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No expresso metropolitano

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*Por Talita Guimarães

Foi entrar no ônibus para me arrepender, sentindo que havia sido mais uma vez traída pelo vidro fumê do expresso metropolitano, que escondeu a realidade de sua lotação. Caço dez centavos na bolsa para complementar a tarifa (R$ 3,10) do ônibus com ar-condicionado e me dirijo para perto da porta do meio, onde paro e sigo viagem em pé.

recorte 61.jpg

Arte: Talita Guimarães

Viajar em pé no retorno para casa está fora dos meus princípios de usuária de transporte coletivo, por isso fico boladíssima com a arapuca do vidro escuro, que sequer nos deixa ver o que se passa lá fora, refletindo minha cara chateada para o interior do ônibus. Trato de assistir então ao movimento interno e flagro a passageira sentada atrás de mim me lançando um entediado olhar de cima a baixo. Mentalmente me pergunto se estou suja ou rasgada atrás, mas tão rápido quanto a passageira se ocupa em olhar para outro, esqueço-a.

Felizmente, pego o ônibus no contrafluxo, por isso ao finalmente passar pelo Centro, a maioria da galera sentada desce, o que me permite ocupar um lugar à janela. Pura perda seria se eu não estivesse acompanhada das páginas finais de Trinta e Poucos, já calculando mentalmente a diminuição do ritmo de leitura pra fazer as crônicas renderem até em casa.

Desnecessária, a estratégia, pois logo embarcam dois artistas latinos pela porta do meio e toda a tensão da volta para casa se dissipa. Falando seu portunhol infantil, a dupla munida de violões e chapéu coco saúda os passageiros com um bom humor que para minha surpresa é correspondido a contento pelas pessoas à bordo. Pauso Antonio Prata para acompanhar a cena e logo estou alegremente envolvida pelos diálogos e cantoria.

61.jpg – Vocês estão bien?
– SIM!
– Vocês têm grana?
– NÃO!
– Enton nós temos duas cosas em comum! – sorri o mais cabeludo – Vocês querem ouvir a bamba ou a bamba?

Silêncio risonho (estudantes secundaristas garantem parte da interação, diga-se de passagem).

– Que pena, só temos a bamba! – e um, dô, trê… dedilhados ágeis dos violões conversam em sintonia com um vocal mais afinado do que eu poderia esperar (não que eu sempre tenha uma expectativa baixa, mas já precisei ouvir alguns mambembes embarcados com muita boa vontade, esforçando-me para não julgar mentalmente a desafinação alheia).

A questão primordial é que artistas mambembes como esses dois me fascinam pelo bom humor às 18h59, a afinação e sobretudo a entrega. Embora estrangeiros em meu país, creio-os os mais plenos sujeitos no mundo. Existência sorridente que anima as gentes em trânsito, enquanto todos estamos de passagem. E o que conta nesse caminho nem é de onde viemos ou para onde vamos, mas o quão lindo e sincero pode ser o sorriso que trocamos enquanto estamos juntos.⁠⁠⁠⁠


Perfil Talita
Talita Guimarães: Ensaios em Foco | Instagram | Twitter

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