Abre Aspas

O lugar e a história na literatura de Giovana Madalosso

*Por Meiri Farias

Os contos que originaram “A Teta Racional”, de Giovana Madalosso, carregam referências a sua própria história. “Acho que não existe nenhuma ficção que não parta de alguma experiência do autor”, reflete a escritora que lançou o livro pelo projeto “Temporada de Originais” da Editora Grua. Giovana conta que alguns contos são quase biográficos, como “A Paraguaia”, mas mesmo nos que são totalmente ficcionais como “Roleta-Russa” existem “lascas de experiencias e inquietações que já senti”, explica.

Curitibana, Giovana morou por um ano em Nova Iorque, depois se mudou para São Paulo, onde vive há dezessete anos. Sobre a influência do espaço físico, a escritora conta que é tem fascínio pela arquitetura e o pelo poder que os lugares têm de “aglutinar ou segregar as pessoas, de tornar uma existência melhor ou pior”. Em São Paulo, a quantidade e variedade de histórias é o que chama mais atenção. “Pela infinidade de possibilidades que abre para cada pessoa, ainda que também as isole de certa maneira”, conclui. Confira a entrevista completa!

Página da escritora

Armazém de Cultura: Para começar, poderia contar um pouco como foi o processo de escrever seu primeiro livro? Desde a necessidade de dizer as coisas que disse até a questão do meio por onde ele foi lançado.

Giovana Madalosso: A Teta Racional foi resultado de cerca de três anos de trabalho, durante os quais escrevi diversos contos. Desses, tirei os que considerei melhores. A Teta Racional é o nome de um dos contos, escolhido para batizar o livro porque fala do feminino e de uma ambiguidade que me perturba: sermos mulheres intelectualizadas, emancipadas em vários aspectos e, ao mesmo tempo, sermos um bicho que dá leite, refém de um relógio biológico implacável.

Uma vez pronto, mandei o livro para a Temporada de Originais da editora Grua. O título foi escolhido entre 240 outros para publicação. O que me deixou muito feliz.

AC: Quando falamos a respeito d”A teta racional”, comentamos nossa opinião pessoal sobre a aproximação e distanciamento com aquelas personagens ali narradas. Para você, como foi escrever essas histórias? Você acredita que tinha mais a falar de longe ou histórias muito próximas, até coisas que estavam dentro de você?

Arte da capa por Maribel Suarez

Giovana: Acho que não existe nenhuma ficção que não parta de alguma experiência do autor. Uma vez Philip Roth disse algo que achei interessante, que a experiência pessoal é um trampolim do qual o autor pula para criar suas histórias. Acho que podemos cair mais perto ou mais longe desse trampolim, mas sempre partimos dele. No caso dos contos de A Teta Racional, alguns são quase biográficos, como A Paraguaia, e outros totalmente ficcionais, como Roleta-russa. Mas mesmo nesse último existem lascas de experiências e inquietações que já senti.

AC: No seu livro você divide histórias de mulheres extremamente diferentes, quebrando estereótipos que estamos acostumadas a usarem contra a gente na arte. Você percebe a necessidade de ver mulheres escrevendo sobre mulheres, formando assim um lugar de menos julgamento e mais exposição de fatos? 

Giovana: Com certeza. Eu acho que precisamos de mais mulheres escrevendo, sendo publicadas, ganhando espaço na mídia e sendo lidas. Porque só uma ou duas dessas coisas, não adianta. Agora, não acho que mulheres devam escrever necessariamente sobre mulheres. Devemos escrever sobre o que sentimos, apenas. Todo resto será dito, mesmo que a gente nem intencione dizer.

AC: Por falar na dificuldade que a mulher ainda enfrenta – mesmo que menos do que já enfrentou -, você sentiu ou sente alguma hostilidade no seu espaço de escritora? Ainda mais por escrever justamente sobre mulheres, já sentiu algum tipo de resistência? 

Giovana: Acho que o que estamos vendo agora é um movimento contrário. O mercado editorial está sedento por mulheres. O mundo está falando de feminismo e o mercado editorial está correndo atrás de vozes que ecoem isso, muitas vezes de forma atabalhoada. É mais uma prova, ainda que invertida, de que temos um déficit de gênero a ser corrigido. Quando não precisarmos mais de nenhum tipo de esforço, quando as discussões literárias puderem pairar acima das questões de gênero, teremos chegado lá. Infelizmente, ainda está bem longe.

Confira a Dica de Segunda sobre “A Teta Racional”

AC: Você se formou em jornalismo e foi redatora durante bastante tempo numa agência publicitária, certo? Qual a diferença em escrever nesses formatos para os roteiros que faz para a TV e também da literatura? 

Giovana: Publicidade envolve criatividade mas não é arte. É preciso um outro tipo de fôlego para a escrita artística, para a literatura. De qualquer forma, a publicidade treinou o meu poder de concisão, algo que me ajuda na hora de escrever literatura. Já os roteiros de TV (dramaturgia) me ensinaram a organizar a narrativa através de cenas ou escaletas, uma técnica que importei para o feitio do romance.

AC: No conto “A paraguaia” do seu livro, a narradora deixa Curitiba e depois de um tempo estudando roteiro vem para São Paulo. Você nasceu em Curitiba também e atualmente mora em São Paulo, certo? Assim como a personagem (ainda que não nas mesmas medidas) você sentiu a diferença na forma de lidar consigo e com o que estava produzindo com a mudança de estado? O espaço físico afeta a forma com que você se inspira, e dessa forma produz?

Giovana: Sim, nasci em Curitiba, morei um ano em Nova Iorque, depois mudei-me para São Paulo, onde estou há dezessete anos. De alguma forma, todos esses lugares influenciaram a minha escrita, e o meu entorno seguirá sempre me influenciando, até porque escrevo textos que sempre envolvem uma certa ação, que não ficam apenas no subjetivo. Além disso, sou fascinada por cidades, por arquitetura, pelo poder que os espaços têm de aglutinar ou segregar as pessoas, de tornar uma existência melhor ou pior. São Paulo, por exemplo, me fascina pela quantidade de histórias concentradas por metro quadrado, pela infinidade de possibilidades que abre para cada pessoa, ainda que também as isole de certa maneira.

AC: Quais são seus planos agora? tem projetos literários em vista?

Giovana: Estou terminando um romance. E já tenho outro fervilhando na cabeça. (Está difícil dormir desse jeito rs)

AC: Para encerrar, poderia citar algumas mulheres artistas (dentre as diversas linguagens) que te influenciaram enquanto escrevia seu livro, e para realizar o seu trabalho de forma geral? 

Giovana: A poeta Angelica Freitas, a pensadora Judith Butler e a criatura PJ Harvey.


Meiri Farias: Portfólio | Instagram | Twitter

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s