sequer levantar um olhar censor ao passageiro sobre os limites aceitáveis entre nós. O lápis apontado na sua direção disse tudo. 

Sempre soube que lápis são utensílios sensacionais, sobretudo quando servem ao intelecto e às artes. O que descobri naquela manhã, contudo foi que para além de item colecionável, prendedor de cabelo e marcador de página, um simples lápis apontado exerce também a poderosa função de demarcar limites territoriais: entre o meu corpo e o de quem tiver dificuldade em perceber que ele não é seu. 

Para Eva Braun, cujo traço é arma, voz e o poder de nunca estar só.


Perfil Talita

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