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Lovelove6: Mulher e sexualidade em quadrinhos

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*Por Meiri Farias

Para Lovelove6, desenhar pode ser um ato político. “Muitos dos meus trabalhos tem tons políticos explícitos. Desenhar, dar espaço e protagonismo para corpos diversos é uma forma de militância”, Gabriela Masson, ou Lovelove6 como é mais conhecida, é autora de histórias em quadrinhos e ficou popular na internet publicando Garota Siririca, HQ sobre sexualidade que fala sobre masturbação feminina de forma natural e divertida.

Entre suas principais obras está a versão impressa de “Garota Siririca”, as zines “A Ética do Tesão na Pós-Modernidade“ vol.1 e 2 e sua participação na antologia “Topografias“. Lovelove6 acredita na importância de construir boas histórias com as quais todos possam se identificar. “O imaginário branco e racista dos homens está esgotado. Dessa mentalidade, que muitas mulheres também tem, só pode sair mais do mesmo.”

Com licenciatura em artes plásticas, a artista publica em formato impresso e digital desde 2013 como uma forma de “registrar e materializar meus verdadeiros sentimentos e perspectiva no mundo, não deixar ninguém falar por mim” e destaca a contribuição da formação acadêmica na sua produção. “Receber críticas, fazer críticas, ser autocrítica, saber ler uma imagem para além do óbvio que ela representa.”

Confira a entrevista completa!

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Armazém de Cultura: Mesmo que desenhando desde pequena, você começou de fato a fazer quadrinhos em 2013, certo? Poderia contar melhor sobre como surgiu essa necessidade de botar o seu trabalho no mundo?

Lovelove6: Em 2013 eu estava bastante deprimida, ostracizada pela galera com quem eu andava na época e muito silenciada por um ex-companheiro. Como eu me sentia bastante isolada e desamparada, comecei a publicar alguns quadrinhos em formato de zine, como uma forma de registrar e materializar meus verdadeiros sentimentos e perspectiva no mundo, não deixar ninguém falar por mim.

AC: Essa pergunta você deve escutar com frequência, mas porque Lovelove6?

Lovelove6: Sim, já respondi essa pergunta em praticamente todas as entrevistas que publicam sobre o meu trabalho. É um nickname que comecei usando na internet, em chats e contas de redes sociais, até que passei a assinar meus trabalhos como Lovelove6 também. Dá época em que as pessoas se divertiam com apelidos e ninguém era obrigada a fornecer números de celular ou sobrenomes reais para as redes sociais.

AC: Você cursa licenciatura em artes plásticas, certo? Você identifica contribuições práticas do universo acadêmico na produção dos seus quadrinhos? E como é a recepção do seu trabalho nesse ambiente?

Lovelove6: Me formei no ano passado. Sem dúvida a formação acadêmica me proporcionou oportunidades para desenvolver minhas habilidades de desenho e especialmente minha capacidade crítica. Receber críticas, fazer críticas, ser autocrítica, saber ler uma imagem para além do óbvio que ela representa, identificar e analisar a coerência de uma obra, ter uma boa noção das histórias e tradições de representação plástica e visual de diversos temas. São conhecimentos importantes que acredito fazem a diferença na minha produção.

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Os cursos de artes visuais e plásticas tem bastante resistência em acolher temas de histórias em quadrinhos e reconhecê-los como uma expressão artística legítima. Isso acontece porque a ideologia normativa das universidades ainda tem uma compreensão muito elitista do que é a arte. Em geral temas de quadrinhos são melhor contemplados na área de comunicação.

AC: Falar sobre sexo na arte sempre gera uma surpresa, mulher falando sobre sexo ainda aparece como a quebra de um tabu, mas falar sobre masturbação e prazer feminino traz ainda outra ótica sobre o tema. Como foi a recepção das pessoas quando começou a publicar “Garota Siririca”? E atualmente, que tipo de retorno recebe dos leitores?

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Lovelove6: A recepção foi ótima, na verdade. Quando comecei a Garota Siririca, eu estava inserida num círculo social jovem, mais ou menos politizado, mais ou menos familiarizado com o movimento feminista e LGBTQ, também entre pessoas muito interessadas em produzir histórias em quadrinhos. Então essas pessoas que foram as primeiras a conhecer a Garota Siririca e suas amigas e amigas de amigas, compreenderam a proposta. A Garota Siririca está numa pausa há mais de um ano, mas ainda recebo algumas mensagens carinhosas de leitoras, relatando o efeito da história em quadrinhos em suas vidas.

AC: Ainda antes de virar livro, os episódios de “Garota Sirica” foram publicados no formato virtual da Revista Samba. Como foi o processo de transformar em livro físico?

Lovelove6: Foi bem estressante e trabalhoso transformar a Garota Siririca num livro impresso. Quando comecei a publicar a história, não tinha pretensão de imprimir um livro, então os formatos dos arquivos de imagem variaram bastante durante o período de publicação virtual da série. As cores foram o mais complicado de adaptar do meio virtual para o impresso, porque desde o começo usei cores especiais que só funcionam no computador, como um verde quase neon. A paleta de cores das histórias publicadas no ambiente digital é muito difícil e cara de ser reproduzida fielmente em formato impresso. Ao longo das duas edições do livro eu fui acertando a cor e tentando aproximar o máximo possível do original. Também precisei contar com a ajuda do Lucas Gehre, quadrinista e designer gráfico, que me emprestou suas habilidades de diagramação e fechamento de arquivos para impressão.

AC: “Garota siririca” foi viabilizado através de uma campanha de financiamento coletivo no Catarse. Como foi a sua experiência com esse formato de publicação?  Qual são as principais vantagens e desvantagens de utilizar esse tipo de ferramenta para publicar quadrinhos?

Lovelove6: Foi bastante estressante, mas muito importante, realizar o financiamento coletivo. Sem ele eu não teria arrecadado o dinheiro necessário para publicar a Garota Siririca, sendo que com a administração dessa primeira grana eu também consegui publicar outras coisas depois. A maior vantagem realmente é que essas plataformas parecem confiáveis e dão um senso de legitimidade para o público, o que é um fator poderoso pra rapidez e eficácia da arrecadação de dinheiro. Mas é só isso. O trabalho de divulgação do projeto é todo da autora, assim como a produção de recompensas (que pode ser uma cilada, se mal planejadas), a produção da obra referente ao projeto, os envios, enfim, toda a pré e pós-produção. A taxa dessas plataformas também é muito alta, elas ficam em média com 13% do que a autora consegue arrecadar no total, algo que eu acredito que devia ser revisto. Me incomoda que ganhem tanto dinheiro sendo que tem tão pouco envolvimento nos projetos. Infelizmente esse serviço ainda não é regulamentado no Brasil e é melhor do que nada.

AC: O mercado de quadrinhos mainstream sempre foi dominado por representações estereotipadas do corpo da mulher, parte de um imaginário masculino totalmente desconectado com a realidade. É uma forma de militância, resistência, trazer corpos mais próximos da realidade? Seja pelo tema ou pelas características estéticas, você considera seu trabalho político?

Lovelove6: Muitos dos meus trabalhos tem tons políticos explícitos. Desenhar, dar espaço e protagonismo para corpos diversos é uma forma de militância, mas também é um meio de se construir uma boa história, uma história com que todo mundo além dos meninos brancos possa se identificar e se relacionar. O imaginário branco e racista dos homens está esgotado. Dessa mentalidade, que muitas mulheres também tem, só pode sair mais do mesmo.

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AC: Qual é a sua avaliação da produção independente de quadrinhos por mulheres? O mercado está mais receptivo ou ainda é muito difícil?

Lovelove6: Desde 2013 aqui no Brasil alguns nomes de autoras se consolidaram, mas eu esperava que fossem mais neste momento. As oportunidades são muito escassas e concentradas no eixo Rio de Janeiro – São Paulo, em geral a galera lá resiste fortemente em abrir a roda quando o poderiam fazer. Entre nós autoras, que estamos pouco dispostas a pagar pau para o pequenino “mainstream” dos quadrinhos autorais brasileiros, tentamos criar redes de apoio, mas as distâncias geográficas entre nós dificultam uma produção conjunta mais elaborada ou um apoio cotidiano presente. Muitas jovens autoras desanimam, seja por motivos econômicos ou pelos estresses que o social desse meio profissional causa (o machismo é intenso entre alguns grupos). As grandes editoras e boa parte das editoras menores continuam nos ignorando e privilegiando os jovens autores homens. Eu e as colegas autoras estamos frequentemente inventando nossas próprias oportunidades e tentando compartilha-las entre nós. Por outro lado, me dá mais esperança e me anima ver que há muitas jovens produzindo quadrinhos na internet e arrecadando centenas de milhares de “seguidores”, que ainda não tem uma perspectiva econômica e profissional do trabalho que fazem, como a Lana, do Mundo meio Roxo e a Iara Naika.

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AC: Você já trabalhou com publicações em jornais, revistas e em plataformas digitais como o Facebook, Tumblr, entre outros. Para você, qual é a principal diferença entre transitar no meio físico e digital? Você tem alguma preferência de plataforma para ver seu trabalho publicado?

Lovelove6: O impresso chega em lugares que o digital não alcança, assim como o contrário também acontece. É mais fácil ganhar dinheiro com o trabalho impresso do que com o trabalho digital. Atualmente tenho usado bastante o Instagram, mas acredito que ter portfólio num site próprio, como o meu www.lovelove6.com, é fundamental para artistas.

AC: Quais são seus próximo passos, tem lançamentos ou novos projetos para breve?

Lovelove6: Nesse momento estou terminando o roteiro da nova série da Garota Siririca, elaborando um roteiro para uma história em quadrinhos da Xoxola (amiga da Garota Siririca) com a escritora Jarid Arraes e tramando outras coisinhas. Tenho uma produção mais ou menos constante que eu publico sempre no site Lovelove6 e na minha conta do instagram @odiozinho.

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“Sonhei com quando vivíamos sobre as árvores”. Publicada originalmente na antologia Topografias (2016, selo Piqui). Confira a história completa na site

AC: É importante para o Armazém trazer trabalhos novos e explorar todo tipo de temática possível, então gostaríamos de saber o que têm lido de quadrinho nos últimos tempos! Especialmente trabalho produzido por mulheres!

Lovelove6: Eu estou bem fã da Laura Lannes e da Aline Lemos nesse momento, elas estão produzindo bastante e tem lançamentos em vista. A Beliza Buzollo e a chilena Victoria Rubio estão produzindo séries de quadrinhos lésbicos muito bons, Na Ponta da Língua e Lesbilais, respectivamente. Sou fã da Paula Puiupo, também, que tem publicado em suas redes sociais uns fragmentos que eu espero pertençam a alguma publicação futura. Estou acompanhando e ainda vou participar do projeto Melaço, da autora Lita Hayata. Além delas, tenho acompanhado o trabalho das jovens autoras Clara Wagner, Raquel Vitorelo, Mariana Sales.

Artes que ilustram a matéria: Lovelove6


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