Recortes!

Enquanto você segura minhas coisas

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*Por Talita Guimarães

Acho bonita a gentileza compartilhada por usuários de transporte coletivo de segurar os pertences de quem viaja em pé, quando você segue confortavelmente sentado. Sou adepta da prática e sorrio agradecida quando também beneficiada por ela.

Eis que diante do gesto gentil, algumas situações curiosas brotam do que acontece a seguir, enquanto nossas coisas chacoalham no colo de algum desconhecido.

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Arte: Talita Guimarães

Enquanto algumas pessoas são bastante cuidadosas e atentas aos pertences alheios, aparentemente, outras tantas parecem esquecer que o carregamento sob suas coxas não as pertencem de modo que seguem suas viagens ouvindo suas músicas nos fones, olhando pelas janelas, pensando na vida, conversando com a companhia ao lado, lendo seus livros, enfim existindo enquanto a vida não chega à sua parada. Ou à do outro.

Daí que já me peguei mais de uma vez na situação do desespero meio cômico que me aplaca quando em pé, vejo minhas coisas desequilibrarem do colo gentil rumo a uma janela escancarada ou simplesmente ao chão. Incontáveis vezes já levei a mão às alças de minhas bolsas/mochilas/marmitas num reflexo automático diante da possibilidade de uma queda indesejada.

Certa vez quase pedi de volta minha marmita, vendo-a flertar com a janela aberta do banco alto enquanto seu colo cochilava à sono solto, balançando-se de um lado para o outro, quase escapulindo para fora do ônibus. Hoje mesmo, precisei me esforçar para não rir enquanto monitorava atentamente o frágil equilíbrio da marmita no colo de um rapaz muito magro que sentado com as pernas afastadas e distraído com o próprio celular mal amparava minha bolsa quadrada que pendia mais para um lado do que para o outro, escorregando pela lateral de sua bermuda em um balé da quase queda em câmera lenta.

2017 - Aspas_Recorte 59

Na época da escola, por exemplo, não foram poucas as vezes em que pessoas de todas as idades e destinos seguraram minhas mochilas atochadas de livros do CEFET. À época, não era raro que as pessoas nos julgassem grandes estudantes devido ao peso do uniforme federal que vestíamos, por isso sempre apareciam colos dispostos a aconchegar minhas kargas de camelô cheias de edições de ensino médio volume único. Uma vez contudo, um garoto do Liceu teve a pachorra de cutucar os dentes com os barbantes dos bolsos de amarrar da minha mochila na minha frente. Entre o espanto com seu gesto distraído e a vontade de rir do ridículo da situação, limitei-me a cutucá-lo com um “ei, tira isso da boca!”, ao que ele mesmo se espantou que a mochila em questão não fosse a dele e se desculpou, rubro de vergonha.

Claro que o pacote segurar os pertences de um desconhecido no ônibus inclui o cuidado em monitorar se o celular do passageiro em pé vai tocar no interior desconhecido da bolsa em seu colo. De modo que raramente perdi uma ligação que minha mãe tenha me feito nesse entremeio graças às atenciosas senhoras e mocinhas que me avisaram “olha, o celular tá vibrando”.

Embora não seja coisa, mas coisinha fofa, há também os casos em que oferecemos colo às criancinhas que ficam em pé à bordo. Já segurei um bebê de fralda no colo por um longo trajeto na pura impossibilidade de ceder o lugar para a mãe também, uma vez que o ônibus estava tão cheio que não havia como eu me levantar e ela chegar até mim. A solução foi passar o bebê de mão em mão até meu colo desajeitado. Caso parecido, porém de desfecho trágico que me traumatizou um pouco quanto a tornar a pegar crianças no colo, foi o de uma bebê sem fralda que fez xixi na moça que a segurava, perto de mim, certa vez.

Também já soube de casos omissos vividos por conhecidos que relataram terem ficado acidentalmente com pastas ou sacolinhas de desconhecidos, que desceram sem lembrar de recolher suas coisas dos colos gentis. Eu mesma já fiquei sem querer com doces e folhetos de vendedores ambulantes embarcados e representantes dos Manassés da vida que distraídos ou desatentos desceram sem recolher tudo o que distribuíram. Mas isso já é assunto para outra crônica, talvez.

Por aqui, interessa apenas exaltar os colos gentis do caminho e torcer por interações saudáveis e de boa vontade nos ônibus de todo dia.


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Talita Guimarães: Ensaios em Foco | Instagram | Twitter

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