Abre Aspas

Matheus Brant: Do corpo e da alma

*Por Meiri Farias

Matheus Brant acredita na importância de ocupar espaços materiais para “povoá-los de vida e pensamento”. Para o artista mineiro, um dos fundadores do bloco “Me beija que eu sou pagodeiro”, o carnaval, por não ser um ato político “típico”, se mostra ainda mais subversivo. “Isso porque ele, efetivamente, subverte a lógica das coisas como são dadas em nossa sociedade, em nosso dia a dia”, explica citando exemplos de como a festa altera o que é considerado normal e cotidiano. “O bloco de rua se locomove na rua, local feito para carros e não gente. O bloco sai de um lugar e vai para outro sem qualquer sentido prático nisso e por ultimo, que ele é feito para pessoas dançar.”

Entre aquilo que vive dentro do mundo das ideias e os sentidos, Matheus lançou o disco “Assume que gosta” em 2016, totalmente conectado com esse tipo de sensualidade carnavalesca. “É como se agora eu sentisse necessidade de me reaproximar das coisas mais materiais, carnais, mundanas, por isso o pagode, por isso as letras sensualizadas, quentes”, explica citando os trabalhos anteriores: o disco “A semana” (2011) e o livro/disco “A música e o vazio no trabalho: reflexões jurídicas a partir de Hannah Arendt” (2014), que estão mais próximos do que chama de “coisas da alma, das ideias”.

Foto: Daniel Iglesias

Atualmente influenciado por ritmos latinos como Cumbia e Reggaeton, Matheus indica a festa “Mientras Dura”, que acontece em Belo Horizonte, como uma referência para seu próximo disco. O artista também planeja gravar um EP do bloco “Me beija que eu sou pagodeiro” ainda esse ano. Confira a entrevista completa!

Armazém de Cultura: Nossa sede é em São Paulo, mas acreditamos muito na necessidade de ampliar o acesso a música de todos os lugares do país. Conta um pouco sobre a cena de Minas! O que tem escutado e acha válido compartilhar? com o que trabalhos da produção local se identifica?

Matheus Brant: Tenho escutado muita Cumbia e Reggaeton, gêneros que vão nortear meu próximo disco. Aqui em BH, a festa “Mientras Dura” tem sido uma referência pra mim não só porque grande parte das músicas tocadas pelos DJs é desses estilos, mas também porque é um evento inserido no contexto de outros como “MASTERp la n o” em que coletivos de artistas que curtem música eletrônica underground promovem ações com arte urbana e ocupação de espaços públicos fazendo festas na rua. Falando em rua, também tenho ouvido as produções musicais dos blocos de rua de BH como o disco “Tropical Lacrador” do bloco Juventude Bronzeada. Este ano vamos gravar um EP do “Me Beija Que Eu Sou Pagodeiro”, bloco do qual sou um dos criadores e músico.

12662680_942189079151995_8805577641221243710_n

AC: Você lançou o disco “Assume que gosta” em 2016 e já tem um trabalho de 2011, “A Semana”. O que mudou na sua música nesse tempo? quais as principais diferenças que poderia apontar entre o primeiro e o segundo trabalho?

Matheus: Na verdade entre os dois, tem ainda o Livro/Disco: “A música e o vazio no trabalho: reflexões jurídicas a partir de Hannah Arendt” que lancei em 2014. Acho que depois de pensar, escrever e compor sobre coisas da alma, das ideias – como foi meu trabalho anterior – é como se agora eu sentisse necessidade de me reaproximar das coisas mais materiais, carnais, mundanas, por isso o pagode, por isso as letras sensualizadas, quentes. Por isso o carnaval, por isso “Assume que gosta e me beija que eu sou pagodeiro”. Há porém uma linha de continuidade entre todos esses trabalhos: o cuidado ao fazer a canção, letra e melodia. Às vezes demoro muito para chegar ao resultado final porque exijo de mim o que eu puder dar de melhor, sempre.

Ouça “Assume que gosta”:

AC: O disco foi lançado de forma independente, certo? Quais foram os principais desafios nesse processo?

Matheus: Fazer o disco chegar no ouvido das pessoas é o maior desafio de quem não possui uma gravadora ou empresário. Além disso, o fato de ter que cuidar de uma infinidade de coisas que não são próprias do processo criativo como por exemplo burocracias relativas à fabricação do CD ou mesmo o gerenciamento da carreira, do lançamento do disco (qual melhor data, local, banda, discurso, estratégia de marketing), faz com que se trabalhe muito e nem sempre com a melhor eficácia, afinal, não se é bom em tudo.

AC: Você foi fundador e violonista do grupo “Chapéu Panamá” e já participou de outras bandas. Quais são as principais diferenças (criativas e práticas) de criar coletivamente e de forma individual?

Matheus: Mesmo quando se está à frente de um trabalho individual, não é possível abrir mão de criar de forma coletiva. Toda a equipe que produziu o disco assim como a banda que me acompanha atuam coletivamente na criação do meu trabalho. A única diferença é que possuo mais liberdade para fazer escolhas estéticas.

AC: Você é um dos criadores do bloco “me beija que eu sou pagodeiro”, certo? O carnaval é bastante presente também no seu álbum “Assume que gosta” desde a estética até a vibe das canções. Nós temos vivenciado (aqui em SP, mas também no resto do país) importantes momentos no carnaval de rua (ainda com as ameaças de que diminua nos anos próximos), a realidade fica clara com uma frase proferida durante um bloco: “dançar é um ato político”. como você percebe essa necessidade de ocupação do espaço público?

Matheus: Li, recentemente, um texto do Julián Fuks que traduz muito bem o que tenho pensado sobre essa “necessidade de ocupação do espaço público”:
“Sou, como muitos, um refugiado em meu próprio país. Não me representam os homens que me governam, não me contemplam suas medidas retrógradas de suspensão de direitos, seu descaso com edifícios humanos, sua atenção exclusiva às torres envidraçadas do capital financeiro. Ocupar, nesse contexto de abusos institucionais tão freqüentes, parece ter se tornado um imperativo. Ocupar espaços materiais para tratar de reconstituir, insuficientemente, tudo de imaterial que nos tem sido destituído. Ocupar espaços diversos, escolas, institutos, prédios vazios, ocupar para povoá-los de vida e pensamento. Ocupar, talvez, para apenas estar ali, entre muitos, para recobrar alguma união em momento tão difícil.”

Acho que o carnaval de rua é mais uma dessas formas de ocupar espaços materiais para “povoá-los de vida e pensamento”, resgatando também um sentimento de “união”. Mas acho também que é um fenômeno que vai além disso, e realmente, essa frase “dançar é um ato político” dá pistas dessa dimensão ampliada. É que o carnaval de rua, pelo fato de não ser um ato político típico, sendo na verdade uma “festa” na rua, talvez seja mais ainda subversivo do que um ação política. Isso porque ele, efetivamente, subverte a lógica das coisas como são dadas em nossa sociedade, em nosso dia a dia. Pensemos que o bloco de rua se locomove na rua, local feito para carros e não gente; que o bloco sai de um lugar e vai para outro sem qualquer sentido prático nisso e por ultimo, que ele é feito para pessoas dançarem, gesto esse que, como bem diz Giorgio Agambem constitui “a libertação do corpo dos seus movimentos utilitários”:

“Em todas as festas de tipo carnavalesco, como as saturnais romanas, as relações sociais existentes são suspensas e invertidas: não só os escravos governam os seus patrões, mas a soberania é colocada nas mãos de um rei bufo (turnalicius princeps) que assume o lugar do rei legitimo, de modo que a festa se manifesta, primeiramente, como uma desativação dos valores e dos poderes vigentes. “Não há festa antiga sem dança”, escreve Luciano; mas o que é a dança senão a libertação do corpo dos seus movimentos utilitários, exibição dos gestos na sua pura inoperosidade? E o que são as máscaras, que intervêm de várias maneiras nas festas de muitos povos, senão antes de tudo uma neutralização do rosto” (“Uma fome de boi. Considerações sobre o sábado, a festa e a inoperosidade”. Giorgio Agambem, extraído do livro “Nudez”)”

Aliás, é essa natureza implicitamente política, mas explicitamente subversiva do carnaval de rua que tem despertado o incômodo de algumas pessoas motivando manifestações reacionárias como a que sofremos nosso bloco, o Me Beija Que Eu Sou Pagodeiro, e eu pessoalmente, neste último carnaval:

E são manifestações “reacionárias”, justamente porque “reagem” a essas ações que, reafirmando o sentido popular, público dos espaços comuns, sempre subvertendo a lógica dos atos e gestos cotidianos de “aparente” adequação social, acabam por trazerem à tona a pluralidade, a diferença própria da vida em comunidade e, o que talvez cause mais medo, a possibilidade de mudança, de inversão da ordem estabelecida porque “as relações sociais existentes são suspensas e invertidas: não só os escravos governam os seus patrões mas a soberania é colocada nas mãos de um rei bufo (turnalicius princeps) que assume o lugar do rei legitimo”.

Ouça o disco “Assume que gosta”:


Meiri Farias: Portfólio | Instagram | Twitter

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s