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Nanocontos de Walter Kinder: personagens que vivem no caderno

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*Por Meiri Farias

Tenho uma confissão um pouco constrangedora: adoro ouvir conversa alheia. Não se trata de colocar um copo na parede para bisbilhotar a vida dos vizinhos (a propósito, não funciona) e sim de captar fragmentos de conversas anônimas pela cidade durante uma viagem de ônibus, uma fila ou esperando um café. Melhor ainda quando a pessoa está falando no telefone e não dá para saber a resposta do interlocutor, porque é aí que entra o exercício mirabolante de criar um personagem totalmente aleatório. No meu caso, a história dura uma ou duas estações, geralmente acabando quando desço na Vila Olímpia e, na maioria das vezes, o meu personagem se perde nas tarefas do dia. Não é o caso do Walter Kinder.

Com formação em Artes Plásticas, Walter criou o hábito de sempre andar com caderno e caneta na faculdade, onde o trabalho final foi completar um sketchbook com as vivências e observações do dia a dia. “Desde então passei a viver anotando ideias, escrevendo crônicas e letras de música e rabiscando tudo o que via pela frente”, conta o artista que desde 2005 passou a dar nomes e outras informações para as pessoas que observa e desenha. “Eu olhava para um sujeito no balcão e imaginava qual seria o seu nome, a sua profissão e a sua história.”

Os “nanocontos” são publicados no site do artista e na página do Facebook, sempre apresentando uma breve crônica visual. “Acabei encontrando no desenho um meio de trazer histórias embutidas em uma única imagem.”

Armazém de Cultura: Suas ilustrações fornecem poucas informações para o leitor, mas ao apresentar de forma breve um personagem marcante, deixa espaço para a imaginação do interlocutor completar a história. Como surgiu a ideia de começar esse projeto?

Walter Kinder: Posso considerar que o ponto de partida foi na faculdade de Artes Plásticas, em 1997, onde um professor de desenho me ensinou a andar com um caderninho e uma caneta para onde quer que eu fosse. Era o trabalho final para fechar o semestre: completar um sketchbook com as vivências e observações do dia a dia. Desde então passei a viver anotando ideias, escrevendo crônicas e letras de música e rabiscando tudo o que via pela frente. Fui completando vários desses cadernos com um conteúdo bem variado, até que em 2005, me dei conta que havia feito o primeiro caderno onde 90% dos personagens tinham nomes.

2017 - ASPAS_ABRE ASPAS WALTER KINDER

AC: Esse formato ou conceito foi algo espontâneo ou sempre planejou partir de personagem em relatos curtos?

Walter Kinder: Surgiu espontaneamente. De 2005 para cá, comecei a dar nomes e outras informações para as pessoas que eu observava e desenhava em incursões por bares nas madrugadas. Eu olhava para um sujeito no balcão e imaginava qual seria o seu nome, a sua profissão e a sua história. Essas pessoas anônimas com quem o meu olhar esbarrava foram se tornando apenas parte da pesquisa artística, isso é, algo que implicitamente dá suporte e estrutura a obra. Na verdade, os cadernos são as obras completas, onde cada página com desenhos e textos constroem o produto final. Esse produto não é um livro que conta uma história que tem começo, meio e fim, mas sim um apanhado de vidas aprisionadas naquele pequeno mundo que carrego comigo nos bolsos. Quando separo as imagens do conjunto, algumas vezes perdem força, mas de qualquer forma trazem histórias para quem tem imaginação.

Sempre escrevi crônicas, fosse pela urgência que eu tinha de me comunicar, ou porque a minha falta de foco sempre me impossibilitou a desenvolver grandes contos ou romances. Acabei encontrando no desenho um meio de trazer histórias embutidas em uma única imagem.

AC: Como surge a inspiração para os nanocontos? Já partiu de personagens reais ou sempre cria as histórias do nada?

Walter Kinder: Os personagens e as histórias costumam surgir de duas formas. A primeira é absolutamente do nada, quando desenho um personagem qualquer e depois “escuto” o que ele me conta. A outra, parte de uma frase que surge na minha cabeça e a traduzo em imagem.

A inspiração vem do meu hábito compulsivo e solitário de observação. Posso estar focado em uma atividade, mas o meu radar permanece ligado, capturando imagens e sons. Costumo me posicionar em um canto de um bar e discretamente capturar algo da vida dos outros. Tenho o hábito de ouvir diálogos e transcrevê-los alterando parte do conteúdo, me apropriando daquilo que pertence àquelas pessoas e conduzindo as histórias delas para o rumo que resolvo dar. Assim nascem esquetes bem humoradas ou trágicas, que alimentam muitos dos personagens ilustrados.

AC: As ilustrações também transitam de temas que passam do cômico ao dramático. Sobre o que mais gosta de desenhar? quais temas são mais difíceis de encontrar inspiração?

Walter Kinder: Não há um tema específico que eu goste mais, porque como não planejo o que vou desenhar, tudo simplesmente surge no papel. Os temas mais difíceis para encontrar inspiração são qualquer um que não tenha espontaneamente saído da minha cabeça, isso é, qualquer sugestão ou encomenda. Para fluir com naturalidade, preciso que o trabalho surja e se desenvolva totalmente dentro de mim, sem interferências externas.

AC: Tem planos de levar o trabalho da internet para o papel? já expôs ou gostaria de publicar um livros com as ilustrações?

Walter Kinder: Tenho mil planos para agrupar os desenhos em temas e lançar alguns livros. Como toda a minha produção é feita com canetas em papel – não são ilustrações digitais ou manipuladas no computador – penso que o lugar dela é dentro de um bom e velho livro tradicional. Há 8 anos planejo publicar um desses livros, mas acontece que sou um procrastinador muito eficiente. Para piorar, vivo um tanto enclausurado e nunca consegui orientações objetivas para concretizar esses planos. Imagino que por não fazer quadrinhos, tiras ou cartuns, isso é, não desenvolver um trabalho que se encaixe em uma definição, as coisas se tornam mais difíceis para o mercado editorial.

Infelizmente, nunca fiz uma exposição ou participei de feiras de publicações independentes. O meu trabalho sempre permaneceu nas gavetas e há alguns anos na internet. Espero em breve colocar os meus trabalhos em circulação em livrarias e outros espaços.

AC: Que artistas/trabalhos considera referência (ou influenciou direta ou indiretamente) para o seu trabalho? seja literalmente nas artes visuais ou em qualquer outra linguagem artística.

Walter Kinder: Tenho influências indiretas que contribuíram para despertar o senso crítico, dirigir o meu olhar e traduzir os meus sentimentos. Mais que o estilo do traço ou a forma de escrita, elas me deram base estética e conceitual para a construção do meu trabalho em todas as áreas que me aventuro (artes visuais, literatura e música). Entre essas influências, posso citar:

No desenho: Milo Manara, Guido Crepax, Robert Crumb, Daniel Clowes, Angeli, Fernando Gonsales, Lourenço Mutarelli.

Na literatura: Fernando Sabino, Rubem Fonseca, Nelson Rodrigues, Mario de Andrade, Jean-Paul Sartre e Albert Camus.

Na música, Nick Cave, Leonard Cohen, Tom Waits e Shane MacGowan.

No cinema: Ingmar Bergman, Werner Herzog e Wim Wenders.


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