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Felipe Cagno e Financiamento Coletivo: “As Crônicas de The Few and Cursed”

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*Por Meiri Farias

Crowdfunding, o financiamento coletivo, sempre foi um dos nossos assuntos favoritos no Armazém. Embora ainda seja novidade para muita gente, mais de vinte plataformas (gerais ou segmentadas) surgiram no Brasil nos últimos cinco anos, gerando curiosidade e cada vez mais interesse tanto da parte dos produtores, que encontraram uma nova forma de viabilizar seus projetos e avaliar seu alcance, como para o público que agora tem mais facilidade de contato com o trabalho do artista, além de colaborar de forma concreta para que o projeto saia do papel.

Felipe Cagno é praticamente um especialista nessa dinâmica. Com 17 campanhas realizadas em quase cinco anos, acredita na conexão com os leitores de suas HQs que se gera durante as campanhas. “Eles estão apoiando diretamente à minha carreira e minha produção de quadrinhos. Não fica aquela experiência diluída de você ir numa livraria, comprar uma HQ, ler e só depois descobrir quem é o autor.”

Atualmente o quadrinista está com a HQ “As Crônicas de The Few and Cursed” em campanha no Catarse. A coletânea faz parte do universo temático de “The Few and Cursed”, que tem como cenário a escassez de água e a presença do sobrenatural e, além do Catarse, teve duas campanhas de financiamento coletivo internacionais pelo Kickstarter. “A recepção foi excelente, a base de fãs fora do Brasil já é quase tão grande quanto a daqui”, conta Cagno. “O leitor americano é muito faminto por conteúdo inédito.” Confira a entrevista completa!

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Armazém de Cultura: Você já é um nome bem conhecido no universo do financiamento coletivo, quantas campanhas já realizou? Por que publicar por meio de crowdfunding?

Felipe Cagno: Verdade, eu já publiquei bastante tanto no Brasil quanto nos EUA apostando no financiamento coletivo. Ao todo foram 17 campanhas em quase 5 anos de uso desse meio.

Eu gosto muito do financiamento coletivo, e do site Catarse, porque é o jeito mais direto que tenho de me conectar com os meus leitores. Eles estão apoiando diretamente à minha carreira e minha produção de quadrinhos. Não fica aquela experiência diluída de você ir numa livraria, comprar uma HQ, ler e só depois descobrir quem é o autor.

O financiamento coletivo me permite me apresentar e compartilhar do sucesso da pré-venda com os próprios leitores. Afinal de contas quanto mais se arrecada no Catarse, mais metas vamos atingindo e melhor vai ficando o quadrinho. Eu adoro isso!

AC: O cenário pós-apocalíptico de “The Few and Cursed” tem como cenário a escassez de água e a presença do sobrenatural. Como surgiu essa temática? O que teremos de diferente com “As Crônicas de The Few and Cursed”?

Felipe: A escassez de água foi por causa da crise hídrica de SP em 2015. Bem na época que estávamos passando por esse período de seca aqui em São Paulo eu estava começando a desenvolver a série e eu precisava de um pano de fundo para monstros e maldições assolarem o planeta, daí me veio a falta de água.

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Vai ter muita coisa diferente nas Crônicas. Não é muito comum pensar nisso, mas na época do Velho Oeste tinha todo um planeta além do oeste americano e é aí que achei a inspiração para as Crônicas. Elas trarão histórias no mesmo período da Ruiva, mas em lugares como Egito, Pérsia, Mongólia, Caribe e Austrália.

Sim, bem diversificado mesmo porque eu quero mostrar que existe um mundo inteiro que sofre com o mesmo cenário pós-apocalíptico que apresentamos na série principal. Estou bem empolgado inclusive para pegar tudo isso que está sendo criado nas Crônicas e puxar para a série principal.

AC: Universos pós-apocalípticos e distópicos sempre inspiraram produtos da ficção com sucesso. Que narrativas (seja nos quadrinhos, cinema ou literatura) são inspiradoras para você? Que obras indicaria para quem se interessa por essa temática?

Felipe: O último Mad Max é excepcional. Sempre curti a série, os filmes antigos, em especial o Road Warrior, mas esse último como é muito próximo do meu cenário pós-apocalíptico me fez perceber que a Ruiva daria sim um baita filme ou série.

Gosto muito também de Walking Dead e o charme para mim da série não é o cenário pós-apocalíptico e sim o que a falta de moralidade resultante dele causa na sociedade que tenta se reencontrar.

Por último, tenho que citar A Torre Negra do Stephen King. Eu li os primeiros cinco volumes do quadrinho produzido pela Marvel depois de ouvir muitos leitores apontando semelhanças com o mundo da Ruiva. Lendo esse material, paro o meu alívio, vejo que são obras bem diferentes com exceção dos personagens principais serem “Gunslingers”. Não é bem um cenário pós-acapolíptico que é retratado na série, mas não deixa de ser uma baita inspiração para o Few and Cursed daqui para frente, simplesmente me apaixonei pelo material. Assim como me apaixonei por Y: O Último Homem do Bryan K. Vaughan, outra obra-prima dos quadrinhos que torço muito que vire uma série de TV.

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AC: Falando nisso, você também tem um trabalho com cinema, certo? Conta um pouco sobre! Tem algum projeto em vista?

Felipe: Tenho sim. Por enquanto só posso falar do Bala Sem Nome que foi minha estreia na direção e roteiro de um longa-metragem. O filme foi rodado em 2012 e estamos até hoje na luta para conseguir lançar mesmo com grande elenco como Paolla Oliveira, Sérgio Marone, Leopoldo Pacheco e Ricardo Monastero.

As coisas no cinema caminham muito mais devagar e demandam um investimento financeiro muito maior e por isso o Bala está ainda na pós-produção.

Além dele ainda tenho outros dois projetos, uma série de TV e outro longa.

AC: Com a popularização dos mais diferentes tipos de quadrinhos, a curiosidade sobre o processo de produção de uma obra cresce cada vez mais. Queremos conhecer mais sobre o seu trabalho como roteirista. Como começou a escrever HQs?

Felipe: Na verdade eu sou formado em Cinema e durante um bom tempo, alguns anos, eu trabalhava só no formato para longa-metragem, nem série de TV eu tinha desenvolvido uma antes de enveredar para os quadrinhos.

Meu primeiro roteiro de longa se chamava Lost Kids, era uma mistura de Senhor dos Anéis com Goonies, e quando apresentei para dois produtores que eram meus chefes quando morei em Los Angeles, ambos sugeriram transformá-lo em livro ou HQ primeiro já que uma obra desse porte tem um orçamento absurdo de caro.

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Gostei da ideia e comecei a adaptar o Lost Kids para o formato de história em quadrinhos. Foram quase quatro anos produzindo o que viria a ser minha primeira graphic novel. Me apaixonei tanto pelo formato que nunca mais larguei risos foi amor à primeira vista!

Ainda escreve o meus roteiros de quadrinhos com a mesma formatação de cinema, ambas as mídias são muito similares mesmo que a linguagem de cada uma delas seja bem diferente uma da outra. Quando escrevo um quadrinho é como se tivesse assistindo o filme na minha cabeça…

AC: Além da campanha pelo Catarse, The Few and Cursed também teve campanhas de financiamento coletivo internacionais pelo Kickstarter. Que diferenças encontrou nas campanhas internas e externas? Como foi a recepção dos leitores fora do Brasil?

Felipe: A recepção foi excelente, a base de fãs fora do Brasil já é quase tão grande quanto a daqui. O leitor americano é muito faminto por conteúdo inédito e a plataforma do Kickstarter é gigantesca se comparada com o Catarse por exemplo. Ao mesmo tempo isso traz dificuldades porque com um mercado muito maior (lá são sempre pelo menos 150 projetos buscando financiamento num mesmo momento, aqui são cerca de 30) é preciso se destacar mais.

O americano pode ser mais curioso em dar chance a novas histórias, mas preza demais qualidade, e não só no produto, mas no envio do mesmo também. Acho que a principal diferença entre as plataformas está aí mesmo no tamanho de cada uma e no perfil de público. O brasileiro ainda está descobrindo o mercado autoral, lá nos EUA ele já existe há muito tempo, mas sofre um certo preconceito, são tantas editoras que se um título é independente pode ser que a razão é porque não passou no “filtro”.

Por isso a HQ independente lá fora tem que realmente impressionar, tem que ser um trabalho não só profissional, mas de exímio sucesso editorial também.

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AC: Compartilhe um pouco sobre os cuidados práticos necessários em campanha de financiamento coletivo! Quais são os principais cuidados que um produtor iniciante precisa ter? E, na sua opinião, qual a maior vantagem de usar esse meio para viabilizar os projetos?

Felipe: Antes de mais nada é preciso estudar a fundo quais projetos similares ao dele já tiveram sucesso no Catarse e quais não tiveram, isso vai dar um norte sobre o que fazer ou deixar de fazer. Acompanhar e apoiar outros projetos uns 3-6 meses antes também ajuda bastante. Isso tudo envolve preparo e é o ponto principal de se colocar uma campanha no Catarse. Sem preparo e estudo, sem um plano de divulgação, de assessoria de imprensa, dificilmente o projeto será financiado (a não ser que o autor já tenha uma base de fãs enorme).

E já disse lá em cima, a maior vantagem do financiamento coletivo é o contato direto com os leitores e a contribuição direta deles no projeto enquanto ele ainda está em fase de produção podendo ter upgrades e inovações como uma capa dura por exemplo.

Saiba mais sobre a campanha de financiamento coletivo de “As Crônicas de The Few and Cursed”

Artes que ilustram a matéria pertencem ao projeto “The Few and Cursed”


Perfil Meiri

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