Dica de segunda

O meu nome é qualquer um

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*Por Beatriz Farias

Quem já esteve presente no momento do nascimento de bebê sabe quais são as primeiras perguntas involuntárias a respeito da matéria humana que acaba de chegar ao mundo. Após o famoso “é menino ou menina?” que batalhamos para tornar desimportante, o que vale a pena é o título. “Qual vai ser o nome da criança?” Porque é necessário registrar. O nome é tudo aquilo que serve para dar identidade a algo e facilitar nossa comunicação. O processo que funciona como agregador de dignidade e proximidade aos seres é também justificativa para a importância que nos damos. “Você sabe com quem você está falando? ” Diz a pessoa que tem certeza que seu nome pesa.

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Vivemos dias de ódio e intolerância que ultrapassam o nome Brasil e os muros que a cada dia são construídos para nos afastar física e emocionalmente. Colocar-se no lugar do outro é atividade bonita de usar em texto, mas incomoda quando exposta num cotidiano tumultuado que mais parece corrida de obstáculos. Um moço de nome Jesus, que revolucionou a história dizia algo sobre amar o outro como se ama a si mesmo, devia ser “dessa turma dos drogados” o coitado, porque nesse cenário curioso a possibilidade de aprender a viver junto incomoda. Estamos conectados, não próximos. Quem vai aceitar permear o nome, estar no outro? César Lacerda e Rômulo Fróes não respondem essa pergunta. Pelo contrário, os cantautores nos enchem de novas dúvidas a nos colocar em frente da linha que pode nos mover da zona de conforto. “Fui de quem chamou meu nome, e o meu nome é qualquer um”. Quem quer?

Lançado em 2016, o disco que poderia facilmente ser chamado de “estudos avançados a respeito da condição de homem” vem de presente no formato música. São treze faixas em que nos deslocamos da cordialidade para o que precisa ser dito. A impressão que dá é que não existe um excesso a mais ou a menos, todos bem agrupados no filtro da necessidade em pílulas de contemplação do caos e da calma. O que importa é o que não coube da música, virou questão e depois canção e depois coube todos os nomes na organização de qualquer um porque César e Rômulo aparentam fazer acordo com tudo que é móvel e permeável ao tempo.

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Foto: Luan Cardoso

“Meu nome é qualquer um” foi gravado com vozes formadas de (César) e um paulista (Rômulo), seus violões, pianos e instrumentos de cordas que acompanhadas de Rodrigo Campos, provocam a importância do mínimo. Com uma mescla de ritmos e influências que dançam entre tudo que já passou pelo Brasil e ainda virá, cabe dentro o espelho do interior de nossa aparência enquanto a cidade grande que embarcamos de dentro.

Curioso como o próprio formato extraído do encontro dos artistas alimenta a interpretação do disco. Bem como a definição do termo dualidade, que explica a existência de dois fenômenos diferentes dentro de um mesmo estado de coisas, a dupla revela o que de grande existe na partilha. O universo de dois nomes que depois de bem experimentados já não necessitam da classificação de opostos, mas complementos da beleza.

E aqui vamos nós na beleza do estranho, a beleza do ócio e a beleza do caos. “Flecha empenada”, segunda faixa do álbum, exemplifica o desconforto do que é belo pela quentura que exibe os tons de qualquer desejo que não passa do “medo de viver a sós” (a propósito, feliz dia dos namorados!). Ouça a canção com o clipe dirigido por José de Holanda e decida que gozo se obtém da vaidade.

Ainda embarcando nas diferenças adquiridas por tantos nomes, o disco que consegue trabalhar com a inocência épica, é produzido por meio de uma maturidade que a tanto não alimentava nossa identidade. Surpreendendo a atmosfera misteriosa que a todo segundo ultrapassa a beleza da beleza, nota-se a docilidade enquanto arma para tratar de cidades. Um disco bonito trabalha a cidade sem esquecer da docilidade ou impedir que a mesma deixe de lado o olhar calejado e espantado de um carnaval que não acaba e por isso ninguém mais se surpreende com a graça, afinal “nenhum cristo poderia nos salvar”.

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Quando se trata da paixão, a canção “Faz parar” reconstrói nosso olhar para o que seria falar de paixão com realidade. A graça da música estabelece o que desperta enquanto coloca as coisas no lugar, é impossível não sorrir largo com a declaração despida do refrão “eu não sei o que é morrer, eu só quero olhar”, é a beleza do que finca com a permanência do agora. Na mesma proporção, canções como “Transa qualquer um”, que já pode ser considerada um clássico da música contemporânea, sintetiza bem o disco por sua irreverente manifestação de leveza e potência.

Relembrando a grandiosidade das diferenças, o disco que parece feito para admirar com lerdeza boa tem todo o espaço para a inquietação. É impossível ouvir “A estatística” e não sentir a urgência de uma ação que precisa ser feita com agilidade e cuidado. O retrato bem fotografado da nossa sociedade é cruel enquanto cabe dentro desde tons pastéis até picos efervescentes até partículas preto e branco de uma afirmação do espaço. “Sou daqui, do chão desse lugar”, que grande a decisão de permanecer com a disposição de “quem coube em me inventar”. É o que afirma “Eu sou você” com a humildade de quem consegue se fazer tão feliz, fazer até chorar.

“O que faz o homem acreditar? Pra que serve o homem se não pra sonhar?” e de repente ser todos os outros é estar a sós dentro de si com a certeza que cabe. Se a gente procurar cabe sim os homens que sumiram dentro de nós. E por fim, a beleza de ter como única certeza a dúvida e resistência. A beleza permanece porque é necessária. E cantar é necessário.


Perfil Bia

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