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Joaquina

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*Por Talita Guimarães

Ela tem pele de sertão. A face marcada profundamente por caminhos de tempo. Linhas que se movem em todas as direções enquanto ela fala. E sorri. E xinga.

joaquina

Arte: Talita Guimarães

“Quando envelhecer quero ter um rosto como o dela”, pensei dando-me conta pela primeira vez que após o encantamento dos 25 anos com os primeiros fios brancos, chegara a vez de olhar com doçura para a beleza de um rosto enrugado.

A questão é que não era qualquer rosto. Era a expressão daquela mulher específica, que me chegou aos tropeços, apoiando as mãos revestidas de marcas senis no banco de madeira da praça em que eu sentada esperava meu ônibus.

Mudei de lugar para que ao contornar o banco tateando, ela pudesse sentar mais facilmente na ponta livre. E é quando ela solta um sonoro e cômico “porra!” que a encaro de frente pela primeira vez. Ainda não sei o que pensar sobre a pequenina senhora curvada que, resmungona, senta ao meu lado. E talvez a esquecesse caso ela não fosse o rio que de repente transborda e preenche o espaço entre nós.

“Teve que mexer pra esse lado e pra esse outro…”, ela começa fazendo movimentos com as mãos que indicam desconforto nas articulações dos pulsos e tornozelos. Deduzo que ela acabou de sair do posto de saúde do outro lado da rua, após fazer algum exame. “A senhora tava fazendo raio-x?”, a pergunta escapole de minha boca com um interesse que surpreende a mim mesma, enquanto minha voz se propaga no ar em direção à senhorinha, que agora me fita e sacode a cabeça confirmando.

O que se desenrola daí para frente é uma sequência extasiante de uma serena sabedoria, que tem tempo próprio de falar e calar, pensar sobre o que vai ser dito e compartilhar o que está sendo observado.

“Então eu disse que Deus dê muito conhecimento para esse menino, porque ô menino sabido. Eu disse mesmo pra ele, que Deus te dê coisas boas e ele riu. Porque eu gosto de desejar coisas boas para todo mundo”, diz-me a senhorinha de cabelos acinzjoaquinhaentados e vestido azul sobre sua interação com o técnico de raio-x que a atendeu. E complementa “Se alguém me faz um mal, eu também desejo coisa boa que é pra todo mundo ter paz”. A essa altura já estou inteiramente fisgada por sua presença. Dedico-lhe total atenção enquanto ela fala sobre a filha: “Ela cozinha muito bem. Faz uns bolos que a gente come um pedaço e é tão bom que a gente já fica querendo comer outro. Ela faz tudo. Não espera por ninguém. Sabe mexer nos canos.”, e me conta de como a filha entende também de encanamentos e manutenção da casa onde moram. Conta-me ainda do homem bom que a filha tomou por marido (“Ele gosta é da minha filha.”) e da netinha que mexe com desenvoltura no celular e tira selfies das duas (“Outro dia ela me chamou de vó chata. Falei volte aqui que mãe e vó a gente respeita. Não pode falar assim.”) e me olha enquanto as linhas de seu rosto desfazem o traçado da rigidez em ternura “Ela é teimoooosa. Mas às vezes é tão boazinha.”, e fecha os olhinhos enquanto adocica a voz para falar da criança que nasceu em 2010 e cuja idade contamos juntas nos dedos da mão.

Enquanto nosso ônibus demora, ela vai fazendo fluir seu rio vital pelo terreno seco da espera. Quando um silêncio se ergue enquanto ela pensa no que vai falar, fito-a enternecida por poder quase tocar seu tempo de ser. Então ela olha em frente e mira algo que não consigo ver. Enquanto varro a praça a nossa frente com o olhar ouço-a dizer “Olha lá, elas vem pertinho. São tão mansinhas”. Sem entender de quem ela está falando me pergunto se a senhorinha ao lado estaria por acaso vendo alguma aparição ou visagem, naquela praça deserta de município pequeno, margeada por igreja, escola, delegacia e posto de saúde.

É quando noto uma rolinha mínima, camuflada no chão esburacado de paralelepípedos quebrados, bebericando a água de uma poça. “É do passarinho que a senhora tá falando?” e ela confirma já emendando com um episódio sobre um ninho de rolinhas que caiu de uma árvore em seu quintal.

Um ônibus desponta ao longe e sua filha, que estivera há dois metros de nós conversando com outra pessoa, se aproxima para apoiar o caminhar lento da mãe. Por vontade de permanecer perto dela e também por respeito ao ritmo de seus passos, caminho devagar ao seu lado.

Embarcamos e percebo que vamos nos despedir ainda ali na parte da frente do ônibus, pois ela ocupa um assento preferencial antes da catraca. É quando, após trocar algumas palavras simpáticas com sua filha pergunto pelo nome de minha nova amiga. “Joaquina”, a filha responde.

“Tchau, Dona Joaquina! Foi um prazer.”, digo levando minha mão ao seu ombro. Sorrindo, ela a alcança ainda no ar e leva a costa de minha mão à sua boca para um beijo de benção, desses que os mais velhos distribuem como forma de nos proteger e guardar nossos caminhos.

Dirijo-me para um assento no meio do ônibus com uma descoberta em mente: quando pensar de novo na face da mãe Terra, já saberei qual rosto visualizar.


Assinatura Talita

Talita Guimarães: Ensaios em Foco | Instagram | Twitter

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