Dica de segunda

De onde eu te vejo

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*Por Beatriz Farias

É muito difícil encontrar alguém que não goste de janelas. Conheço uma pessoa que toda vez que estava de saco cheio do trabalho ia para o banheiro apreciar a vista da janela. Já outra amiga não consegue ficar muito tempo em um ambiente que não lhe permita avistar da janela uma possível rota de fuga para qualquer impasse. Veja bem, se você é claustrofóbica (o) aí está um tranquilizante. A janela. São pelas janelas de ônibus que centenas de seres humanos repousam suas cabeças e dormem tranquilamente o sono dos que estão sendo julgados ou admirados. Outras milhares de pessoas observam outras pessoas que estão observando a chuva cair, ou o celular, ou um livro que observa a observação de pessoas dentro de ônibus. Uma janela sozinha tem a função de proteger, iluminar ou decorar um lugar. Uma janela com alguém que observa atrás vira filme, vira texto, é ponto de vista. O importante é saber que atrás da moldura tem alguém que vê. De onde?

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“De onde eu te vejo” é um filme sobre janelas e questionamentos. Os personagens, Ana Lúcia (Denise Fraga) e Fábio (Domingos Montagner) são recém-separados e após vinte anos de casamento chega o momento de realizar a alteração física. Fábio está saindo de casa. A trama plenamente aceitável poderia se desenvolver aí, não fosse o fato de que o apartamento para o qual Fábio está se mudando fica do outro lado da rua. Janela com janela para o apartamento de Ana. A partir daí acompanhamos o desencadear do status de onde Ana e Fábio se veem: “casados” para “vizinhos” e como é possível contar uma “história de amor de um casal através de sua separação”. filmes_9090_de4
Com direção de Luiz Villaça e roteiro de Leonardo Moreira e Rafael Gomes, o longa comenta com precisão a instituição família e seus desdobramentos. Investigando as situações em que o casamento para de dar certo, a ideia da instituição falida é levantada em equilíbrio com a certeza de que família é mais que duas pessoas que resolveram assinar papeis. Os recém-vizinhos mantém o elo da filha Manu (Manoela Aliperti), que se reveza entre as janelas até o momento que precisa encontrar sua própria janela para estudar em outra cidade. E mais uma vez a mudança brutal de todas as coisas se instala ente aqueles dois apartamentos que agora carregam em comum uma saudade a mais.

Brincando com o absurdo de morar de frente para a pessoa que acabou de se separar, “De onde eu te vejo” é um canal para falar de saudade e sua não necessária relação com a distância. Se por um lado o fato da filha estar em uma janela distante serve de agravante, é explicada cartazpelos quilômetros de separação. O problema mesmo é a saudade que ainda mora no campo de visão, a ausência emocional de um amor que já não permite o mesmo tipo de permanência. Ainda que desemboque no cuidado posterior ao ressentimento, o fato é que o amor de fato não morre, vai mudando as tonalidades.

O espaço físico é outro fator essencial para a decifração do filme. Localizado em São Paulo, a cidade é assistida por meio do olhar de duas pessoas que vieram de fora. Ana é uma arquiteta carioca que encontra Fabio, jornalista que vem do interior, no momento em que ambos estão se mudando. A primeira cidade que os dois perdidos enxergam se dá em conjunto, ela querendo construir coisas bonitas e ele querendo descrevê-las, parece perfeito se não fosse o que todas as coisas são: passíveis as mudanças do tempo. E é aí que São Paulo também serve de ampulheta, indicando as rugas presente nos rostos por meio da demolição dos lugares preferidos daquelas pessoas que já não são as mesmas. A mescla entre tristeza e aceitamento do tempo não parecem opções, e sim a condição para seguir com paixão nas coisas já esquecidas.

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A trilha sonora composta simplesmente por violões é grande em ambientação. Equilibrando as buzinas, celulares e outros barulhos responsáveis pela personagem cidade, potencializa aqueles dois seres humanos desajustados com a modernidade. Tentando a todo momento se apegar a manias e superstições, na esperança de que oferecendo para o mundo alguma energia, as entregas sejam devolvidas com gratidão pelo universo.

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O cotidiano é contemplado pelo ócio e deslumbramento nas constantes relações entre mapas que Ana faz, já que os mesmos “apontam as coisas bonitas que já existem”. E e aí que “De onde eu te vejo” merece atenção na proposta inovadora de espaço ao que merece ser gargalhado. Tratando o riso como manifestação tão potente quanto o choro, demonstra que as duas formas de celebrar a emoção são grandiosas a sua maneira, o que importa mesmo é olhar para o dia a dia e ainda ser capaz de rir do amargo que nos acerca e chorar pela profundidade do que ainda pulsa calminho, como na percepção de Yolanda (personagem representada por Laura Cardoso) em determinado momento: “as vezes ser feliz é saber ficar quieto”.

Importante mencionar a não exatidão dos fatos presentes no filme, como quando Ana dialoga diretamente com a câmera. Como saber que signo resolve sim grandes dúvidas (aos céticos peço perdão), mas que o barato de aceitar ser transpassado pelo que está ao nosso redor é a surpresa. Como questionar o dia em que alguém nasceu e ouvir em resposta: “o dia em que eu conheci minha esposa” e entender que não tem mapa astral que explique o significado dessa explosão.

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Em determinado momento do longa, um senhor comenta que o melhor momento de sua vida são os primeiros segundos que se sucedem após ter assistido um filme no cinema e dar de cara com a rua, não com as lojas de um shopping qualquer. Terminando “De onde eu te vejo” ainda que em casa, experimento sensação parecida com a descrita pelo personagem representado por Juca de Oliveira. Os pés pisando rua e tudo que brilha e soca o estômago que não pode ser camuflado dentro de um shopping, mas que se fosse não teria a menor intensidade. De fato, “o que fica visível é o que dividimos, e não as linhas que nos dividem”.

Confira o trailer do filme “De onde eu te vejo”:


Perfil Bia

Beatriz Farias: Tumblr | Instagram

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