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Gabi da Pele Preta: Mulher preta, nordestina, feminista e artista, resistindo

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*Por Meiri Farias

Arte é política? Gabi da Pele Preta diz que sim. “Isso é uma armadilha do próprio sistema capitalista que ataca por todas as esferas possíveis. A estratégia é fazer as pessoas esquecerem os problemas para serem mais felizes. Na verdade, a arte deve refletir sobre os problemas existentes para que haja uma transformação do sistema. A arte é política. ”

Gabi é afirmação, do nome que atende a forma que se descreve em sua página no Facebook: “mulher preta, nordestina, feminista e artista, resistindo.” Pernambucana de Caruaru, a artista acredita no poder subversivo e de resistência da música e em como os artistas podem colaborar na abertura de espaços para discussão. “Artistas têm o privilégio de estar sempre se comunicando com certo número de pessoas. É sempre um trabalho pensado para uma apreciação coletiva e por isso, pensar o trabalho politicamente é tão importante.”

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Armazém de Cultura: Na fanpage do Facebook você se descreve como “mulher preta, nordestina, feminista e artista, resistindo”. Nesse contexto de turbulência política e risco aos direitos adquiridos, qual é a importância dos artistas se posicionarem? 

Gabi da Pele Preta: Artistas têm o privilégio de estar sempre se comunicando com certo número de pessoas. É sempre um trabalho pensado para uma apreciação coletiva e por isso, pensar o trabalho politicamente é tão importante. Nina Simone disse que “é impossível ser artista e não refletir sua época”. O meu repertório sempre foi montado, desde o comecinho de tudo, tendo artistas que cumpriram esse papel social como referência.

A ditadura midiática tem um impacto muito forte no consumo de informação da população brasileira e uma das maneiras de furar este bloqueio é resistindo através da arte em seus diversos formatos. Através da arte a informação é transmitida de forma lúdica, mas engajadora. O Brasil já conhece bem essa história!

AC: Arte é política? É possível agir politicamente por meio da música?

Gabi: Para alguns, é o entretenimento por entretenimento. Para mim, isso é uma armadilha do próprio sistema capitalista que ataca por todas as esferas possíveis. A estratégia é fazer as pessoas esquecerem os problemas para serem mais felizes. Na verdade, a arte deve refletir sobre os problemas existentes para que haja uma transformação do sistema. A arte é política.

Ao passo que vemos um avanço do produto cultural como ferramenta de alienação, na contrapartida, artistas independentes tem-se posicionado para desconstruir discursos de opressão e privilégios. Eu me sinto feliz por poder presenciar e fortalecer este movimento.

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AC: Você gravou Elefante Sessions com artistas como Nina Oliveira e bandavoou. Como é esse intercambio com projetos diferentes? como isso influência a sua música?

Gabi: O intercâmbio acontece de várias formas, mas o mais importante é que, sempre entre artistas que se admiram, que são fãs mútuos e que se apoiam artisticamente e é incrível porque o público de um passa a ser o público do outro e assim, a gente consegue expandir os projetos e ampliar o nosso repertório quando as composições de um, passam a fazer parte do trabalho do outro. É um festejo motivado pela música e que evolui pra fortes parcerias e amizades duradouras.

Rodolfo Rodrigues que responde pelo Elefante Sessions, tornou-se um amigo querido, daqueles que não importa a distância, está sempre presente. Minha passagem pelo canal se deu através da indicação de Carlos Filho e PC Silva da bandavoou, conversei virtualmente com Rodolfo e na minha passagem por São Paulo, gravamos os primeiros vídeos. Numa vinda de Nina ao Nordeste, quando ela veio fazer uma turnê produzida por Rodolfo, ele promoveu o nosso encontro e hoje, tenho um orgulho grande de ser amiga dela que é um ser humano espetacular e uma cantora poderosa.

AC: A música “Disk Denúncia” fala sobre uma situação de violência contra a mulher. Poderia comentar um pouco sobre como essas temáticas de denuncia e resistência tem se tornado inspiração e material para a música de artistas em diversas linguagens?

Gabi: Desde sempre as minorias são silenciadas nos mais diversos aspectos e espaços.

Vemos isso no teatro e no cinema com a prática do black face que limava a participação dxs negrxs, provocando uma representação caricata e grotesca. Nos livros de história, sempre clareadxs e com traços afinados.

Ouça “Disk Denúncia”:

A própria história da humanidade retratada a partir da visão do colonizador homem, branco, hétero, cis e burguês. Na literatura, onde mulheres e pessoas negras tinham que assinar um pseudônimo para serem publicadxs e lidxs. As mulheres,as populações negra, indígena, LGBT e as pessoas com deficiência, seguem brigando pelo óbvio: o direito a vida, o direito de existir e respirar além da invisibilização que lhes é empurrada de goela à baixo.

Mas aí, vem a música e arte subversiva,de resistência, trazendo estes temas, estas pessoas para os espaços de discussão e de maneira interessantíma e necessária. E o mais importante, em primeira pessoa. As mulheres sempre retratadas de forma sexy, vulgar ou santificada, símbolo de amor ou objeto de ódio, hoje compõem as próprias canções denunciando o machismo, o racismo, a misoginia, a gordofobia, a xenofobia, o capitalismo selvagem. Estamos erguendo nossas próprias bandeiras, bandeiras de vida!

AC: Sua história com música começa muito cedo, cantando na igreja, certo? Como foi a transição para a música popular? Algum artista ou disco teve influência direta para o tipo de canção a qual se dedica hoje?

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Gabi: Na verdade, a transição se dá quando eu começo a fazer teatro em 2005 e surge um convite pra cantar num evento. Eu montei um repertório com uma trilha bem FM e de novelas e fui-me embora fazê-lo com o músico do espetáculo, Felipe Magoo, que acabou me acompanhando por sete anos.

A inspiração, na verdade, veio da minha mãe e do meu pai que foram um grande referencial de música na minha vida, como cantores e como ouvintes da boa música. O teatro e as rodas de poesia que aconteciam aqui em Caruaru foram construindo a minha bagagem musical. Das coisas que ouvia e ouço ainda hoje: Zé Ramalho, Gal Costa, Carlos Fernando, Chico Buarque, Luiz Gonzaga, Vinicius de Moraes, Toquinho, Dominguinhos, Gilberto Gil, Jorge Bem Jor, Elis Regina, Tom Zé, Edson Gomes, Itamar Assumpção, Jards Macalé… e a própria música tradicional das igrejas.

Hoje, priorizo ouvir as mulheres e o que elas têm para dizer sobre si mesmas, fugindo do papel silenciador que é o de musa inspiradora. As mulheres querem falar de si e não que falem sobre elas.

Larissa Luz, Lurdes da Luz, Nina Oliveira, Luiza Lian, Ava Rocha, Kátia de França, Amelinha e tantas outras, minha gente! Ouçam mais cantoras!!!


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