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Crônicas de um trajeto bairro-centro

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*Por Talita Guimarães

Sempre soube que um trajeto bairro-centro de ônibus transporta muitas histórias. Usuária de transporte coletivo, acumulo causos dos anos à bordo. Eis que na fatídica manhã em que percebi não saber o que é uma retífica, muitas coisas aconteceram além da minha crônica pessoal, que uma vez resolvida no texto mental que depois ganhou corpo e foi publicado aqui há duas semanas, cedeu espaço para que eu voltasse à rotina de mergulho nas crônicas de Antonio Prata com retornos à superfície para respirar as crônicas das pessoas ao meu redor naquele Maiobão – São Francisco L2.

recorte 58

Arte Talita Guimarães

Faz pouco comecei a assistir à série da HBO Game of Thrones. Rapidamente fui absorvida pela genialidade do épico baseado nas Crônicas de Gelo e Fogo do monstro sagrado George R. R. Martin. Eis que tal menção aqui se deve ao fato de que minha rápida identificação com sua ficção está intimamente ligada às relações que sua obra suscita diante da nossa não raro feroz, selvagem e letal realidade.

O aparentemente simples trajeto bairro-centro me faz pensar no épico de Martin porque é jornada e batalha também. Curioso notar como o imprevisível mora no trajeto previsto. Da poesia da moça que amarra o cabelo em um rabo de cavalo perfeito ao perigo do carro rangedor que quase explode ao nosso lado no semáforo.

Aproveito o lápis que carrego junto ao livro como marcador de página (gosto de sublinhar frases e interagir com o autor nas bordas) para ir tomando notas do que vejo no verso da penúltima folha do livro.

Fora os pensamentos soltos que me ocorrem para outros fins, a página em questão acaba acolhendo entre o Bequimão e o Terminal da Praia Grande pequenos recortes e breves tramas:

2017 - Aspas_Recorte 58

1) A moça amarrando seu longo rabo de cavalo castanho com uma precisão técnica admirável me faz pensar no quanto essa cena sempre me fisga onde quer que eu esteja. Como não sei pentear meu cabelo sem olhar no espelho sempre me impressiono com quem trança rápido as madeixas para trás; enrola o cabelo em um coque perfeito ou dá voltas no elástico do rabo de cavalo sem puxar fios ou deixar fofo embaixo no desafiador chacoalhar de um ônibus. O mesmo fascínio se aplica às mulheres que se maquiam em trânsito ou os estudantes que fazem cálculos no caminho para a escola.

2) Um carro rangedor que para ao nosso lado em um semáforo me chama atenção por representar uma espécie de metáfora da ousadia que é continuar ativo. Totalmente avariado com trincados no parabrisa, lataria descascada, capô amassado e um ronco ameaçador que me lembra resmungos mau humorados, a pick-up range balançando-se para frente e para trás como um carro de fórmula um prestes a largar. Percebo que as pessoas no carro ao lado dela também observam curiosas, na face a expressão de certa admiração me parece assomar-se tanto nelas quanto em mim, que curiosamente me identifico com a situação. Quem de nós já não foi para a rua aos trancos e barrancos, avariado por dentro e – às vezes por fora também – por ainda ter compromissos a honrar, missões a cumprir antes de uma derrocada final?

3) Mais adiante, um cheiro forte de borracha queimada invade minhas narinas. Olho para o rapaz ao meu lado em busca de alguma confirmação sobre o cheiro, mas ele está cochilando. Ao redor, ninguém demonstra incômodo. Franzo a testa e sigo fungando enquanto abaixo a cabeça a fim de verificar se é do assento alto – sobre os pneus – em que estou que o odor estaria subindo. Nada. Deixo para lá e volto ao livro.

4) O ônibus corre veloz pelo Renascença quando noto a aproximação perigosa de um Renault branco ao nosso lado. Faço careta achando que ele vai encostar em nós já prevendo o impacto, mas ele desacelera e fica para trás. Um alívio me toma, pensando no quão chato seria ter que interromper a viagem por conta de um acidente de trânsito.

5) Poucas paradas depois, o ônibus abre as portas para acolher passageiros de um outro que pregou. Penso curiosíssima “eita gente! que ônibus ‘cês tavam?”, mas não chego a verbalizar, pensando em seguida “nossa, quase que o nosso também batia ali em cima”.

6) Quando tudo parece GOT demais da conta, uma sequência fofa se desenrola entre a Ponte do São Francisco e o Terminal: depois que a pessoa ao meu lado cede seu lugar para uma senhorinha, a cadeira à janela na nossa frente vaga, de modo que a passageira recém acomodada ao meu lado faz sinal para que alguém vença o corredor e caminhe até ela. Vejo então um senhorzinho de passos lentos, provavelmente seu marido, que vem e senta no lugar indicado pela esposa. A cereja da fofura é posta quando ele se vira para ela e pergunta sobre onde devem descer e ela responde mansamente pontuando sua frase com algo entre “Bem” ou “Bento” que não consigo ouvir direito.

Sendo como for, os dois dão-se as mãos e preparam-se para desembarcar na Beira-Mar. Na folha amarela do final do livro do Prata, anoto: “casal de jovens idosos: bem ou bento”.


Perfil Talita

Talita Guimarães: Ensaios em Foco | Instagram | Twitter

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