Questão de Opinião

Clarice Falcão: Casa Natura Musical – 22/06/2017

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*Por Beatriz e Meiri Farias

Clarice, suas letras não são chiques não tem tu, não têm pronome oblíquo, mas que mico. Quem que você quer impressionar, Clarice? Ninguém. E é aí que está o maior trunfo. Clarice Falcão não almeja impressionar ou convencer alguém.

A multiartista recifense, mas radicada no Rio de Janeiro, se apresentou na Casa Natura Musical no dia 22 de junho, trazendo seu disco mais recente “Problema Meu” (2016) entremeado por novas (e criativas) versões do primeiro trabalho “Monomania” (2013). Ao intercalar as canções antigas com as novas, Clarice criou uma atmosfera de diálogo interessante. As faixas de fofura “creeepy” do primeiro disco ganharam novas cores com a atmosfera libertadora e despreocupada de “Problema Meu”.

Em um momento em que todos querem falar demais, ensinar demais, afirmar demais, a busca por alternativas soa necessária e Clarice aparece para rir de tudo isso. Aquele riso que olha para o próprio umbigo, se aponta e a gente automaticamente se ofende, porque não estamos acostumados com a autocrítica sincera. A não ser ao tratarmos da falsa modéstia, quando alguém aparece dizendo com simplicidade o que no fundo, no fundo todo mundo acha. Parece afronta, né? E então criticar é bem mais fácil, porque a outra alternativa é se render e dançar um pouco ao som de algo tão bom que parece irônico. Clarice, que se tornou um alvo para todo tipo de comentário, dos maldosos aos reverentes, se afirma ao se desligar das expectativas. “Eu sou problema meu”, e não importa se você gosta dela ou não.

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Trazer esse show para a Casa Natura Musical  é bem significativo. Autointitulada “o novo endereço da música em São Paulo”, a casa é um roteiro interessante para apresentações disputadas de novos artistas como Clarice ou consagrados como Gal Costa, que também se apresentou na última semana. Localizada nas proximidades do Largo da Batata, na esquina das ruas dos Pinheiros com a rua Artur de Azevedo, o espaço ganha pontos com a bela ambientação, ambiente acolhedor e estrutura que garante bom som e visibilidade de qualquer localidade. O preço dos ingressos já não é tão acolhedor, na faixa de R$ 50 para cima, o que pode não parecer tão elevado se pensarmos em mega apresentações, tira a Casa da competição com outros espaços com line up semelhante como Auditório do Ibirapuera e SESCs em geral, que praticam uma tabela de preços bem inferior com o mesmo nível de qualidade.

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Ainda assim, é um universo que vale conhecer. No show de Clarice, a qualidade do som foi fundamental para valorizar a ótima banda que acompanha a cantora.  Em um dos pontos altos do show, Clarice soma militância ao humor para falar de um assunto sério. Quem não lembra do empoderadíssimo Crossfox da Stefhanie Absoluta? A Clarice lembrou e com graça e seriedade, entoou uma versão da música que levou a plateia ao riso (e a cantar junto, claro), mostrando mais uma vez, que as vezes para falar de coisa séria, o caminho é ir da maneira que se sentir mais à vontade. A artista, no caso, se saiu bem afirmando a verdade “daquelas que vieram antes dela”, como disse no palco, sendo Stefhanie ou as moças do Destiny’s Child, (com seu já tradicional cover de Survivor). Clarice faz entender que o que de fato importa é a certeza de que “agora eu sou demais”.

Contando com participação especial de Tim Bernardes, vocalista da banda paulistana O Terno, o show ganha graciosidade ainda maior com a dinâmica divertida dos dois artistas. Mesclando os talentos para dar nova roupagem ao dueto “Eu me lembro” de Clarice, cabe ainda a canção “Volta” (O Terno) e “Monomania” (Clarice), deixando a vontade comum de ver a parceria se repetir por mais algumas vezes.

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Foto: Yan Bordoni

Canções como “Capitão Gancho” e “Esqueci Você”, do primeiro disco, levantam o coro na plateia e criam uma sensação de nostalgia recente (A temática de Capitão Gancho sempre colabora com essa atmosfera). As divertidas “Como é que eu vou dizer que acabou”, “Irônico” e “Banho de piscina” convidam a dançar sem pensar no amanhã. Assim como “A volta do Mecenas”, composição de Matheus Torreão, uma das melhores canções do disco, que ganha uma versão viva e cheia de energia ao vivo.

O bis à capela vem em resposta ao coro da plateia que entoa “Oitavo Andar” e retoma o tema de empoderamento com “Survivor” de Destiny’s Child, levando uma plateia de alma lavada a cantar de mãos erguidas a certeza “I’am a Survivor”, tantas vezes abafada pela estrutura social do patriarcado. Para encerrar, a música autoral “Vagabunda” emenda o recado com o pesar de uma letra que nos faz repensar a relação de competitividade e rivalidade que é imposta para mulheres. Clarice retoma com coragem: “que eu sei a vagabunda que eu sou”. E agora, o que você vai dizer?

Clarice não dificulta para o ouvinte trabalhar para entender, mas faz pensar sim. Suas letras não são chiques, não tem tu, não tem pronome oblíquo. Que bom, Clarice.

 

**Agradecemos a Yan Bordoni pela autorização para o uso de suas imagens para ilustrar a matéria


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