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Da raiva ao riso

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*Por Talita Guimarães

Pego ônibus cinco dias por semana. Um para ir, outro para voltar do trabalho. O trajeto é longo, pelo menos para os parâmetros ludovicenses. 30km. Daí que a(o) cara (o) leitora (o) que acompanha minhas tramas por cá pelo Armazém já deve ter notado que causos de ônibus não me faltam. De fato, muito se passa entre minha casa e meu destino. Por dentro e por fora de mim.

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Arte: Talita Guimarães

Embora quase sempre consiga viajar sentada lendo, devido meu expediente flexível estar milagrosamente encaixado fora dos horários de pico, passo raiva quando numa quinta-feira de fim de mês, às 8h53 pego meu ônibus de todo dia inesperadamente lotado. E ninguém se oferece para segurar minhas coisas. E o trânsito empaca na obra que reduziu a pista e desviou o tráfego por lamacento trecho. E a alça da marmita começa a cortar os dedos de uma mão enquanto a outra tenta segurar na disputadíssima barra de apoio. E com um tranco do ônibus sou lançada para frente e retorno com a graciosidade de um bonecão de Olinda.

Por mais zen que eu tente ser, lembrando que um ônibus cheio faz parte da vida e vai passar; o único pensamento que vence é “malditas pessoas que resolvem ir pro Centro no mesmo horário que eu!”. Não se assuste pessoa, se eu te lembrar que nunca disse que só tinha pensamentos legais. Sou humana. Ando de ônibus, logo estou propensa a passar raiva. E maldizer.

2017 - Aspas_Recorte 60

Acontece que nisso de se desengonçar na frente das pessoas, uma nobre alma humana, dentre tantas sentadas, repara em mim e num honroso gesto também humano profere sábias palavras – vejam só! – humanas: “quer que eu segure?”, apontando para a bolsa térmica que me corta os dedos. Magicamente um sorriso me ilumina a face, a raiva se dissipa e cede lugar a uma larga gratidão.

Quarenta minutos depois ainda estou no ônibus, mas já consegui sentar e recuperar o plano diário de ler em trânsito. Numa virada de página, levanto o rosto em direção ao banco alto e lá está uma criancinha me olhando e antes que eu desvie o olhar ela me abre o sorriso mais simpático que se pode ganhar de um desconhecido numa manhã de quinta-feira de fim de mês. Devolvo o sorriso com igual simpatia e nos fitamos por alguns minutos. Penso se ela não estaria me confundindo com alguém ou me achando engraçada, mas é piração desnecessária diante da alegria gratuita que a garotinha me fornece.

Quando alcançamos a ponte do São Francisco, o ônibus já vai mais vazio e então dedico minha atenção ao vento solar – “e estrelas do mar…” – que preenche o ônibus na travessia do Rio Anil. É quando reparo no lindo casal idoso sentado na outra cadeira alta, o senhor de cabelos grisalhos com o braço passado por trás da senhorinha de cabelos brancos que se aconchega em seu ombro enquanto ambos apreciam a vista. Fito-os com toda a ternura que meu coração recém-aquecido pelo sorriso infantil é capaz de reunir. Ambos negros, cabeleira alva, ela de rosa, ele de azul. A vontade que me dá é de cantarolar um Cícero, de máquina em punho: “fica bem aí, que essa luz comprida, ficou tão bonita em você daqui”.


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2 thoughts on “Da raiva ao riso

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