Abre Aspas

Beliza Buzollo e o direito ao riso

Logo Abre Aspas

*Por Beatriz Farias e Meiri Farias

Você sabia que, segundo psicólogos e risoterapeutas (sim, você leu direito), o riso fortalece o coração? Pesquisas confirmam que quando rimos com vontade movimentamos 420 músculos presentes em nosso corpo, até mesmo os músculos do coração, que vibram com a ação. A contar que a ação aumenta o calibre dos vasos sanguíneos enquanto descansa os músculos arteriais, a ventilação respiratória alcança até quatro vezes mais seu limite habitual auxiliando na superação de problemas respiratórios. Se nenhuma dessas informações lhe surpreende ou simplesmente parece deslocada dentro da proposta do texto, é provável que por apenas alguns instantes o riso lhe tenha surgido torto entre o absurdo e a surpresa, podemos dizer que você está dentro das estatísticas.

Para além dos benefícios da saúde física, a importância do riso vem sendo altamente debatida para o desenvolvimento da sociedade, enquanto veículo de propagação de informações e reflexo de determinado contexto social. Ainda assim, muitos comediantes se destacam por levantar a bandeira de que a piada não levanta bandeira nenhuma. É o caso de “piadistas” como Danilo Gentili e Rafinhas Bastos, por exemplo, que no documentário “O Riso dos Outros” (Pedro Arantes, 2012) afirmam não serem formadores de opinião ao concordarem em seus argumentos o chavão: “é só uma piada”. O que os dois moços têm em comum além de serem homens héteros, brancos e cisgênero é que são reconhecidos por fazer piadas com pessoas que não cumprem com as quatro (dentre outras) alternativas assinaladas. O tipo de piada que surge da boca para fora, resultado do corpo, sem passar pelo pensamento.

Mas o humor pode subverter essa lógica. Quando não ri de cima para baixo. Senhoras e senhores, Beliza Buzollo.

11049524_1545761392382609_4947767714387560029_n

HUMOR E COTIDIANO

Beliza usa sua tira “Na Ponta da Língua” para falar de coisa séria com humor. A tira, publicada no Tumblr e no Facebook, traz situações que mulheres que amam mulheres passam com leveza e foco no cotidiano. “A gente passa por muita opressão, muita raiva o tempo todo e são poucas as vezes que a gente se vê representado de uma maneira feliz”, explica Beliza sobre a abordagem de suas tiras, refletindo a importância do direito ao riso para as minorias políticas. “É isso que eu gosto e trazer no meu trabalho, falar do dia a dia, mas com esse propósito de trazer felicidade”. A artista lembra o quão subrepresentadas as lésbicas são na ficção, muitas vezes passando por muito sofrimento ou morrendo no final.

Para Beliza, o humor é uma ferramenta muito eficiente na militância. “É uma forma de expressão muito viável e é fácil porque consegue identificar um extrato social”, explica, destacando como o humor já foi (e ainda é) usado para desmerecer as mulheres e naturalizar a falta de acesso a espaços comumente considerados “de homem”. O clássico “é só uma piada”. “Nunca é só uma piada. O humor está sempre carregado de um valor político.”

Ainda assim, mesmo nos espaços mais engajados existe uma espécie de restrição ao humor como ferramenta de militância, como alguns grupos feministas que não acreditam que a discussão gerada pelo humor seja “séria o suficiente” e que a via de protesto deve ser sempre pela academia. “Quanto a discussão acadêmica está chegando por aí?” Beliza insiste na necessidade aproximar as pessoas dos temas e como a facilidade de identificação por meio do humor facilita esse processo. “O humor é gostoso, é sensível. As vezes a pessoa ri e depois que ela vai pensar no porquê que ela riu. ”13699988_1640764422882305_1773579472222404689_n

Beliza sabe que o caminho é longo, mas enfatiza que é preciso discutir soluções e não apenas esmiuçar os problemas. “A gente sabe que a nossa luta é muito difícil, tanto a feminista, quanto a LGBT e que muitas vezes a gente não vai viver para ver os resultados do que a que a gente está lutando.” Para além de perspectivas utópicas, Beliza acredita que é necessário caminhar com passos pequenos e sólidos. “O acadêmico ele peca muito nisso, porque ele está muitas vezes tão à frente do seu próprio tempo, que ele só fica lá.” Uma militância que contemple as necessidades práticas, reais e atuais fica evidente em seu trabalho. Suas tiras são didáticas e, por meio do riso, carregam um valor educativo muito claro. “O humor fura bolhas. Ele é mais receptivo.”

CRIAÇÃO E ACESSO

Expor o trabalho na internet é sempre uma via de mão dupla. A velocidade em que o conteúdo é consumido evidencia sua perenidade. “Uma semana depois seu trabalho já está velho e bora pra próxima. O ciclo de notícias ele está cada vez mais rápido”. Beliza acha positivo ter esse tipo de feedback instantâneo, poder ter contato com meninas de todo o Brasil. Por outro lado, ela tem consciência de que a acessibilidade da internet ainda é limitada e não chega a todo mundo, como geralmente se pensa. No Brasil os dados e conexão ainda são limitados, segundo a edição mais recente do TIC Domicílios, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), revelou que 58% da população brasileira acessou a internet nos três meses anteriores ao levantamento, o que representa aproximadamente 100 milhões de internautas. (Leia mais aqui) “O acesso sempre vai ser elitista e o valor da tecnologia vai estar sempre um nível acima, as coisas vão escoando muito devagar”, completa.

2

O fato é que a internet realmente modificou significativamente os processos criativos e de divulgação de conteúdo. Iniciativas como blogs, mídias sociais ou mesmo plataformas de financiamento coletivo, possibilitam maior liberdade para o produtor. “É a mudança de poder. Quem vai escolher publicar agora, tem uma linha direta, você não tem mais aquele intermediário que é moralista pra caramba.” Beliza lembra como a preocupação com o lucro das editoras é um fator que determinava o que o público podia ler, mas agora há alternativas.

Ainda assim, ser artista no país não é fácil independente da ferramenta utilizada. “A gente está numa cultura aqui no Brasil que não valoriza a cultura e ponto. Vai ser a plataforma que for, não vai ser valorizada”. A dificuldade para o artista , desde a divulgação do conteúdo até a sua renumeração, faz com que seja necessário se desdobrar em outros trabalhos para conseguir o sustento.

QUEM É BELIZA?

17156100_10154126813306895_5717147944246947721_n

Foto:  Henrique Falci

Beliza Buzollo sempre desenhou, mas foi por volta dos dezessete, dezoito anos que começou a relacionar seu desenho ao trabalho “Isso em paralelo com minha descoberta, quando eu me descobri gostando de mulheres. Foi uma maneira que eu encontrei de me expressar, então fui tendo minhas vivências e experiências”, conta. O Na Ponta da Língua surge nesse contexto, a partir de conversas, piadas com amigas. Quando foi para o Facebook, Beliza percebeu como outras pessoas também precisavam desse tipo de conteúdo. “Quando você vê que existem pessoas querendo ver aquilo além das suas amigas na mesa de bar, tem algo muito importante acontecendo”.

Beliza destaca o cuidado necessário com o tipo de autoexposição que o trabalho proporciona, mesmo que seu trabalho não seja literalmente autobiográfico, carrega muitas experiências pessoais. “Então você tem que estar sempre preparado, você está muito acessível e o artista está muito mais vulnerável”. A artista destaca que as vezes é necessário certo “distanciamento”, especialmente quando algum conteúdo viraliza e gera muita discussão. “Eu penso ‘vou me distanciar emocionalmente, a mensagem que eu passei está ali naquele quadrinho e deixa a galera debater agora’.”

Natural de Uberaba – MG, Beliza atualmente mora em São Paulo e conta sobre como a cidade a afeta. “Tenho um carinho urbano pela cidade, porque São Paulo, toda diversidade que você tem aqui você não encontra em todos os lugares. Então é uma liberdade que é passada pelo quadrinho”, conta, lembrando como o contato com lésbicas e bissexuais diferente na cidade enriquece sua produção. “Toda a minha vivência aqui nessa cidade foi o que possibilitou o desabrochar desse projeto. Ele não seria o mesmo projeto em Uberaba. São Paulo te engole, para o bem e pro mal.”

A sobrecarga de estímulos que São Paulo proporciona, também tem seus lados negativos. “A gente tem que entender que a nossa cabeça tem que estar descansada para estabelecer relações de uma maneira mais tranquila. O ócio é importantíssimo para inspiração”. No caso de Beliza, a corrida ajudou muito. O “tédio” proporcionado pelo movimento contínuo despertava sua criatividade. “Então tinha um zilhão de ideias enquanto eu estava correndo porque já estava no automático e a cabeça ia. Se as pessoas se dedicassem um pouco mais a achar a corrida delas, parece muito papo de autoajuda, né? Mas é importante você cultivar o ócio.”

Com planos de publicar material físico em um futuro próximo, Beliza já lançou uma pequena coletânea de quadrinhos na Santos Comic Expo de forma independente, além de ter realizado uma ocupação artística em Uberaba, onde pode selecionar e imprimir suas tiras. No dia da inauguração da festa teve vários pinceis, um grande balão com a Nate, que é a personagem, falando o que era ser LGBT para você em três palavras e as pessoas iam escrevendo. “Ficou um mural lindo, com o slogan da ocupação que era ‘amar é para todos’”. Com uma reposta muito positiva do público, Beliza acredita que essa é outra forma válida de levar o trabalho para o público, já que proporciona outro tipo de envolvimento. “Você está literalmente imerso, está dentro do seu trabalho porque ele está em todas as paredes”, conta.13707698_1639248323033915_4845333697788474469_n

“O Na Ponta da Língua tem muitos desafios para enfrentar, para crescer. Tem muita coisa que não foi falada ainda, eu acho que tem muitos projetos futuros, ir conquistando devagar, com a intenção de estabelecer uma narrativa maior, desenvolver os personagens que eu acho que tem muito potencial. Aí também e aí eu acho que Vai dar para explorar mais as nuances, sem ser em temas tão ‘pílulas’ e levando uma ideia de cada vez cara, eu acho que a gente tem que fazer isso. Falar mais dos desafios que a militância lésbica ainda tem que enfrentar. ”

REPRESENTATIVIDADE

Dentro do convívio feminista e das críticas construtivas que recebe, Beliza percebe a necessidade de tratar corpos diversos com olhar para a representatividade entre garotas lésbicas e bissexuais. “Eu acho que a gente tá incluindo, não tá enfraquecendo nada, a ideia é falar da vivência de mulheres que gostam de mulheres, é isso.” A autora reconhece ainda a importância de conversar com pessoas com experiências das quais não tem acesso. Assuntos como a maternidade lésbica e outros temas que não chegam por meios tradicionais. “E é aquilo que eu falei da responsabilidade social de você fazer um trabalho, eu falo de lésbicas, bissexuais, mas eu não represento todas. E eu tenho que ter muita consciência disso”.

Quando se trata de críticas, Beliza reconhece a ambiguidade da problematização, que pode ser extremamente construtiva para continuar reavaliando seu trabalho. Embora esse “pisar de ovos” auxilie na qualidade e comprometimento do que é publicado, afirma que o fato de ficar tão hipervigilante com o próprio projeto as vezes a impede de publicá-lo.

Dentre os inúmeros tabus no qual ainda nos encaixotamos socialmente, o sexo se destaca pelo véu de pudor e hipocrisia que impede a circulação do conhecimento. Dessa forma, a dificuldade em tratar o assunto o coloca em um espectro higiênico e performático que além de não contemplar a realidade, direciona o olhar estereotipado para o corpo da mulher, que fica refém de vontades que talvez não sejam suas. Beliza joga um balde de água fria nas abordagens idealizadas quando propõe uma conversa direta sobre a veracidade desajeitadas das relações. “Eu quero trazer as coisas que são estranhas porque não se falam delas e que na verdade são naturais”. A artista explica ainda que a naturalização que propõe ao sexo se relaciona com a precisão de levar esse tipo de conhecimento para mulheres que querem transar com mulheres e só tem acesso a modelos heteronormativos ou produzidos para o consumo de homens. “É uma necessidade de uma conversa sincera, não formal. ”

tumblr_ob6qkd4ppu1rhhky9o1_1280

Dá pra rir sim, dá pra rir muito. O mundo não tá chato, Danillo Gentili, Rafinha Bastos, é só que vocês perderam a graça. Aliás pode entrar Beliza Buzollo e tantas outras com a mensagem na ponta da língua, mostrando que de fato vocês nunca tiveram.


Assinatura Beatriz

Beatriz Farias: Tumblr | Instagram
Perfil Meiri
 Meiri Farias: Portfólio | Instagram | Twitter

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s