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Mary Cagnin: “Acredito que conhecimento deve ser compartilhado”

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*Por Meiri Farias

Para Mary Cagnin, a formação é uma parte importante de seu trabalho. “Produzo esse tipo de conteúdo, porque acredito que conhecimento deve ser compartilhado”, explica a artista que mantem um canal no YouTube onde posta o processo do seu trabalho, materiais utilizados e também dicas e conselhos importantes para quem está começando. Como neste vídeo, onde fala sobre registro de obras e direito autoral. Mary também ministra cursos e workshops, onde apresenta suas técnicas de pintura.

“Quando comecei, não tinha ninguém para me aconselhar, ou indicar um caminho. Então sempre fiz tudo por conta, na coragem e na ousadia. Se diziam que não era possível, eu fazia se tornar possível”, conta Mary, que estudou Artes Visuais na Unesp e hoje atua como ilustradora e quadrinista. “Mas eu gostaria que alguém tivesse me dito uma palavra ou duas de encorajamento naquela época, para que eu não me sentisse tão perdida. ”

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Além de ilustrações para livros, revistas e jornais, Mary é autora do quadrinho Vidas Imperfeitas, publicado pela editora HQM, e de Black Silence, que foi publicado de forma independente. O último a fez ganhar o Troféu Angelo Agostini de Melhor Desenhista em 2017. Confira a entrevista completa!

Armazém de Cultura: No seu site você comenta sobre como o romance é um tema recorrente no seu trabalho e os planos para o projeto “Lovers”, que você pretende lançar na CCXP e FIQ. O que você pode contar para a gente? Quais são as ideias para a publicação?

Mary Cagnin: Lovers é um projeto que venho desenvolvendo há algum tempo, mesmo que não tenha sido sempre de forma consciente. Como eu tinha muito material dentro dessa temática, achei que seria uma boa ideia compilar os meus melhores trabalhos num artbook, que também contará com algumas artes exclusivas. O projeto irá para financiamento coletivo no Catarse até o final de julho.

Teaser da campanha de financiamento coletivo que será lançado no fim de julho:

AC: Por falar de CCXP e FIQ, eventos como esse tem apresentado grande importância para a exposição do trabalho de quadrinistas do país. Como percebe a recepção das pessoas nesses espaços, onde podem acompanhar intensamente (e de perto) a produção dos artistas?

Mary: A recepção tem melhorado bastante ao longo dos últimos anos, principalmente com a chegada da CCXP, que mudou um pouco a forma como o público consome material nacional e/ou independente. Sinto que ao mesmo tempo, a produção nacional tem melhorado muito a qualidade e se profissionalizado, então imagino que isso também tenha contribuído para receptividade do que é produzido. Ainda temos um longo caminho pela frente no quesito consolidação do mercado nacional, mas já vejo essa mudança acontecendo.

AC: Você foi a primeira mulher a ganhar o Prêmio Angelo Agostini com a sua HQ “Black Silence”. Você sempre se interessou por ficção científica? Como surgiu a ideia para a temática da HQ?

Mary: Nunca me considerei uma fã assídua de sci-fi, apesar de sempre ter tido interesse pelo tema, principalmente por produções como Alien, Star Trek, Blade Runner, Battlestar Galactica, e os recentes Interestelar e A Chegada. A experiência de produzir meu próprio quadrinho dentro desse gênero com certeza mudou minha visão e eu tenho consumido sci-fi de forma mais consciente.

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AC: Ainda sobre o Prêmio Angelo Agostini, como foi tê-lo recebido, e qual é a importância desse tipo de reconhecimento na produção do seu trabalho?

Mary: Foi uma honra muito grande para mim poder representar as mulheres quadrinistas do Brasil ao receber esse prêmio, principalmente sendo a primeira mulher a ganhar na categoria de Melhor Desenhista. Espero que com isso eu possa inspirar cada vez mais meninas e mulheres a correr atrás de seu sonho de produzir quadrinhos, e mostrar que é sim possível.

AC: Você foi uma das convidadas para participar da exposição Donas da Rua, organizada pela Maurício de Souza. Gostaríamos de saber como você avalia a quantas andam a ocupação dos espaços artísticos pelas mulheres. Você acha que está mais fácil ser a “dona da sua própria rua”?

Mary: Não sei se está mais fácil, mas as mulheres têm lutado pra ter mais espaço dentro do mercado. São ações como essa que parecem pequenas, mas podem ter um impacto muito grande na vida de uma pessoa. A ocupação ainda não é ideal, mas estamos no caminho, e fico feliz por poder contribuir e fazer parte disso tudo.

Processo de trabalho para a participação na exposição “Doas da Rua”:

AC: Você trabalha bastante com o compartilhamento de conteúdo, seja pelo canal no YouTube, pelos cursos que ministra, ou pelos trabalhos que vem realizando. Para você, como são esses momentos e qual é a importância de ter ferramentas de formação ricas em trocas e partilhas de experiências, para pessoas que querem trabalhar com quadrinhos?

Mary: Acho essencial, principalmente essa troca de experiência com quem está começando. Quando comecei, não tinha ninguém para me aconselhar, ou indicar um caminho, então sempre fiz tudo por conta, na coragem e na ousadia. Se diziam que não era possível, eu fazia se tornar possível. Mas eu gostaria que alguém tivesse me dito uma palavra ou duas de encorajamento naquela época, para que eu não me sentisse tão perdida. Então é por isso que eu produzo esse tipo de conteúdo, porque acredito que conhecimento deve ser compartilhado.

AC: Um dos cursos que você ministrou, no Sesc Campinas tinha relação com o quadrinho físico e digital, certo? Como funciona seu processo de trabalho? 

Mary: No meu trabalho, o computador é uma ferramenta. No curso, eu queria que os alunos entendessem isso, que tanto o digital quanto os materiais tradicionais são ferramentas do quadrinistas, e que não devemos nos limitar por elas. O foco mesmo foi no processo de criação de quadrinho, e a ideia era que o aluno passasse por todas as etapas de produção e começasse a pensar criticamente e a produzir de forma consciente. Claro que durante todas as aulas eu os auxiliei, cada um com seu projeto, e foi uma experiência incrível poder conferir o que cada um produziu no final.

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AC: Você já publicou livro por meio de editora e livro independente. Quais são as diferenças, vantagens e desafios de cada alternativa?

Mary: Hoje prefiro produzir de forma independente, mesmo porque foi assim que eu comecei. Minha experiência com editora não foi das melhores, mas não vou generalizar, porque conheço muitos autores que tiveram experiências boas. As vantagens da editora são o alcance, a distribuição e o agenciamento dos artistas, afinal fica por responsabilidade deles colocar o artista em eventos, palestras e fazer divulgação da obra. Quando se é independente, é preciso fazer tudo sozinho e dá bastante trabalho, mas por outro lado, tenho total controle do resultado final.

AC: Conhecemos melhor o seu trabalho no evento Lady’s Comics, onde os projetos de várias mulheres foram expostos. Para encerrar, gostaríamos de saber que mulheres tem inspirado você na arte, seja no meio dos quadrinhos quanto em outras linguagens.

Mary: Acompanho sempre as artistas Fiona Staples, Becky Cloonan, Noelle Stevenson, e as brasileiras Bianca Pinheiro,  Lu Caffagi, e muitas outras. Todas são incríveis e tem um estilo muito particular.

Speed Painting:


Perfil Meiri

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