Questão de Opinião

Reflexão sobre “Chorume”, peça de Vinicius Calderoni e o nosso de cada dia

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*Por Beatriz Farias

O dia é primeiro de julho, 2017, São Paulo. Minutos após a estreia de “Chorume”, 4ª peça de Vinicius Calderoni pela Cia. Empório do Teatro Sortido que está em temporada no Sesc Bom Retiro. Enquanto saio da sala de teatro me deparo com a curiosa impressão de ter escutado a perguntada de alguma resposta que a tanto tempo fazer  descer goela a baixo todos os dias.

A resposta contínua que nos damos, essa de querer continuar, essa de ir frente sem olhar para os lados, Vinicius perguntou a razão. A pergunta pode ser gentil, pode ser bruta, pode ser invasiva, pode ser carinhosa, isso depende da maneira com que cada ser humano, que dispõe sua vontade ao jogo, avalia as vírgulas, as aspas e as interrogações. O que não muda é que a pergunta está lá a mostra para gente lidar. Assim como esse lixo no canto da sua sala que agora te incomoda, assim como a sujeira embaixo do tapete que não deu tempo de varrer. Você já parou para pensar em todo o lixo que vem acumulando no seu tempo de terra? E o tanto de respostas? Você se dedicou a mais perguntas ou respostas? Independente da resposta dessa pergunta, sugiro deixarmos de lado o “porque” para dedicarmos ao “por que?” de tudo que nos move a atravessar uma ponte ou a cidade, ir ver uma peça e estar no mundo.

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Com texto e direção de Vinicius Calderoni, a peça que fica em cartaz no teatro do SESC Bom Retiro todas as sextas, sábados e domingos até o dia 13 de agosto, se propõe a intensificar a pesquisa dramatúrgica e cênica já observada anteriormente em “Não nem nada” e “Arrã”. Os seis atores dispostos no palco – Geraldo Rodrigues, Guilherme Magon, Júlia Corrêa, Mayara Constantino, Paulo Vinicius e Renata Gaspar – se propõe a brincar com o horror extraído da maior futilidade do cotidiano ou da beleza besta das coisas grandes.

Tem essa música de Vinicius Calderoni gravada no disco do 5 a Seco, coletivo em que o dramaturgo integra, cuja letra ganha sentido potente dentro da peça. “Não tem paz” abriga o seguinte trecho: “penso que quem inventou o foguete pra sair da estratosfera, pode ter achado a ideia num passeio ou num lixão”. Em “Chorume”, Vinicius passeia pelo próprio lixão da existência humana observando com atenção algumas ferramentas que encontra pelo caminho, enquanto percebe a utilidade inútil de outras, mas sobretudo, finalmente nos leva a sair da estratosfera. O foguete criado pelo dramaturgo é feito de enganos. Repare você nas invenções diárias, colhidas com o espanto e gratidão de nunca estar pronto para o momento de se apaixonar por tudo que nos toca e tira a dormência causada no cotidiano.

 

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Foto: Divulgação

Chorume é definido como uma substância líquida, decorrente do processo de apodrecimento de matérias orgânicas. Amplamente encontrado em lixões e aterros sanitários, o líquido viscoso possui “odor muito forte e desagradável”, como informa o Google. Uma tradução elaborada para: cheiro de coisa podre. Por conta superabundância de matéria orgânica que se encontra no chorume, usualmente o mesmo atrai moscas que assim sucessivamente atrai doenças aos seres humanos.

Pausa para que você possa absorver alguma possibilidade metafórica entre o significado do chorume enquanto sinônimo dos acúmulos emocionais da nossa sociedade atual. Ou não.

Por exibir notável concentração de metal pesado e substância tóxica, o chorume é fortemente poluente e não pode ser descarregado no solo. Ele precisa ser tratado.

Outra pausa.

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Assim como o chorume enquanto matéria literal, “Chorume” a peça, provém dos resíduos de cotidiano considerados não teatrais. O dramaturgo comenta que o espetáculo nasceu de fragmentos de outros textos, rascunhos, o lixo mesmo. No palco, o desconforto do que somos levados a crer que não cabe é elemento para jogo e vamos acompanhando o labirinto dos atos creditados aos melhores acasos que não pareciam ter importância. E é nesse cenário que entendemos o que os pesquisadores informam quando pesquisamos “as vantagens e proveitos do chorume” no Google.

 

A capacidade do líquido percolado de adubo por si só já desvenda a grandeza dramática da ação renascimento. Mas cabe a quem assiste pensar ainda na fertilidade proveniente do fedor, porque as vezes a sobra, aquilo que a gente decide jogar fora, é a única coisa que revela de fato o peixe que estamos vendendo por trás do peixe que estamos vendendo (como sugere Apanhador Só com a canção “Por trás”).

Na peça escrita por Vinicius Calderoni e seus resíduos, a estética do lixo é importante para a linguagem. E é esse mesmo poder da linguagem que sempre se mostrou intenso nos trabalhos do artista que aqui ganha força pelas palavras encontradas nos escombros, bem como o hálito do dia a dia, o cheiro da nossa feiura e o seu e nosso grande trunfo: a repetição. O “água mole em pedra dura” do autor é o próprio sentido da palavra, que em inúmeros momentos é dita novamente na peça até perder seu sentido original e se metamorfosear na veracidade do próprio som. Enquanto as palavras são repetidas até perderem o sentido, a impressão que dá é que Vinicius repete as cenas até fazer sentido o convívio cotidiano, quando construções frasais sem relevância como “eu estou grávida”, “a água” e outras mais, parecem ser ditas além da necessidade de preencher os espaços do tempo.

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Foto: Divulgação

O trabalho da literalidade das palavras ganha liga no conjunto entre a imprecisão de cada ação. As cenas se assemelham a sombras da nossa memória, como cada fato vivido que ao relembrarmos já se distancia da ação inicial para ser dar voz a nossa imaginação reinventando o ato. Na conclusão da trilogia essa maleabilidade ganha um aliado: o corpo. A fotografia dos atores enquanto corpos não deixa palavra que sobre a não ser a beleza. A linguagem sempre tão essencial no que Vinicius escreve, agora parece dar um aperto de mão resistente ao tronco. O corpo do ator agora está escrito, inscrito de uma disponibilidade quase, casual, quase como se não restasse outra alternativa como viver todos os “quases” para estar ali inteiro.

Por falar em ator, o elenco é composto pelas muitas pessoas que cabem ou despencam em Geraldo Rodrigues, Guilherme Magon, Júlia Corrêa, Mayara Constantino, Paulo Vinicius, Renata Gaspar e Fabrício Licurs, que em 90 minutos riem de si rindo de tudo. Assistindo a peça, minha vontade era encarar as outras pessoas que dividia aquele momento comigo enquanto acenava ao palco dizendo sobre os atores aquela frase tão repetida em cena que explica brevemente o espetáculo: observe como corre. Observem como a movimentação daqueles corpos exemplifica toda uma ideia de coletivo. A grandeza de estar com e para. Como Vinicius nomeou em seu texto para o folheto da peça, aqueles autores são seu cardume. Afinal, como o mesmo disse também, “um espetáculo é sempre uma vitória sobre a solidão”.

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Foto: Vinicius Calderoni

E de tanto falar do criador, aqui vai uma mini bio. O paulista Vinicius Calderoni flerta com a música, cinema e teatro em uma carreira de dramaturgo, diretor, ator, músico, letrista e tanto mais que ainda vai ser inventado. Colecionando indicações e prêmios, o multiartista não está no palco em “Chorume”, mas a sensação que me vem é que o mesmo olha para sua plateia e calmamente apresenta: olha aí o seu lixo. Toma sua produção e olha nos olhos do seu lixo porque é capaz de achar ridículo, é capaz de achar excitante a pobreza, a miséria das coisas que eram grandes e agora mal são coisas. Toma com atenção esse lixo, eu o imagino dizendo, porque no meio dos escombros é capaz de achar a própria vibração que nos mantem.

E já que falamos da vibração, convém mencionar o título dado para a trilogia da qual “Chorume” faz parte. “Placas Tectônicas” é o nome dado para o conjunto entre “Não nem nada” (indicação Prêmio Shell Melhor Atriz para Renata Gaspar e indicação Melhor Autor para Vinicius Calderoni), “Arrã” (Prêmio Shell de Melhor Autor para Vinicius Calderoni) e o terceiro elemento/agora “Chorume”. A escolha para denominação por si só já compreende o sentido real atribuído a teoria da tectônica de placas, já que no fim, é tudo uma questão de encontrar o padrão da convergência e divergência, assim como o tudo que nos atravessa e divide com brutalidade e esperança.

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A ideia de colocar em cena diversas circunstâncias que geralmente não nos passa pela mente caber no palco, provoca transtorno quando compreendemos cambaleantes que a única coisa que fazia sentido real era falar do lixo mesmo. O lixo e o humano. Porque já sabemos que o momento político em que nos encontramos é particularmente conturbado, mas que maneira melhor de celebrar a discórdia do insuportável se não gargalhando? Sim, a risada como remédio desse cada quase lixo-humano em que cada um com seu cada qual está amarrado. A comédia é viva e suporta, porque como Vinicius mesmo admite: “somos capazes de rir na cara do horror sem sucumbir ao estupor e paralisia.”

O cenário (cenografia: André Cortez) é um dos personagens com grande potencial da peça: as grades que se movimentam de um lado para o outro abarcam a própria possibilidade de reciclagem do chorume. Sobre utilizar poucos artifícios para falar de muito assunto com clareza, porque aquele objeto sem definição exata é todas as outras coisas a mais que o seu ferro e pintura, e, no entanto, não precisa de maquiagem ou algo mais além do ferro e da pintura para estar ali. E é dessa desconstrução do sentido mais básico de um objeto-palavra, que a repetição vira anuncio de algo que está em movimento constante de quebra e construção.

Estudos da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) revelam que 1 kg de lixo por habitante por dia é a média de produção de um brasileiro. Já em São Paulo capital, a conta sobre para 1,5 kg, indicando ainda que 10% de todo o lixo formado todos os dias no país vem da capital paulistana, o que equivale a 17 mil toneladas diárias de resíduos. Dito isso, me pergunto o que acontece se a gente dá de cara com todo lixo físico e emocional que já produzimos na vida. Certamente a visão de nossa herança para o mundo de agora “Chorume” desvenda. E então “de dentro deste instante insuficiente que nunca mais vai se repetir (comentário da autora do texto dentro da aspa, para mencionar a possível definição do indecifrável que é o teatro dentro da frase do artista), penso que chorume é sobre se mover numa zona cinzenta permanente entre construção e ruína”. E como já diria Matilde Campilho, “até as ruínas podemos amar nesse lugar”.


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Beatriz Farias: Tumblr | Instagram

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